Uma das óperas mais populares e mais frequentemente encenadas do repertório lírico, Carmen, de Georges Bizet (1838-1875), ganhou releitura para balé e orquestra. A apresentação entra em cartaz nesta sexta-feira e segue até domingo, sempre às 20 horas, no Palácio da Música Belkiss Spenzièri do Centro Cultural Oscar Niemeyer. A estreia marca o tão aguardado retorno aos palcos dos alunos da Escola do Futuro de Goiás em Artes Basileu França, acompanhados da Orquestra Sinfônica Jovem de Goiás, após o início da pandemia da Covid-19, que fechou casas de espetáculos em todo mundo. Um cenário sem precedentes na história.

“Com as medidas de isolamento social, houve a privação de nosso bem maior: o contato direto e caloroso com nossos alunos. A adaptação emergencial nos fez ficar frente a frente às frustrações e às barreiras que nos exigiram muitos esforços, a fim de estreitar relações mesmo vivendo mais virtualmente do que presencialmente”, explica Simone Malta, diretora artística do espetáculo, sobre o período pandêmico. Com o avanço da vacinação, Goiânia vê a cena cultural avançar com a retomada gradual da programação teatral.

Para o retorno aos palcos, foram estabelecidos protocolos de convivência e segurança sanitária tanto antes como durante o espetáculo. A ocupação máxima será de 50% dos lugares, respeitando o distanciamento entre o público, e é obrigatório o uso de máscaras para ter acesso ao Palácio da Música. Para Simone, a estreia de hoje significa a reafirmação das competências profissionais envolvendo pessoas que sabem o que é fazer acontecer, graças à força de vontade, dedicação e amor à arte.

Ao todo, cerca de 150 pessoas, entre alunos, músicos e profissionais, estão envolvidas na montagem de Carmen que foi adaptada pelo coreógrafo Binho Pacheco. As bailarinas Nathalia Nascimento, hoje, Alice Campelo, amanhã, e Jaquelyne Alessandra Barbieri, no domingo, vão se revezar no papel principal da cigana espanhola linda e fascinante que seduz o policial Don José, abandona-o pelo toureiro Escamillo e vive uma trama calorosa e cheia de amor e paixão.

“A releitura ganhou um frescor de modernidade com a coreografia que transita do clássico ao contemporâneo, além da criação de novos personagens”, explicou Binho ao POPULAR. Para o coreógrafo, um dos maiores desafios da montagem foi trabalhar uma história intensa com um elenco tão jovem. “Apesar da pouca idade, os bailarinos foram amadurecendo com o processo coreográfico e com o trabalho de construção de cena que foi desenvolvido pelo Clégis de Assis e Fábio Henrique, possibilitando ao elenco a maturidade necessária para a obra”, ressalta.

Quando estreou, na noite de 3 de março de 1875, a plateia presente na Opéra-Comique de Paris considerou Carmen um escândalo. Acostumado com histórias ditas “edificantes”, o público ficou incomodado com aquele espetáculo singular, no qual uma cigana desprovida de qualquer moral, sem remorso ou piedade, enfeitiçava e levava os homens à perdição. Em vez de final feliz, um assassinato em cena. O que eles não poderiam imaginar é que aquela obra se tornaria uma das mais populares do mundo.

“Até então, as óperas costumavam retratar as personagens femininas em função das masculinas. As mulheres normalmente tinham papéis mais submissos, sendo aquelas donzelas indefesas que morriam por amor. Assim, Carmen quebra esse paradigma sendo a protagonista da ópera e dona de seu próprio destino, capaz de fazer suas próprias escolhas. Aliás, essa é uma marca forte da personagem, pois é exatamente isso que ela prega para as outras pessoas na ópera: seja livre, tome suas próprias decisões”, destaca o coreógrafo Binho Pacheco.

Novos aprendizados
Diretora da Escola do Futuro de Goiás em Artes Basileu França, a professora Lóide Batista explica que a sensação entre alunos e professores da instituição é de recomeço. “A pandemia da Covid-19 afetou toda a produção artística no geral, muitos alunos não tinham instrumentos para estudar, uma sala com piso adequado para dança. Por outro lado, nos mostrou novos caminhos, ampliou o acesso às artes, por meio das plataformas digitais. Vamos sair dessa pandemia mais fortalecidos enquanto escola, juntaremos o que já praticávamos com os novos aprendizados”, acredita.

Para ela, o retorno aos palcos hoje é mais uma prova de resiliência da classe artística. Recentemente, o governo do Estado, por meio da Secretaria de Desenvolvimento e Inovação, assinou um convênio entre as escolas do futuro e os colégios tecnológicos com a Universidade Federal de Goiás. “Acreditamos que uma instituição respeitada como a UFG certamente somará muito ao Basileu França. A escola já retomou as aulas e a partir de outubro retornaremos parcialmente as aulas práticas”, explica Lóide. Uma montagem de O Lago dos Cisnes com alunos do Basileu deve chegar aos palcos em dezembro.