Peixinhos coloridos pulam de muro em muro, acompanhados de rostos dos mais variados tamanhos. Mulheres negras carregam seus filhos, enquanto pássaros em preto e branco entram em contraste com as múltiplas cores das penas de adereços indígenas. Neste meio tempo, olhos e bocas desfiguradas acompanham homens de camisas estampadas e chapéu de palha com a palavra escrita em letras garrafais: caipira. Quem estiver passeando pelas largas calçadas do Centro, em Goiânia, não se surpreenda se, de repente, encontrar um beco cheio de imagens que se assemelham a sonhos e devaneios. Trata-se de intervenções artísticas de diversos artistas de Goiânia que, de forma independente, resolveram ocupar o Beco da Codorna, localizado entre a Avenida Tocantins e a Rua 9, na Avenida Anhanguera.

Reflexo de uma tendência de urbanismo tático que começou, principalmente, em 2015, o Beco da Codorna é uma verdadeira galeria a céu aberto, fruto do trabalho coletivo entre artistas, moradores e da Associação dos Grafiteiros de Goiânia. Com a agenda cheia e sempre muito bem visitado por jovens que desejam assistir alguma apresentação musical, participar de feirinhas gastronômicas ou conferir espetáculos de teatro ou dança, o local recebe hoje, por exemplo, o projeto Cine Codorna, com a exibição de filmes independentes e mesas-redondas para se discutir a produção audiovisual em espaços urbanos, além de exposições fotográficas, live painting e ponto gastronômico.

“Todos os dias, quando passava na porta do beco, sentia que aquele ponto poderia tornar-se algo mais atrativo para o Centro, já que é um local muito bem localizado, bem atrás do Centro Municipal de Cultura Goiânia Ouro e perto do Teatro Goiânia e da Vila Cultural Cora Coralina”, conta o artista Eduardo Aiog, que é o presidente da Associação dos Grafiteiros e o fundador da Upoint Streetart, uma galeria de arte criada e mantida pelo artista desde o ano passado localizada em uma das extremidades do Beco da Codorna. “O espaço estava abandonado. A partir daí que surgiu a ideia de fazer uma associação que juntasse os artistas. Foi assim que fizemos o Festival Beco, que reuniu quase 70 grafiteiros”, explica.

O beco, que já foi área de carga e descarga de mercadorias das lojas comerciais da famosa Galeria Tocantins, em tempos áureos do Centro, agora passa por um processo de transformação urbana. De dia, o espaço ainda serve de estacionamento para os trabalhadores da região. Quando a noite cai, eventos são realizados de maneira intercalada, entre cinema, música, artes cênicas e festas temáticas. Mas a lotação máxima fica por conta dos finais de semana, principalmente no domingo, quando o espaço abre para eventos culturais. “Trata-se de ações de fomento e incentivo à ocupação de lugares que até então não tinham propostas culturais, mas são interessantes, principalmente para estimular o crescimento do grafite e do muralismo em Goiânia, que começam a caminhar à passos largos para sua profissionalização”, aponta Aiog.

E, no final da rua, um beco

Em São Paulo, os grafites já fazem a fama na Vila Madalena há algum tempo, como o Beco do Batman, reflexo de uma inclinação aos projetos culturais que saem dos palcos de teatro e galerias de arte tradicionais e vão parar em pontos específicos da cidade. “O beco cria uma convergência entre diferentes linguagens que a arte urbana contempla, com artistas atuantes já há algum tempo ao lado de outros mais novos. É uma ação de arte contemporânea que faz com que pensemos em como nos relacionamos com a cidade em que vivemos. Como diz o ditado: se quer mudar o mundo, comece pela sua tribo”, comenta o artista visual Mateus Dutra, que tem trabalhos estampados em diferentes pontos do Beco da Codorna.

Só na segunda edição do Festival Beco, realizado em julho, mais de 80 artistas de Goiânia, Distrito Federal, São Paulo, Rio, Minas, Bahia, Pernambuco, Paraná e da Colômbia participaram do projeto e deram uma nova cara o beco, a exemplo de Wes Gama, Binho, Morbeck, Adam, Toys e Omik. “É preciso que mais espaços da cidade cumpram com a função social por meio de ações de arte e cultura, não só no Centro, mas que projetos assim se espalhem pelas periferias. O poder público precisa conhecer a sua própria cidade, o que não acontece em Goiânia”, reitera Mateus.

Cine Codorna
Data: Terça-feira, 16 de agosto
Local: Beco da Codorna (Avenida Anhanguera, entre a Av. Tocantins e a Rua 9)
Horário: A partir das 17 horas
Programação:
17h: Exibição de clipes de bandas locais.
18h40: Exibição do curta francês Maioria Oprimida
19h: Exibição de Irreversível, de direção Gaspar Noé
21h: Mesa-redonda
23h: Encerramento