Há alguns anos, a atriz americana Jodie Foster, 57 anos, dona de duas estatuetas do Oscar e diversos outros prêmios, declarou sofrer de uma estranha sensação: a de se sentir uma fraude. Prestigiada também como diretora de cinema e produtora, ela disse que chegava a acreditar que, a qualquer momento, os membros da Academia bateriam em sua porta, pedindo de volta os prêmios. A também atriz Emma Watson, 29 anos, estrela da saga Harry Potter e ativista pelos direitos das mulheres, revelou sentir o mesmo. “Parece que, quanto melhor me saio, maior é o meu sentimento de inadequação, porque penso que em algum momento alguém vai descobrir que sou uma fraude e que não mereço nada do que conquistei”, disse em entrevista à revista Rookie.

Michelle Pfeiffer, 61 anos, é outra que também tinha medo de ser “descoberta”. “Sempre achei que estava arruinando os filmes dos quais participei, fazendo um trabalho terrível”, disse à revista Interview. Já recentemente, Michelle Obama trouxe o assunto à tona ao compartilhar suas próprias experiências com estudantes em Londres, revelando que precisou trabalhar bastante seu hábito de sempre se perguntar se era boa o bastante para estar nas posições em que se encontrava. Depois do relato da ex-primeira-dama dos Estados Unidos, não só mulheres, mas jovens do mundo todo têm compartilhado os mesmos sentimentos em conversas e redes sociais.

Para algumas pessoas, essas declarações podem parecer excesso de modéstia, baixa autoestima e até excentricidade das estrelas de cinema. Mas a angústia dessas atrizes é um mal típico de pessoas bem-sucedidas, principalmente mulheres, que não se acham merecedoras do sucesso alcançado. Pense bem: você já sentiu que nunca é boa o bastante para as tarefas delegadas a você? Acredita que os elogios que recebe não são merecidos? Acha que a qualquer momento vão descobrir que você é uma farsa? Se você se identificou com algum desses itens, pode ser que esteja sofrendo do mesmo mal: a síndrome do impostor.

O que é?

Apesar de todas as realizações alcançadas, as pessoas que sofrem dessa síndrome, de forma permanente, temporária ou frequente, parecem incapazes de internalizar o sucesso. Sem se importar com provas externas de sua competência, essas pessoas permanecem convencidas de que não merecem o sucesso alcançado. E esse é um fenômeno comum. Vítima da síndrome, a advogada Mariana (nome fictício), de 49 anos, ocupou grandes cargos, mas nunca conseguiu desfrutar do próprio sucesso. “Meu pai era um empresário que, mesmo quando eu tirava nota dez, dizia que ser boa aluna não passava da minha obrigação. Comecei cada vez mais a acreditar nisso. Então, nunca dava crédito ao que eu fazia e via elogios como gentileza, não como reconhecimento.”

Após ser mãe e passar um tempo afastada do mercado, a advogada começou a perceber os primeiros sinais da síndrome. “Quando retornei ao trabalho, sentia que tinha de fazer ainda mais e ser ainda melhor. Foi nessa época que comecei a me deparar com histórias de outras mulheres que se sentiam como eu e percebi que é uma coisa muita enraizada. O maior perigo disso é a autossabotagem. Você não se sente merecedora. Não se sente capaz, então se sabota”, diz.

Para Mariana, muitos desses sentimentos são consequências não só da personalidade da vítima da síndrome, mas também de fatores externos, como a forma como a mulher foi criada e a própria realidade do mercado. “Os homens são incentivados a ser ambiciosos, enquanto as mulheres ambiciosas são vistas como defeituosas. Quando se trata de promoção na carreira, os homens são vistos como candidatos em potencial. Pensa-se no que eles podem entregar no futuro. Mas o mercado enxerga a mulher como resultado, considera o que ela já entregou. A régua da mulher é muito mais alta.”

Não é baixa autoestima

Segundo uma pesquisa realizada pela Universidade Dominicana da Califórnia, a síndrome do impostor chega a atingir 70% dos profissionais bem-sucedidos, especialmente mulheres e estudantes de pós-graduação. Já alguns estudos psicológicos sugerem que duas em cada cinco pessoas já se sentiram impostoras em algum momento de suas vidas.

No Brasil, uma pesquisa feita pela USP com quase 500 estudantes mostrou que 77% deles apresentavam sintomas da síndrome do impostor. A maior parte são jovens entre 17 e 24 anos. O estudo revelou ainda uma forte ligação entre a síndrome e as diversas cobranças, desde a infância, por parte dos pais e pela própria sociedade. Essa sensação não ocorre de maneira muito explícita; então, a pessoa nem sempre consegue explicar o que sente. Responsável também pela procrastinação de projetos, a síndrome pode parecer um problema de autoestima, mas é muito mais complexa do que isso.

De acordo com o headhunter Felippe Virardi, atualmente a sociedade cobra excelência. “Devemos ser os melhores alunos da escola e, na fase da adolescência, a obrigação de passar em um bom curso numa universidade renomada assombra os jovens desde muito cedo. Somos cobrados o tempo todo por bons resultados e, quando finalmente os conquistamos, achamos que não somos dignos deles ou mesmo que qualquer um poderia ter chegado onde chegamos.”

Para conviver com todas essas cobranças, muitas vezes os jovens se espelham em alguém que já conquistou grandes feitos e acabam comparando suas conquistas às dos ídolos. “Isso naturalmente provoca frustração, já que não se veem no mesmo patamar da pessoa admirada. Além disso, esse tipo de comparação também traz autossabotagem, uma vez que eles acreditam que só conseguiram conquistar o que conquistaram porque foram ajudados por alguém”, destaca.

O mesmo comportamento de insegurança pode se perpetuar na fase adulta, apresentando consequências no trabalho. Segundo Felippe, em ambientes corporativos tóxicos, em que se costumam destacar apenas as metas e os resultados individuais, a pressão é ainda maior. “Com as comparações acirradas e um ambiente altamente competitivo, em que workaholics são vangloriados por trabalharem horas e mais horas sem descanso, esse sentimento de nunca ser bom o bastante é alimentado. Isso acaba por trazer muitos prejuízos para a saúde física e emocional das pessoas.”

Em busca do autoconhecimento

A síndrome do impostor costuma aparecer também em momentos de transição e de novos desafios. Assim, inconscientemente, essas pessoas começam a adotar comportamentos que funcionam como mecanismos de defesa e enfrentamento, e passam a não valorizar o sucesso alcançado. “Práticas de elevado desempenho a qualquer custo não trazem vantagens nem para uma empresa nem para os colaboradores, visto que vivemos em uma sociedade em que as companhias são cada vez mais valorizadas por proporcionarem qualidade de vida e equilíbrio entre a vida profissional e pessoal dos funcionários, além de um propósito bem definido”, alerta o headhunter Felippe Virardi.

Uma dica importante para conseguir identificar a síndrome é tentar analisar a própria conduta, despertando a consciência e criando autossustentabilidade. Assim, a pessoa vai conseguir identificar o que a incomoda, o que faz bem e perceber o ambiente com uma visão mais saudável. “Quando o profissional observa que seus comportamentos ou discursos desvalorizam seus feitos pode, por iniciativa própria, procurar uma mentoria para ajudá-lo no planejamento, adaptação e reconhecimento do seu valor. Caso o indivíduo perceba em si esses sintomas, é indicado também que busque ajuda de um psicólogo.”

Isso porque a síndrome traz consequências, como ansiedade, baixa autoestima, depressão e perda de produtividade. No que se refere ao físico, ela pode se refletir em perda ou aumento repentino de peso, insônia e outros problemas de saúde. “Reconhecer seus pontos fortes e se julgar merecedor de seu sucesso são passos importantes e motivadores para que se alcance um desenvolvimento contínuo”, finaliza.

Sinais da síndrome do impostor

As vítimas da síndrome do impostor são pessoas que nunca creditam seu sucesso à inteligência, competência ou habilidade pessoal. Além disso, têm a sensação de que, a qualquer momento, a incompetência será descoberta. Alguns sinais da síndrome são mais aparentes. Conheça os mais comuns:

1. Você se tornou uma workaholic insana

Aquele sentimento de que você poderia ter feito mais é bem característico da síndrome. Você trabalha horas a fio e, o que é pior, nem sente cansaço.

2. Você adota a discrição absoluta ou parte para mudanças desenfreadas

Essa mudança repentina de comportamento requer um nível de atenção redobrado, haja vista que pode comprometer sua imagem profissional.

3. Você usa o seu carisma para conseguir aprovação

Quando passa a não se sentir capaz de executar ou gerenciar alguma atividade, começa a utilizar alternativas primitivas dos seres humanos para conseguir o que precisa.

4. Você procrastina tudo que pode

Procrastinar é um hábito desenvolvido para evitar o embate com questões para as quais a pessoa não se sente preparada. O problema maior é em relação ao grau de ansiedade que colocará em risco tudo o que foi construído.

5. Você nunca termina nada

Deixar algo inacabado é um balde de água fria na sua motivação para começar algo novo.

6. Você apela para a autossabotagem no trabalho

Sintoma comprometedor de uma carreira, já que nem sempre as pessoas têm consciência do que fazem e, quando se dão conta, passam por um nível de autoquestionamento exaustivo na busca de uma solução.