No isolamento social, alguns dias passam depressa, enquanto outros parecem não correr no calendário. O tempo muda conforme as semanas e, ao longo dos últimos meses, casa virou sinônimo de trabalho, escola, bar, cinema, festival de música. Tudo junto e misturado. Em meio às transformações de comportamento, a moda caminha em paralelo. Afinal, com que roupa eu fico?

Montar um look para sair da cama, passar o café e sentar na mesa do home office é um hábito que faz bem e renova o bem-estar em dias de quarentena. Peças que antes ficavam fadadas ao fundo do guarda-roupa acabam sendo incorporadas ao cotidiano, como os pijamas, enquanto calças jeans e camisas tão populares no Brasil são esquecidas nas gavetas.

“Durante um período do isolamento, eu passei por uma fase em que eu estava usando muitas peças mais velhinhas, aquelas roupas de ficar em casa mais à vontade. Comecei a perceber que isso acabava roubando minha energia criativa de trabalho”, conta a estilista Izabelle Capuzzo. Para a profissional, a roupa tem o poder de transformar o cotidiano. “Para mim, o vestir fala muito sobre como estamos nos sentindo e consegue transformar nossas decisões.”

No dia a dia, Izabelle escolhe o que lhe vem à cabeça no momento. “Até sapato de salto alto eu já usei em casa. Se no dia eu quiser usar um vestido com tênis, essa será a escolha. Eu me visto primeiramente para mim, para eu me sentir bonita. Independe se é em casa ou na rua”, explica. Os gostos e humor definem o cotidiano da estilista, mas a prevalência é sempre por peças que unem beleza e conforto.

No universo fashion, enquanto a indústria pede socorro em uma crise de mercado sem precedentes, das grifes aos produtores locais, profissionais da moda tentam redesenhar um novo perfil de comportamento e design. A Fashion Week de Milão, em fevereiro, precisou ser realizada de portas fechadas por conta da propagação do novo coronavírus. Os tapetes do Met Gala e o CFDA Awards, considerado o Oscar da moda, foram cancelados em 2020. No Brasil, a São Paulo Fashion Week só será realizada no próximo ano.

Pijamas

Com tamanhas mudanças em um mercado que trabalha em cadeia, com profissionais que incluem fotógrafos, produtores, bookers, modelos, indústria têxtil e internet, marcas autorais locais se reinventam em modelos contemporâneos. Em Goiânia, a diretora criativa Aline Carneiro e a designer Isabella Gouthier, da Lille Beachwear, especializada em moda praia, precisaram adequar suas coleções para os novos tempos.

“O consumo de moda praia caiu bastante nesse período, visto que as pessoas consomem nossas peças pensando em viagens e lazer, e eram duas coisas que não teríamos por um bom tempo. Foi então que identificamos o desejo de consumo por peças confortáveis para ficar em casa e pijamas”, explica Isabella. As profissionais fizeram uma parceria com a marca goiana Santo Pijama e, juntas, criaram a coleção Superfície, inspirada nas formas arquitetônicas de Brasília, que completou 60 anos sem grandes comemorações em abril.

Intimidade e beleza revelam peças em alfaiataria para serem usadas no aconchego do lar, em diversas ocasiões. Pijama, inclusive, foi uma das palavras mais buscadas na internet ao lado de itens como fone de ouvido, cafeteira e máquina de cortar cabelo, nos últimos meses, de acordo com um levantamento do Google Brasil. Prova de que pijama não é mais o equivalente a “roupa para dormir”.

“Embora o pijama esteja entre as maiores buscas, eu percebo que as pessoas estão muito mais atentas às emoções que as roupas provocam no nosso dia. Aos sentimentos mesmo, porque estamos olhando mais para dentro, mais para o que queremos”, opina Izabelle. Para a estilista, a maior dica para o período de quarentena é abrir o guarda-roupa e usar o que desejar. “Use a roupa que tem vontade, independente de qualquer coisa. Isso é libertador.”