Lima Barreto é daqueles autores incômodos. Incomoda por desenhar personagens e criar enredos que tocam em nervos expostos como poucos escritores brasileiros. Filho de um tipógrafo e de uma professora primária, as letras sempre fizeram parte de seu cotidiano humilde. Amparado pelo Visconde de Ouro Preto, chegou a concluir o curso secundário. O sonho de se tornar engenheiro, porém, precisou ser substituído pela realidade de se arranjar em um emprego no Ministério da Guerra de uma República ainda em sua infância, mas já com seus vícios.

As distorções causadas pelo poder e amplamente exercidas em sua estrutura nunca foram aceitas por aquele homem de pele escura e que teve em sua cor um impeditivo para avançar na carreira burocrática e nas esferas culturais. Militando desde cedo no jornalismo, suas crônicas eram ácidas, quando não um pouco rancorosas, o que lhe valeu uma fama não muito boa entre seus pares. Ele tinha a ousadia, por exemplo, de castigar com palavras pouco lisonjeiras ninguém menos que Machado de Assis. “Machado era um homem de sala, amoroso das coisas delicadas, sem uma grande, larga e ativa visão da humanidade e da arte”, atacou certa vez.

As personalidades de maior vulto de seu tempo estavam na mira de uma escrita criativa e dilaceradora. O general Floriano Peixoto surge em Triste Fim de Policarpo Quaresma como mais um a abusar da ingenuidade do personagem, um tipo honesto em meio a tubarões prontos a devorá-lo. Tudo se resume, percebe no fim o pobre Policarpo, a um jogo de interesses, a uma hipocrisia moldada a manter privilégios, extinguindo seus sonhos de uma nação grandiosa e justa. Triste fim para Policarpo e para todos nós em um Brasil que parece ampliar seus defeitos e suas desgraças.

O mulato que chega do interior ao Rio de Janeiro cheio de sonhos e projetos e é arrastado para as profundezas em um turbilhão de armadilhas, protagonista de Recordações do Escrivão Isaías Caminha, é um pouco o próprio Lima Barreto, que não poupava nem a si mesmo de um visão crítica. As relações de desigualdade, muito intensas e visíveis no País que abolira a escravidão poucos anos antes, parecem persistir, violentas e cruéis, ainda hoje. Para isso, basta ler este livro, lançado exatos cem anos atrás.

Clara dos Anjos, O Homem que Sabia Javanês, Numa e a Ninfa, A Nova Califórnia, O Jornalista, O Cemitério, O Feiticeiro e O Deputado são contos que expressam a navalha com que Lima Barreto costumava cortar na carne de desafetos, de plutocratas, expondo a ambição desmedida de governantes, de ricos senhores, de honoráveis donos do poder. Quando Lima Barreto escancara as vísceras de um sistema corrompido, composto por gente da pior espécie, em que a honestidade é um insulto e a falta de ética é uma virtude, impossível não pensar que o escritor que comeu o pão que o diabo amassou poderia estar dando suas pauladas nos tempos atuais.