O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estima que no Brasil cerca de 10 milhões de pessoas são surdas, condição que pode ser adquirida de duas maneiras: congênita, quando aparece no nascimento, e condição adquirida, quando surge ao longo da vida. Para mergulhar nesse mundo e entender melhor como é a vida dessas pessoas e de quem convive com elas, o primeiro passo é saber diferenciar surdez e deficiência auditiva.

Sim, os dois termos não têm a mesma definição. A deficiência auditiva é qualquer alteração na audição que pode levar a uma dificuldade para ouvir os sons e é classificada de leve a moderada. Já o termo surdez é usado para perdas profundas e pode ocorrer motivada por diferentes causas.

O otorrinolaringologista Paulo Humberto Siqueira explica que essas doenças congênitas podem ser hereditárias, transmitidas pelo gene (genéticas) ou adquiridas durante a gestação com viroses, uso de alguns medicamentos, irradiação, dentre outros fatores. Por isso, o médico alerta que antes do nascimento o correto é fazer um pré-natal adequado. “A mãe deve evitar o uso de medicamentos que podem prejudicar a criança e não se submeter à irradiação até o terceiro mês de gravidez. Além disso, após o nascimento, caso o bebê necessite de um tratamento no ouvido, as drogas ototóxicas devem ser evitadas, assim como ouvir sons de intensidade elevada”, argumenta.

Ainda segundo Paulo Humberto, muitas dessas doenças são passíveis de tratamento clínico ou cirúrgico. “Mais recentemente, surgiu o implante coclear, uma cirurgia para surdez profunda, com implantação de eletrodos na cóclea e resultados compensadores. O procedimento é indicado também para crianças que nascem surdas e que seriam surdas-mudas pelo resto de suas vidas”. O otorrinolaringologista destaca que o procedimento deve ser realizado o mais precocemente possível. “O ideal é que a criança seja operada já no primeiro ano de vida, pois isso garante o restabelecimento da audição, a aquisição da linguagem e o desenvolvimento escolar semelhante ao de uma criança na condição normal e da mesma idade.”

Ação e reação

Na terceira idade, o processo de perda auditiva pode ficar mais acelerado, mas o distúrbio vem atingindo cada vez mais a população jovem e adulta. Com a exposição prolongada a sons muito altos, principalmente por causa do hábito de ouvir música em fones de ouvido, os brasileiros estão perdendo a audição mais cedo. De acordo com a Associação Brasileira de Otorrinolaringologia (ABO), atualmente mais de 20 milhões de brasileiros têm alguma dificuldade para ouvir.

A fonoaudióloga Isabela Papera explica que, normalmente, é a partir dos 50 anos que os indivíduos começam a observar dificuldades para ouvir. Depois dos 60 anos, para muitos, o quadro pode se agravar e, por isso, é importante buscar ajuda aos primeiros sinais de incômodo. “Isso porque o problema acarreta dificuldade de participar de atividades sociais, com efeitos psicológicos negativos, como isolamento, insegurança, tristeza, irritação, medo e até depressão”, explica a especialista, ressaltando ainda que pessoas com perda auditiva não tratada apresentam, em geral, mais problemas físicos, como cansaço, dor de cabeça, vertigem, tensão muscular e insônia.

Nova chance de ouvir

Uma recente pesquisa realizada nos Estados Unidos com 1.500 pessoas com déficit de audição mostrou que nove entre dez usuários de aparelho auditivo afirmaram ter melhor qualidade de vida após o uso da prótese auditiva. “Antigamente, o transtorno era grande. Quem tinha problemas de audição usava aparelhos enormes, que causavam constrangimento. Por isso, muitos resistiam e preferiam ficar sem ouvir. Mas hoje em dia, com a evolução tecnológica, temos aparelhos auditivos com tanta tecnologia quanto os celulares e que trazem enormes benefícios. Muitas vezes, as pessoas em volta nem notam o aparelho, tamanha a discrição”, reforça a fonoaudióloga.

Convivendo com a surdez

A social media Vivian Maria Melo, de 28 anos, é filha de um casal de surdos. O pai, Roberto Afonso Costa, 66, já nasceu com a condição e a mãe, Carmem Lúcia de Melo, 68, perdeu a audição aos 3 anos de idade após uma reação alérgica a penicilina. A filha sabe melhor que ninguém quais são os principais desafios que as pessoas com surdez enfrentam. “Para a minha mãe, ser surdo no Brasil é difícil porque as empresas não estão adaptadas.
 
Geralmente, os empresários não recrutam funcionários surdos e, ainda, alguns intérpretes passam a impressão de não serem tão pacientes como a profissão exige”, lamenta.
Além das barreiras diárias, as pessoas surdas também enfrentam situações de preconceito por conta da curiosidade ou até mesmo pela falta de bom senso de gente que não está acostumada a conviver com essa realidade. “Um exemplo que minha mãe sempre cita é quando alguns surdos estão reunidos em locais públicos e algumas pessoas olham com desdém para o uso da Libras (Língua Brasileira de Sinais)”, conta a filha.

Experiência familiar

Vivian considera desafiador o convívio diário com duas pessoas surdas em casa, mas, hoje, avalia a rotina com os pais como tranquila, pois consegue compreender melhor o mundo deles. Contudo, nem sempre foi assim. “Quando eu era mais nova, algumas situações me chateavam, por exemplo, estar longe e precisar avisar algo a eles. Não tinha ninguém para passar o recado. Quando eu passava mal na escola, já contava aos professores que meus pais são surdos e que não tinha como avisá-los para me buscar”, lembra.

Com o intuito de melhorar a convivência em família, a social media decidiu se unir aos CODA, acrônimo para definir Filhos de Pais Surdos. “A troca de experiências com essas pessoas me ajudou muito. E, claro, não posso negar, a tecnologia também. Se tem algum problema com meus pais e eu estou longe, é só mandar uma mensagem de texto”, conta a filha do casal Roberto e Carmem Lúcia. Entretanto, mesmo com algumas ferramentas aliadas para facilitar a rotina, Vivian acredita que é preciso lutar por mais inclusão. “O mercado de trabalho para o surdo ainda é restrito. E afirmo isso porque sempre acompanhei de perto a dificuldade do meu pai em encontrar emprego. A pessoa surda só passou a ganhar mais notoriedade em 2017, depois da redação do Enem, que tratava do assunto. Foi muito gratificante ver esse tema discutido pela sociedade.”