Vanderli de Siqueira, moradora da cidade de Goiás, ganhou a micropigmentação de aréola por intermédio de um programa do Hospital Estadual Geral de Goiânia Dr. Alberto Rassi (HGG), que beneficiou mulheres com o procedimento gratuito como parte da campanha do Outubro Rosa, do ano passado. Ela foi uma das primeiras participantes do Projeto Harmonia, uma ação voluntária inaugurada por miropigmentadora Welide San que abre espaço para mulheres que passaram pelo câncer de mama, perderam suas aréolas por causa da cirurgia e desejam realizar o procedimento de micropigmentação gratuitamente. “Mas ele não acontece somente em outubro. Ofereço o meu trabalho para duas mulheres por mês, todos os meses. Elas podem me procurar diretamente, mas tenho vínculo com alguns hospitais que me indicam também”, explica.

“Com o projeto, eu desvinculo o meu trabalho como micropigmentadora, que é o meu ganha-pão, para fazer o trabalho voluntário. É totalmente voltado para essas pacientes que passaram pelo câncer de mama”, explica. Ela também participa de algumas campanhas e ações do Outubro Rosa, mas prefere não se prender a esse mês. “Há casos em que fazem uma fila, uma lista, mas a vez da pessoa nunca chega. É uma situação chata”, comenta.

Algumas das mulheres que não possuem condições financeiras de pagar pelo trabalho também podem ser modelos de cursos que Welide realiza e acabam ganhando o serviço gratuitamente também, conforme a disponibilidade. Para mais informações sobre o projeto, acesse o seu perfil profissional do Instagram (@welidesan_pigmentacoes).

A micropigmentadora especialista em micropigmentação paramédica Amélia Pimenta também oferece serviço voluntário mensalmente. Na última segunda-feira de cada mês, a cliente pode escolher o serviço de reconstrução de aréola ou camuflagem de cicatriz gratuitamente. Para mais informações e conferir disponibilidade da profissional, ela pede que se entre em contato por intermédio do seu perfil do Instagram (@ameliapimenta).

O estúdio de tatuagem Vortex, localizado no Jardim América, lançou uma campanha para o Outubro Rosa intitulado A Arte e suas Transformações. “Queríamos fazer algo para esse mês que acrescentasse de fato na vida das pessoas e que fizesse a diferença na vida dessas mulheres que passaram pelo câncer de mama”, explica Suzana Ferreira Leite, integrante da equipe. Ela conta que se inspiraram em um projeto semelhante do artista paulista Miro Dantas, que foi realizado de 2014 a 2019 em São Paulo.

“Mas a gente quis ir além do trabalho da autoestima e reconstrução da aréola e mamilo. É claro que mexe com isso, mas não é só isso. A intenção é mostrar que a arte também pode melhorar a autoestima de uma pessoa”, comenta. Partindo dessa ideia, além de oferecer o desenho da aréola e mamilo, os tatuadores também se disponibilizam a fazer o desenho da escolha da cliente na área. “Isso porque há mulheres que não têm interesse em refazer o desenho para parecer como era antes. Pode ser uma flor, uma mandala. Todos os tatuadores do estúdio estão participando, como a Isadora Fucci, que se disponibilizou a pensar o desenho que a cliente quiser”, conta.

O projeto abriu 20 vagas e está com inscrições abertas até o dia 23. Para participar, é preciso ter a liberação médica para realizar o procedimento e entrar em contato com o estúdio pelo telefone 99838-6383.

Expectativas e autoestima

No decorrer do tratamento do câncer de mama, outros profissionais além do médico oncologista podem acompanhar o paciente de acordo com as especificidades de cada caso. Jacqueline Andrade Amaral, psicóloga e presidente da Regional Goiás da Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia (SBPO-Goiás), explica que o acompanhamento psicológico combinado ao tratamento pode auxiliar em questões como autoaceitação e expectativas em relação a procedimentos como de reconstrução mamária, micropigmentação e tatuagem para refazer o desenho das aréolas e mamilos.

“Junto com o paciente, entender qual a expectativa com a reconstrução e dentro dessa expectativa aliar com a realidade. Aqui, temos a questão da autoaceitação e da autoestima. Aquilo que fica bom pra mim pode não ficar para o outro”, comenta. Se, ao questionar qual é a expectativa dessa mulher, ela responder: “Eu quero a minha mama de antes”, Jacqueline ressalta que o trabalho é fazer entender que isso não é uma possibilidade. “É importante ela entender. E isso porque, mesmo sem fazer o tratamento, uma mama não vai ser a mesma de quando a gente tinha 20, 30 anos. Não faz sentido dizer ‘eu só vou ser feliz se minha mama for exatamente como antes’, porque ela já não é mais a mesma de dez anos atrás”, explica.

“É um trabalho bem pontual de fazer essas análises com as pessoas, explicando que os nossos valores também vão se modificando. Algo que a gente achava o máximo quando tínhamos 15 anos, aos 30 já não tem graça nenhuma”, diz. Quando se fala de um tratamento oncológico e psico-oncologia, ela explica que são profissionais que trabalham dentro dessa linha, acompanhando o paciente como um todo. “Às vezes, uma pessoa faz os procedimentos de reconstrução e micropigmentação e continua não satisfeita. É preciso pensar no ser integral, no físico, emocional, social e espiritual. É dentro disso que o nosso trabalho acontece”, comenta.

O trabalho é desenvolvido, portanto, em equipes formadas por diferentes profissionais, de acordo com cada caso. “Vamos ver a cada atendimento qual pessoa da equipe vai ser chave naquele momento. A partir do médico, o paciente vai procurar o psicólogo, o nutricionista, odontologista, fisioterapeuta”, diz. No caso do tratamento psicológico, Jacqueline explica que é um trabalho com o paciente, mas que envolve a família também. “Não dá para separar o paciente da família. A pessoa adoece e a família adoece junto. É o familiar que vai junto nas consultas, que está na sala de espera enquanto o paciente está em cirurgia”, lembra.

No caso da cirurgia de retirada da mama, é papel do psicólogo fazer o preparo de todos os envolvidos. “O psicólogo faz o contato com o médico para ver as explicações sobre o caso, se vai ser um quadrante, uma mama inteira. E aí é dada orientação para o paciente e família como é a cirurgia, reforçando as orientações médicas”, diz. Aqui, o profissional percebe as dúvidas e anseios que o paciente e os familiares têm. Esse é o momento de se estimular que ela converse com o médico sobre as suas expectativas também no pós operatório, que vai interferir diretamente no trabalho da autoestima dessa paciente.