A atriz da novela das nove exibe um novo corte de cabelo que em poucos dias viraliza em todo o país o desejo por um novo estilo. O esmalte nas unhas de uma modelo famosa, que logo após um desfile de moda, inspira diversas indústrias a produzirem roupas, acessórios, calçados, decorações e tantos outros itens da mesma cor, textura ou tonalidade. Tudo isso é tendência. Mas, afinal, como elas surgem?

 “Tendência é o que está por vir”. Foi assim que Sílvia Scigliano iniciou seu worshop em Goiânia. A consultora de Tendências e Negócios da Moda e atual vice-presidente da Associação Internacional dos Consultores de Imagem no Brasil, a AICI, explicou como as tendências nascem, se inserem socialmente e a maneira com que se consagram.

Como nasce uma tendência

Sílvia Scigliano apresenta a pirâmide da WGSN para explicar como surge uma tendência. Para que uma tendência se consolide, ela precisa passar por quatro etapas essenciais e indispensáveis. A primeira é a Vanguarda, iniciada pelos inovadores artísticos, cuja criatividade faz surgir algo novo e inesperado. Essa vanguarda será aceita pelos Early Adopters, sujeitos que compram a ideia lançada pela vanguarda e a engajam para que ela seja aceita pelos demais.

A partir disso, a futura tendência depende dos influenciadores – aqueles que disseminarão o produto ou o estilo de vida. “Antigamente os influenciadores eram os artistas de novela, do cinema, bandas de rock e hoje todos nós somos influenciadores. Com as redes sociais, acabamos influenciando nossa família e nossos seguidores”, explica Sílvia.

A última etapa, e a mais importante, é atingir as massas. Uma tendência somente pode se cosolidar quando abrange a grande população que consumirá assiduamente essa ideia. A partir de todos esses pontos, algo se dissemina como o uso do sapato mule, de pochetes e vitrines instagramáveis. 

 A tendência e o movimento feminista

Acompanhando tudo que é atual, as tendências também explicam comportamentos das épocas em que estão inseridas. A exemplo disso tem-se as famosas saias. Sempre utilizadas para compor looks mais ousados ou comportados, essa peça tão querida pelas mulheres entrou em grandes discussões do movimento feminista, principalmente tratando-se do tamanho dessas peças utilizadas pelas mulheres e como as mesmas devem ter o livre poder de escolha sobre o que querem vestir.

“Por que a saia midi veio para ficar e a minissaia não está sendo mais tão utilizada assim pelo público feminino?” A partir da ótica do movimento feminista, Sílvia explica que as tendências também falam muito sobre o comportamento de determinados grupos. “Nos anos 60 a mulher saía de minissaia como uma forma de protestar pela liberdade do seu corpo. Hoje não. A mulher não precisa se mostrar para provar alguma coisa, por isso a saia midi veio para ficar”.

Além do tempo

Também aplicado ao conceito de moda, o termo Zeigeist, de origem alemã, possui a seguinte definição: “O espírito do tempo”. Sílvia Scigliano exemplifica, citando grandes da moda. “Channel é uma grande Zeigeist, uma artista que carrega a cultura em todo o trabalho que fez, sendo assim um produto de sua época. No cenário do pós-guerra nos anos 20, quando a mulher precisou começar a trabalhar e ficava o dia todo de espartilho, Channel criou a calça que ainda não se usava naquela época e que hoje faz parte do cotidiano de todas as mulheres”, relata a consultora de tendências e negócios da moda. 

Entrevista com Sílvia Scigliano

1 – Quando e por que você se interessou pelo mundo da moda? O que te inspirou?

“Eu sempre gostei de moda desde pequena, eu até tinha um apelido quando era mais nova. Todos me chamavam de “dondoca”, porque eu gostava de me arrumar, mas na época não tinha faculdade de moda e meu pai achava que era futilidade. Então, fiz administração e trabalhei nessa área, em banco, durante cinco anos. Depois fui migrando para área da moda aos poucos. A moda sempre foi minha grande paixão, mas essa moda com mais conteúdo, para justamente provar que de futilidade não tem nada”.

2 – Por que você decidiu ser pesquisadora nessa área?

Eu já trabalhei com moda em diversas áreas. Já fui compradora, estilista, trabalhei no varejo, no atacado e quando comecei a estudar na FIT (Fashion Institute of Technology), o assunto que mais me interessou foi esse, além de ser um assunto que gera mais curiosidade e ainda pouco explorado aqui no Brasil. Então achei que era uma coisa que além de eu gostar e ter paixão, poucas pessoas estudam por aqui, o que me incentivou.

3 – Como foi sua passagem pela FIT?

“Na FIT eu fiz um curso de consultoria de imagem por dois anos, depois o curso de consultoria de tendências. São cursos livres, de extensão que foram importantíssimos para fazer networking, conhecer professores e a AICI, de que hoje sou a vice-presidente aqui no Brasil. AICI é uma associação de consultoria de imagem que traz muita seriedade para a profissão, já que muitas pessoas não consideram nosso trabalho como sério. Tive experiências ótimas na AICI, em que estou há 11 anos e certificada há 10.”

4 – O que você acha das tendências da cidade de Goiânia?

“A goianiense é uma mulher muito vaidosa, muito arrumada, uma mulher que se cuida, mas algo que também me chamou a atenção é esse contramovimento da moda como a fundadora da Casa do Conhecimento, Tata Melgaço, faz, algo mais natural, mais fluido. Além disso, conheci uma pessoa que faz roupas sustentáveis para crianças e achei incrível. Então vejo o movimento da sustentabilidade, que a gente acha que vai demorar para chegar, mas que já está acontecendo”.

*Com colaboração de Marcela Costa.