Como todo cão, Nala e Harvey adoram uma brincadeira ao ar livre, com espaço para correr à vontade e grama para rolar. Agora que estão bem treinados, já frequentam os parques da cidade. Nos primeiros anos de vida, quando ainda não respondiam direito aos comandos, a prioridade era por ambientes controlados, cercados e com rampas e obstáculos pensados especialmente para eles: os pet places. “Frequentamos bastante por cerca de 2 anos e meio”, conta a psicóloga Lígia Bou Karim, de 35 anos, tutora da dupla.

Na busca por espaços de convivência do tipo, ela encontrou o que considerava ideal em termos de estrutura e espaço, localizado na Avenida Portugal, no Setor Oeste. “O espaço era amplo; então, dava bastante mobilidade para os cães. Tinha uma iniciativa legal de oferecer sacolas plásticas para os donos recolherem os cocôs. Eram duas entradas, que davam para dois espaços separados: um para cães menores e outro para os de médio a grande portes, que podiam correr muito sem machucar os pequenos”, lembra.

Ela observava em outros que, apesar da boa intenção, os espaços eram reduzidos e com brinquedos, tambores e obstáculos de metal. “Alguns desses brinquedos não são muito funcionais e acabam ocupando o espaço de correr. Por serem de metal, também podem machucar e esquentar muito no sol, com risco de queimar as patas deles”, avalia.

Assim como a maioria dos pet places de Goiânia, o que era frequentado pelos cães Nala e Harvey partiu da iniciativa de uma construtora, que implanta os parquinhos para uso gratuito e público. Alguns deles incluem espaços especialmente para gatos. Essas empresas os instalam em locais onde serão construídos seus futuros lançamentos — ou seja, já são implantados com os dias contados.

“É uma pena, tem de ter mais iniciativas assim. A interação entre os cães é muito legal, e nesses espaços você pode soltá-los com mais tranquilidade e segurança”, comenta Lígia. As construtoras, inclusive, parecem ter entendido a vantagem de atender a esse nicho, uma vez que grande parte dos novos edifícios residenciais vêm sendo lançados com essa área especial para os animais dos moradores.

Iniciativas públicas
O pet place da Avenida Portugal não existe mais, mas Lígia descobriu recentemente um na Rua 9, ao lado da Praça do Sol, no Setor Oeste. O espaço é iniciativa de outra construtora. Quem anda frequentando o mesmo local é a pequena Catarina, uma vira-lata caramelo de 5 anos que ama uma aventura. “Eu moro do lado da Praça do Sol e vamos lá diariamente. Lá até tem um pet place, mas que não é totalmente cercado; então, eu não me sinto segura de soltar ela da guia”, comenta a administradora Nathalya Primo Rodrigues Gomide, 37 anos, mãe de Catarina.

O ambiente exclusivo para animais foi implantado como parte do projeto de revitalização da Praça do Sol pela Prefeitura de Goiânia, em 2016, anunciado como o primeiro pet place da cidade. “Mas telaram apenas uma parte dele, deixando a outra aberta. A Catarina pode correr para a rua ou em direção às crianças que estão por ali, por exemplo”, explica. “Então, ficou um espaço que pouca gente usa pelo mesmo motivo: medo dos cachorros fugirem. Acabamos frequentando os parquinhos feitos pelas construtoras que funcionam até os apartamentos ficarem prontos, o que dura cerca de um ano e meio”, diz.

Em setembro, a Prefeitura de Aparecida de Goiânia sancionou um projeto de lei que prevê a instalação de espaços de convivência para cães e outros animais domésticos em parques, praças e áreas de lazer da cidade. A proposta indica que os pet places poderão ser equipados com rampa sobe e desce, pula pneu, prancha de equilíbrio, obstáculos, entre outros. 

Para Nathalya, a iniciativa é um sonho realizado e um exemplo para os projetos de revitalização de espaços públicos de Goiânia. “Eu tenho muita tristeza da Prefeitura revitalizar as praças e esquecer de fazer um cantinho pensado para os cães. Mas, para esses locais nascerem, seria necessário ouvir um especialista ou até mesmo a nossa opinião, que busca por esses pet places”, comenta. “É preciso também orientar os tutores, com campanhas educativas para recolherem as fezes dos animais. Orientar sobre brigas e como evitá-las, além de outros detalhes que somente um especialista comportamental poderia opinar”.

Entre as principais vantagens de ambientes controlados para os pets, está a liberdade proporcionada. “É uma forma de garantir a segurança tanto dos cães quanto das pessoas que estão em volta. Um local separado para eles brincarem entre si e gastarem energia sem a guia e focinheira”, comenta a escrevente de cartório Marcela Pereira. Seu companheiro de passeios e aventuras é o husky siberiano Bono Vox Pereira, de 4 anos.

A interação acontece entre os animais, mas também entre os tutores. Marcela participa de grupos de pessoas que estão sempre em busca de novos locais do tipo na cidade. “Somos frequentadores — aliás, caçadores de pet places”, brinca. “O Bono, por exemplo, precisa gastar energia todo dia, mas faz parte da personalidade do husky siberiano ser fujão. A minha busca pelos pet places teve de começar desde cedo”, comenta.

O primeiro que encontrou, implantado por uma construtora, ficava na Rua T-29, no Setor Bueno. “Era um espaço enorme, onde a gente fazia até festas para eles. Teve uma festa junina lá que parou Goiânia, já teve carnaval. Mas chegou a hora que eles tiveram de construir o prédio”, lamenta. A saga continuou. Um novo pet place era inaugurado, a turma migrava para lá, mas logo era desativado. A última descoberta fica no Parque Amazônia, próximo ao Parque Cascavel.

Democratização dos espaços
Frequentadora assídua de pet places ao lado do fiel escudeiro Bono Vox, Marcela Pereira conta que chegou a reunir interessados em construir as áreas em espaços públicos da cidade. “Quando mais um espaço estava fechando, em 2019, nos reunimos para montar um projeto: o ParCão. Cheguei a entrar em contato com um vereador, que pediu para eu colocar tudo no papel”, lembra. “A gente só queria a autorização para utilizar praças, arcaríamos com os custos do nosso bolso. Mas acabou não indo para frente. Infelizmente, as pautas de pets ainda são muito deixadas de lado, não têm muito engajamento”, lamenta.

“Goiânia, assim como o restante do Brasil, tem muitos pets. É um dos mercados que mais cresce no mundo. Demorou a ter uma iniciativa como a de Aparecida de Goiânia, de pensar lugares próprios para eles”, comenta Leandro Meireles Tavares, especialista em comportamento canino e adestrador. Um levantamento do IBGE aponta que o Brasil já é o segundo país na quantidade de animais de estimação. Os dados de 2018 mostram que os brasileiros possuem mais cães e gatos do que crianças em seus lares.

Para cães em início de treinamento, Leandro costuma levar em pet places cercados para acostumá-los a ficar sem as guias. “São ambientes controlados, sem o perigo de o cão correr para a rua e ser atropelado, por exemplo. E não só os filhotes, têm cachorros adultos que também não são bem treinados”, explica. “Mas existem pouquíssimos locais assim. A maioria, inclusive, não tem áreas cobertas; então, fica impossível ficar ali no sol”, observa.

Disponibilizar bebedouros nesses espaços também é um ponto em que muitos falham, segundo o adestrador. Ele considera o aumento do número de locais que se dizem pet friendly uma conquista para a cidade, mas que ainda falta olhar mais para esses animais e tutores. “Podemos ir aos shoppings com nossos animais. Alguns locais têm plaquinha: seu cachorro é bem-vindo aqui. Estamos quebrando algumas barreiras, mas são coisas que passaram da hora de acontecer”, destaca.

A médica veterinária Andréa Ribeiro aponta que a instalação de áreas de convivência para os animais domésticos é uma ótima maneira de revitalizar espaços públicos ociosos, além de oferecer uma nova opção de lazer para as famílias. “Eu sempre digo que nós devemos pensar nas famílias brasileiras como famílias multiespécies. Com isso, esses espaços poderiam ser frequentados por humanos, cães e até gatos que sabem andar na guia”, diz.

Disponibilizar água para pessoas e animais, alambrados de proteção e cobertura artificial ou de intensa arborização são alguns dos detalhes que ela considera fundamentais. “Mas me preocupa que esses espaços sejam feitos apenas em áreas nobres. Será que o poder público não acredita que as famílias menos abastadas também mereçam lazer? É importante entender que a simples companhia dos animais constitui uma forma de lazer barata”, observa a veterinária.