O criador de startups no Brasil tem um perfil bem definido. Cerca de 85% são criadas por homens brancos de classe média, segundo dados da Abstartups (Associação Brasileira de Startups). Um número cada vez maior de mulheres tenta ganhar espaço dentro deste ecossistema -e não é fácil. Mesmo mulheres que furam a bolha relatam dificuldades, como o acesso a investidores.

Entre elas estão Paula Crespi e Flavia Deutsch Goffryd, fundadoras da Theia, uma femtech -como são chamadas empresas de tecnologia focadas na saúde da mulher- voltada a ajudar pais, mães e empresas a conciliarem gestação com a vida profissional.

“Nos conhecemos fazendo MBA em Stanford”, conta Goffryd. “Todos os homens de nossa turma foram empreender logo de cara e nós mulheres entrávamos no máximo como braços direitos dos fundadores, todos brancos com menos de 50 anos.”

Foi na universidade norte-americana que ela notou outro detalhe: embora tivessem os mesmos acessos e iguais condições, eram os homens que avançaram mais rápido porque todo o ambiente empreendedor era organizado e controlado por homens.

“É um mercado em que ter uma rede de contatos é extremamente importante, tem que conhecer pessoas que te apresentem aos investidores, a outros empreendedores que possam te mentorar”, explica Crespi. “Homens puxavam homens e o network [rede de contatos] das mulheres, o acesso aos investidores, ficava muito reduzido.”

A Theia surgiu com a intenção de mudar esse cenário. As fundadoras contam que, desde o primeiro momento, fizeram questão de que até os investimentos viessem em igual proporção dos cofres de homens e mulheres.

“Levamos muito mais tempo para levantar o capital, porque o normal era que um investidor indicasse outro amigo investidor e nós buscávamos mulheres”.

No final, conseguiram manter o equilíbrio, mesmo tendo puxado para o ecossistema mulheres que, em sua maioria, nunca tinham sido investidoras-anjo -aqueles que apostam primeiro em ideias promissoras.

Entre as investidoras que a Theia encontrou, uma delas é a Maya Capital, fundo de venture capital focado na América Latina fundado pelas empresárias Laura Lemann e Mônica Saggioro.

“Uma das teses que mais me interessavam era como levar mais mulheres para cargos de liderança”, conta Saggioro. “Vimos que havia um fosso muito grande de investimentos para mulheres na América Latina, havia um grande volume de talentos mas o total de fundos não crescia na mesma proporção, o que nos levou a criar a Maya”, explica.

Ela conta que uma das iniciativas mais relevantes voltadas para a mulher foi a criação do Female Force Latam, que mantém plataformas de mentorias específicas para mulheres e quer expandir para outras minorias.

O fato de serem mulheres em um universo dominado por homens é, segundo Lemann, um diferencial positivo.

“Sermos mulheres nos ajuda em três momentos”, explica. “Primeiro, na aquisição de talentos para os pitches [eventos de apresentação de startups], pois acabamos atraindo mais mulheres que buscam a diversidade de investidores. Depois, na análise de negócios, temos uma visão que não é igual porque simplesmente temos experiências de vidas diferentes. E terceiro, nosso próprio portfólio, não olhamos só para o retorno ou a escala que o negócio vai ter no curto prazo, mas como ele pode trazer esse retorno para a Maya, os investidores e o ecossistema, é uma visão mais holística que tem nos trazido bons resultados”.

Atualmente, 40% das startups do portfólio da Maya são fundadas ou cofundadas por mulheres –e a intenção é chegar a 50%.

Uma iniciativa que tem conseguido crescer nesse ambiente é o de Nathalia Secco, musicista de uma família de produtores goianos que deixou o canto lírico para fazer MBA também em Stanford.

Hoje, sua ligação com a música ficou no nome do Orchestra Innovation Center, centro de inovação para o agronegócio apresentado com a meta de “transformar Goiás no novo polo de agtechs do país” -as empresas voltadas para a agricultura.

“Sempre busquei ciência dentro da música, por isso fui fazer o MBA”, conta ela. "Ser mulher nesse meio não é fácil, as barreiras culturais ainda são grandes”.

Secco diz que os problemas começam no fato de levar um produto que o mercado tradicional local não conhece. “Tivemos que fazer todo o trabalho de comunicação, de evangelização do ecossistema, e isso assusta um pouco”.

Segundo ela, onde encontra maior receptividade para seu trabalho é justamente entre as mulheres que atuam no agronegócio.

“São elas as que mais abrem as portas para a inovação, elas acreditam mais do que os homens, têm maior propensão ao risco”, avalia. Os bons resultados obtidos, explica, acabam por convencer os homens de que ali há boas ideias. “Quando veem que entendemos as dores deles e que queremos realmente ajudá-los, eles começam a confiar cada vez mais.”

A desconfiança inicial de parceiros ou investidores é algo que Fernanda Checccinato, presidente da Aya Tech, conhece bem. Engenheira química apaixonada por pesquisa, fez cursos na França e no Japão e, ao voltar ao Brasil, conta que precisou tirar informações do currículo para tentar vagas em seu mercado de trabalho, por causa do excesso de qualificação, que intimidava possíveis empregadores.

Quando encontrou trabalho como pesquisadora em uma empresa metalúrgica, um ambiente predominantemente masculino, sofreu todo tipo de boicote.

“Me trancavam no laboratório, diziam que não aceitavam ordens de mulher, arranhavam meu carro no estacionamento”, lembra ela.

Finalmente, em 2010, resolveu sair e fundar a startup que, hoje, produz biorrepelentes. O produto teve um aumento de 140% nas vendas entre janeiro e julho deste ano.

“No mercado das startups me sinto muito mais confortável”, afirma Secco. “Claro que acontecem comportamentos não desejáveis, como um investidor que torce o nariz quando vê que você é mulher à frente da empresa ou um mentor nos programas de aceleração que te subestima dizendo que falta o pulso masculino, mas vamos fazendo nosso trabalho muito bem feito, incentivando outras mulheres a empreenderem e porem suas empresas em prática", completa ela.