Goiânia vive uma nova fase de restrições em virtude da pandemia de Covid-19. Assim como na primeira onda da doença, em 2020, as atividades não essenciais foram proibidas na capital, e voltarão a funcionar, segundo o decreto municipal em vigor, no dia 29 de março. Nesse período, as academias de ginástica – não classificadas como serviço essencial – estão fechadas. Como alternativa, aumenta a procura de exercícios em parques e praças da cidade.

Depois que as academias da capital fecharam, o personal trainer Miguel Macedo optou por continuar o acompanhamento de seus alunos ao ar livre, em uma praça localizada no Setor Bueno, em Goiânia. Segundo ele, “um indivíduo ativo é menos propenso a ser acometido por infecções, porque seu sistema imunológico fica fortalecido”.

O impasse, no entanto, diz respeito à alta transmissibilidade do coronavírus. Por isso, antes de praticar qualquer exercício físico, é importante notar se o ambiente é seguro, e se é possível que todos os protocolos de segurança sejam seguidos. “Na praça, podemos respeitar o distanciamento, por ser um espaço aberto, gera mais segurança. Procuramos marcar um ou dois alunos, no máximo, por horário, todos usando máscaras, e atentos às normas de saúde”.

Miguel também falou sobre o impacto que o decreto municipal – e agora o estadual, que prevê o revezamento 14 x 14 na capital – causou na classe dos profissionais de educação física. “Eu sou autônomo, um prestador de serviços, e como pai de família eu não poderia deixar de trabalhar. Trazer os treinos para a praça também foi uma forma de dar continuidade ao meu trabalho”.

“Quando as academias fecharam, há um ano, eu investi em material, então eu já estava preparado para essa segunda onda, apesar de não esperar que a situação fosse se repetir”, lembrou o profissional. Sobre a receptividade dos alunos em relação à mudança nos treinos, Miguel afirmou: “Essa já é uma praça que os alunos conhecem, que fica próxima das academias. Além disso, é um treino extremamente eficaz, porque trabalhamos com outros estímulos, outros protocolos”.

Alguns alunos, no entanto, ficaram receosos de início sobre a eficácia dos treinos sem os equipamentos das academias. “Muitos disseram: ‘professor, estou acostumado a pegar peso, vou ter resultado assim?’ O que eu digo é que eu tento associar o trabalho de peso com o cardiopulmonar, trabalhando também a parte neuromuscular”.

Para a aluna Daine Vaz, isso não foi um problema: “está sendo tranquilo, nunca gostei muito de pegar peso, sempre preferi treinos mais funcionais, então estou me adaptando bem ao treino sem os aparelhos da academia”. Segundo Daiane, apesar do medo que envolve a situação, ela se sente mais segura ao ar livre do que se estivesse treinando em uma academia neste momento.

 

Saúde mental

O médico psiquiatra Thiago Queiroz Brandão explica que há evidências científicas para a indicação da atividade física como forma de melhorar a saúde mental da população durante a pandemia. Quando realizadas ao ar livre, no entanto, as medidas de proteção contra o vírus devem ser obedecidas.

Segundo o especialista, estudos de pandemias anteriores por coronavírus revelam que 20% a 40% dos pacientes apresentaram sintomas psiquiátricos durante a fase aguda da infecção. Na lista estão insônia, diminuição da atenção e concentração, aumento da ansiedade, problema de memória e humor rebaixado.

O médico explica que ainda há poucos estudos realizados acerca dos transtornos mentais em pacientes com a Covid-19. Entretanto, vários fatores têm levado ao aumento dos sintomas na população geral, mesmo em pessoas que não foram acometidas pela doença, como medo de ficar doente e de que familiares sejam infectados, distanciamento físico e confinamento, insegurança econômica, diminuição da liberdade pessoal, dificuldade de atendimento médico/psicológico em pacientes que já tinham transtorno mental antes do início da pandemia.

Neste cenário, o médico explica que a atividade física entra como uma das formas de atuar na prevenção e redução dos sintomas psiquiátricos. Isto porque, a literatura já demonstrou os efeitos da prática de exercícios em relação aos níveis de neurotransmissores como dopamina, noradrenalina, serotonina e acetilcolina, substâncias que interferem na sensação de bem estar.

Um estudo preliminar realizado na Espanha, e publicado em outubro de 2020, mostra que aquelas pessoas que mantiveram atividade física vigorosa durante um período de confinamento obrigatório em casa reportaram maiores níveis de resiliência, maior sensação de otimismo e sentimento de autoeficácia.