A conversa entre a reportagem e a advogada aposentada Themis Christina Ferreira Silva, de 65 anos, aconteceu enquanto ela se arrumava para ir para a sessão de fisioterapia, que está realizando diariamente após uma cirurgia para tratar de um ferimento antigo no tornozelo causado por um acidente. Ela conta sobre esse e outros episódios de sua vida com tranquilidade e agradecida por conseguir resultados positivos em seus tratamentos, como no caso do câncer que culminou na retirada de suas duas mamas em um período de três anos.

“Tirei a esquerda há nove anos, mas sempre observando a direita, que era a que apresentava nódulos”, conta. No caso da mama esquerda, o tipo câncer não era palpável e, por isso, não era detectável somente com o exame de toque. “Por isso é importante fazer a mamografia com frequência. Quando descobrimos, o câncer já estava no mamilo e nos linfonodos. O médico explicou que era maligno e que seria preciso a retirada cirúrgica de toda a mama”, relembra.

O primeiro sentimento com a notícia foi de susto. “Na hora você aceita, né. Logo pensei: tenho certeza de que não estou sozinha nessa, Deus está comigo”, lembra. Após a retirada, Themis passou pela reconstrução mamária, uma cirurgia plástica reparadora com uso de prótese, indicada para grande parte das mulheres que passam pela mastectomia. “Tive de tirar o mamilo e toda a aréola. Falava que esse seio era a minha carequinha”, brinca.

Três anos de hormonioterapia já haviam se passado quando o oncologista viu que seria preciso retirar também a mama direita. “Nessa segunda vez, eu já estava mais preparada e fiz com um médico mais voltado para a estética; então, a direita ficou até arrumadinha”, brinca ela. Nessa época, Themis conheceu o procedimento de micropigmentação de aréolas mamárias, que consiste em refazer o desenho das aréolas como em casos de quem passou pela mastectomia. A técnica pode ser realizada também por outros motivos. “Não pude fazer naquele momento porque tinha de esperar cicatrizar e observar se tinha reações à prótese”, conta. Assim que o médico a liberou, ela procurou uma profissional para realizar o procedimento.

“Essa profissional foi de uma importância ímpar na minha vida. Dividi com ela o que eu esperava e amei o resultado, fiquei toda vaidosa”, diz. “É muito importante outras mulheres conhecerem esse procedimento. É algo que mexe direto na autoestima mesmo”, continua. O resultado foi satisfatório e, segundo ela, “fica igualzinho mamilo mesmo”; mesmo assim, Themis frisa que é importante compreender que os seios nunca mais serão como antes. “Tem uma cicatriz enorme que fica visível, mas que não me incomoda. Quando vejo fotos de outras mulheres, aquelas que os homens gostam de te enviar por mensagem, vejo que os meus são mais bonitos, têm um símbolo maior. Representam minha vitória e minha força”, explica.

Ao invés de se prender à parte dramática de sua história, ela conta que prefere enxergar o outro lado. “O meu caso foi um grande sucesso, porque descobri a tempo e tomei providência rapidinho. Não posso ficar parada lá naquela época. A vida continua”, argumenta. Todas as suas cicatrizes - as das mamas e, mais recentemente, a do tornozelo - para ela representam que ela é uma pessoa diferente. “Cada uma tem sua história. Tem seios que são flácidos porque amamentaram, por exemplo. Essa é uma flacidez que tem história”, comenta. “No fim das contas, não é necessário fazer comparações. O meu é assim”, finaliza.

A micropigmentadora especialista em micropigmentação de aréolas Welide San explica que, para refazer o desenho das aréolas, as mulheres podem optar tanto pela técnica que utiliza, quanto pela tatuagem. “Elas andam no mesmo caminho. Com a micropigmentação, cada caso é um caso. Em alguns, apenas uma sessão é suficiente e tem uma durabilidade longa, de três a cinco anos. Na grande maioria dos casos, é preciso realizar duas sessões”, explica.

Há sete anos que ela trabalha com micropigmentação nessa área, tanto em casos de mulheres que passaram pela mastectomia e reconstrução mamária por causa do câncer, quanto com aquelas que tiveram complicações em cirurgias estéticas e acabaram perdendo parte, ou totalmente, a daréola e do mamilo. “Costumo dizer que é um restauro das aréolas e da autoestima. Fazemos um reconhecimento da mama em busca da harmonia, porque após a cirurgia ela fica sem identidade. É um trabalho de resgate”, comenta.

Welide explica que o seu trabalho é feito por indicação e com orientação do médico de cada paciente. “Ele é quem vai orientar o momento em que ela pode passar pelo procedimento. Faço um questionário inicial para saber há quanto tempo ela finalizou o tratamento, porque não é indicado para quem está fazendo radioterapia ou ainda vai fazer uma troca de prótese, por exemplo”, explica. Após a cirurgia de reconstrução mamária em que a cicatrização ocorreu corretamente, ela e o médico que acompanha a paciente avaliam se é o momento de realizar a micropigmentação.

Fim de ciclo

A micropigmentadora Welide San diz que, com o trabalho que desenvolve, acaba criando um grande vínculo com algumas das suas clientes. “Elas se abrem comigo. É um momento em que elas estão tratando as dores, porque é um fim de ciclo. Finaliza o tratamento, passa pelo procedimento estético reparador para então passar pela micropigmentação”, diz. Desde o primeiro contato antes de iniciar as sessões, as conversas sobre suas histórias acontecem quase naturalmente. “Elas já têm esse hábito de contar, mas eu também pergunto como ela está no momento. É uma forma de desabafo e mantenho o vínculo com muitas delas”, conta.

Uma delas é Vanderli de Siqueira, de 53 anos, moradora da cidade de Goiás. Ela passou por um câncer de mama em 2003 e fez as cirurgias de retirada da mama e reconstrução com prótese de silicone no mesmo ano. “Fiz o tratamento de quimioterapia, terminei e prossegui com os acompanhamentos de três em três meses; depois, de seis em seis, até chegar no prazo de um ano. Mas a micropigmentação eu só fiz agora em 2019, 16 anos após o meu tratamento”, conta.

“Foi uma das melhores coisas que me aconteceram na vida. A primeira melhor com certeza foi o tratamento e a cura. Mas depois disso, a micropigmentação vem em seguida, porque complementou minha vida”, define. Ela passou pelo procedimento há um ano, em outubro. “Eu tinha vergonha de me despir na frente das pessoas, hoje não tenho mais. Tenho certeza de que todas as mulheres que tiverem essa oportunidade serão eternamente gratas, assim como eu sou”, assegura.