Querer e não poder ser mãe traz para muitas mulheres um sentimento de exclusão. Curiosidade, piedade e desconfiança são alguns dos olhares ainda lançados sobre elas. “Usualmente, pacientes que procuram auxílio médico para reprodução assistida são casais inférteis que trazem em sua história de vida a marca da exclusão, justamente por não conseguirem engravidar por processos naturais. O isolamento do casal, para fugir às cobranças, acaba sendo um comportamento comum”, explica a psicóloga clínica e psicanalista Patrícia Marinho Gramacho.

A pressão social pela presença de filhos ainda é enorme e, apesar das causas da infertilidade estarem relacionadas tanto a fatores masculinos quanto aos femininos, normalmente a mulher se sente mais cobrada. Acostumada a fotografar partos e recém-nascidos no projeto Bem-Vinda Vida, a fotógrafa Jessyca Lobo, de 32 anos, descobriu que uma varicocele (dilatação das veias que drenam o sangue dos testículos) do marido, o advogado Marllus Godoi Vale, de 40, era responsável pelas tentativas sem sucesso de engravidar. O problema é causa frequente de alteração da fertilidade masculina.

“Com quatro meses de tentativa, fomos ao médico que começou a investigar as causas. Meu marido fez a cirurgia de varicocele, mas um mês depois sofreu uma trombose e foi parar na UTI”, conta. Passado o susto, começou a procura por clínicas de reprodução assistida. Após insucesso de técnicas como o coito programado, o casal decidiu pela fertilização in vitro. A alegria da notícia da gravidez deu lugar à ansiedade logo no primeiro mês, quando a fotógrafa descobriu que estava com problemas na artéria uterina.

Nascido prematuro, com 32 semanas, o pequeno Carlos, de 6 meses, ficou por 30 dias na UTI. Jessyca sofreu ainda com a pré-eclâmpsia, principal causa de morte materna no País. “Parece enredo de novela mexicana. Teve dor, teve sofrimento e muita oração. Mas faria tudo de novo se esse fosse o preço para ver o sorriso do meu filho”, explica a fotógrafa, que aproveita hoje a experiência dolorosa para aconselhar clientes que passam por situação parecida.

Na maior parte dos casos, o relógio biológico não obedece ao desejo feminino de priorizar primeiro a carreira, a estabilidade financeira, ou mesmo respeitar a descoberta da vontade de ser mãe no seu tempo singular. “O momento de ser mãe vai sendo adiado e a atividade física cada vez mais acelerada, cria a ilusão de que tudo está sob controle, mas na verdade não está. Não é só a sociedade que é cruel com a mulher, a natureza também”, explica a psicóloga clínica e psicanalista Patrícia Marinho Gramacho.