Algumas crianças, depois do período do desfralde e mesmo após os 5 anos de idade, ainda molham a cama enquanto dormem. A chamada enurese noturna é a continuação do hábito involuntário de fazer xixi na cama após a idade em que as crianças já devem controlar a urina. O problema afeta mais meninos que meninas e acomete cerca de 15% dos pequenos por volta dos 5 anos, 7% com 10 anos e 3% aos 12 anos. O distúrbio pode ser classificado como primário ou secundário e as causas são diferentes.

A enurese primária acontece quando uma criança com 5 anos ou mais nunca apresentou um período prolongado de controle da urina durante o sono. Suas causas podem ser orgânicas, como bexiga hiperativa, imaturidade do sistema nervoso e secreção baixa à noite do hormônio antidiurético vasopressina. A herança genética também é um fator: a chance de a criança ter o distúrbio aumenta em 40% se um dos pais também teve ou em 80% caso os dois tenham esse histórico. Já a enurese secundária se dá quando, sem causa aparente, a criança volta a fazer xixi na cama depois de ter passado seis meses, no mínimo, sem molhá-la. Nesse caso, as causas podem estar associadas a traumas emocionais ou a acontecimentos sociais e familiares estressantes, já que a enurese acontece depois que o pequeno já aprendeu a controlar o xixi.

Como o distúrbio afeta crianças em um período importante de desenvolvimento escolar, social e interpessoal, é fundamental que os pais observem, compreendam e direcionem o filho ao tratamento, sem ridicularização ou culpa. “Isso pode levar a criança a ser vítima de bullying, provocando um alto nível de estresse. Em alguns casos, ela torna-se arredia, evitando dormir na casa de amiguinhos e viajar, além de ter seu desempenho escolar prejudicado”, afirma a psicóloga Virgínia Suassuna.

Especialistas orientam que os pais não devem, de maneira alguma, castigar a criança, tratá-la de forma pejorativa, comparar ou puni-la com agressões físicas, castigos e ameaças psicológicas. Além de reprováveis, essas atitudes não resolvem o problema e podem agravá-lo. O ideal é buscar ajuda profissional até para a prevenção, já que 70% das crianças que apresentam enurese têm doses insuficientes de hormônio antidiurético. Livrar a criança desse embaraço é uma responsabilidade dos adultos. Após a avaliação médica, é importante buscar um psicólogo. Pais ou parentes próximos que tenham tido o problema podem relatar isso à criança. Afinal, descobrir que não é diferente dos demais será um estímulo positivo, para ela.

Dúvidas frequentes

Quem tem em casa uma criança que faz xixi na cama vive procurando maneiras de evitar os lençóis molhados. Entre as medidas mais adotadas, está a exaustiva tarefa de acordar a criança durante a madrugada para usar o banheiro e voltar para a cama. “A justificativa, segundo as mães, é proteger o colchão e ajudar a criança a entender que ela precisa ir ao banheiro quando a bexiga fica cheia”, conta o urologista Atila Rondon, que atua em urologia pediátrica. Mas afinal, isso ajuda mesmo no controle da enurese? Confira algumas perguntas mais ouvidas pelo especialista no consultório.

Meu filho chegou em casa dormindo. Devo acordá-lo para fazer xixi no banheiro?

Sim. É muito comum que as crianças voltem dormindo de festinhas ou passeios mais longos. Contudo, antes de colocar seu filho na cama para dormir, o ideal é acordá-lo para fazer xixi no banheiro. Isso porque todo o líquido que ele consumiu permanecerá armazenado na bexiga por um longo tempo, facilitando episódios de perda involuntária. No caso da enurese, isso é ainda mais importante, já que a criança produz, naturalmente, mais urina à noite e tem uma capacidade menor da bexiga.

E durante a noite, é certo acordar a criança para ir ao banheiro?

Não. Muita gente usa essa alternativa no intuito de preservar o estofado do colchão, mas a técnica não é recomendada. Acordar a criança durante a noite faz com que ela tenha um sono superficial e, por consequência, possíveis lacunas em seu desenvolvimento. A própria qualidade de vida da mãe passa a ser afetada, já que ela também precisa acordar para levar a criança ao banheiro.

Quais são os prejuízos do sono interrompido?

A enurese pode acontecer em todas as fases do sono e é por isso que não adianta escolher um horário para acordar a criança e levá-la ao banheiro. Por não haver um esvaziamento completo da bexiga durante os episódios de perda, é comum que a criança faça xixi na cama várias vezes em uma mesma noite. A qualidade do sono está ligada às atividades que são realizadas ao longo do dia. Invista nos exercícios físicos apropriados à idade do seu filho e evite os equipamentos eletrônicos à noite.

Devo colocar fraldas no meu filho para dormir?

Por mais que a ideia seja evitar qualquer incômodo, colocar fralda em crianças acima de 5 anos pode prejudicar o desenvolvimento emocional e não ajuda no tratamento da enurese. Converse com o especialista e tente outras abordagens. A própria retirada precoce da fralda – em média, antes de 1 ano e 8 meses – aumenta as chances de xixi na cama. Antes de desfraldar, identifique na criança os sinais de que ela está preparada e evite pressioná-la.

Existe um horário para levar a criança ao banheiro à noite?

Sim. O ideal é que a criança vá ao banheiro logo antes de deitar-se e assim que acordar. A ingestão de líquidos durante a noite deve ser evitada, assim como o consumo de alimentos com cafeína ou estimulantes. Durante o dia, cuide para que a criança se hidrate bastante e vá ao banheiro com frequência. Criar rotinas é uma maneira simples de estimular o desenvolvimento da bexiga e evitar as perdas de xixi na cama. Mas atenção a sinais como jato fraco, ardência ou contenção. Eles podem indicar que o mecanismo urinário precisa da atenção de um especialista.

O que fazer quando meu filho acordar com o pijama molhado?

Mesmo com todos os cuidados, às vezes o xixi escapa. Procure oferecer conforto à criança e mostrar que a enurese é apenas uma fase que vocês passarão juntos. Nada de castigos, punições ou deboches. Por mais estressante que a situação seja, a criança não tem culpa – nem os pais. Procure um especialista e trace alternativas. O apoio dos pais é indispensável para que a criança supere o transtorno sem traumas e, de preferência, com qualidade de vida e de sono.

A ansiedade piora o quadro?

A criança com enurese não consegue controlar a micção durante o sono e os episódios ocorrem involuntariamente. Em momentos de estresse, a ocorrência do xixi na cama pode aparecer, sim, com mais frequência. Os pais devem ficar atentos ao comportamento da criança para identificar se é uma situação esporádica ou se está sendo recorrente.

O tratamento é o mesmo para todas as crianças?

Cada criança deve ser avaliada para que o especialista detecte o tipo de tratamento mais indicado. Algumas das causas da enurese são excesso de produção de urina, menor capacidade vesical ou dificuldade de acordar. Nesses casos, o especialista pode indicar medicações ou dispositivos médicos. Inserir pequenas mudanças na rotina, como evitar que a criança ingira líquidos duas horas antes de dormir e incentivar o xixi antes de deitar-se e logo ao acordar, também são recomendados e podem trazer bons resultados. Cada noite seca precisa ser encarada como uma vitória, valorizada com elogios e muito carinho.

Tenha paciência

Valorizar as noites secas também é uma etapa importante do tratamento que precisa ser feita com carinho e paciência. Uma dica é utilizar um calendário e marcar com adesivos coloridos ou estrelas sempre que a criança conseguir ficar seca durante a noite. Propor algum passeio especial em família, após uma semana sem a criança acordar molhada também é uma maneira de aproximar e proporcionar mais união à família. Confira os principais sinais que merecem a atenção dos pais para detectar a enurese.

“É importante lembrar que os episódios de xixi na cama podem abalar emocionalmente a criança, deixando-a desmotivada e fazendo com que ela tenha uma vida social mais reclusa. Caso o hábito de molhar os lençóis durante o sono esteja interferindo no dia a dia do seu filho, leve a questão a sério. Há muitos casos da persistência da enurese na vida adulta por conta da ausência ou tratamento inadequado na infância”, explica o urologista Atila Rondon.

Sinais que merecem atenção

Após os 5 anos

Se o seu pequeno nunca chegou a mostrar um padrão de noites sequinhas após os 5 anos, é preciso procurar a ajuda de um pediatra. A persistência dos episódios de xixi pode caracterizar a chamada enurese primária, que é quando a criança não apresenta períodos prolongados de controle da urina.

Cama molhada após ter adquirido o controle

Quando a criança chega a ficar por um período de seis meses ou mais sem fazer xixi na cama e volta a molhar depois desse tempo, é importante procurar ajuda de um pediatra e até mesmo de um psicólogo. Isso porque, nesses casos, as perdas estão geralmente associadas a fatores emocionais (estresse, medo, tristeza, ansiedade, entre outros). Essas perdas de xixi sem motivo aparente são chamadas de enurese secundária.

Alterações de cor no xixi

É importante que os pais verifiquem também possíveis alterações na coloração da urina. Xixi cor mel ou âmbar podem indicar desidratação. Xixi na cor laranja está relacionado com a falta de água ou problemas biliares, por exemplo. Ao verificar mudanças de cor, é importante que a criança se consulte com um urologista, que vai diagnosticar as possíveis causas.