A separação do casal é um momento difícil, principalmente quando há filhos. E não importa a idade. Para eles, é sempre complicado aceitar e compreender a decisão dos pais de não viverem mais juntos. Quando os filhos são crianças ou adolescentes, esse processo pode tornar-se ainda mais delicado e, por isso, é importante lidar com a situação de maneira sincera e madura. Para a psicóloga Aline Cristina de Melo, o melhor momento para informar aos filhos sobre o divórcio é quando essa decisão está seguramente resolvida pelo casal. “Isso evita criar angústias desnecessárias às crianças caso os pais mudem de ideia.”

Foi isso que José Chaves e Rafaela Damascena fizeram. Casados por 14 anos, eles se separaram em 2015. Juntos, tiveram Ana Maria, que na época da separação tinha 4 anos. Hoje, a pequena está com 8 e, segundo Rafaela, está lidando bem com a situação. “Na época, ela sentiu muito. Era muito apegada ao pai e perguntava todas as noites a que horas ele chegaria. Claro que doeu em mim que ela estivesse assim, mas com o tempo e muita conversa sincera, ela se acostumou”, conta a mãe.

Não existe uma receita ideal, mas a especialista lembra que a adaptação do discurso à realidade dos pequenos e a sinceridade são pontos que devem ser levados em consideração. “Posicioná-los claramente sobre a separação, passando tranquilidade e segurança, faz com que eles consigam identificar esses sentimentos e sintam-se acolhidos, amenizando as angústias. Não há necessidade de expor os reais motivos do divórcio, porém, é muito importante que fique bastante claro para a criança que ela não teve qualquer culpa ou participação nessa decisão.”

Paciência e sensibilidade

Ter paciência e sensibilidade também é muito importante diante das dúvidas que surgirão no decorrer desse processo. Para a psicóloga, na maioria dos casos, a criança não absorve bem a notícia pelo surgimento de fantasias emocionais ruins, que vão desde a culpa até a possibilidade de o divórcio afetar o amor que os pais sentem por ela, além da sentida ausência do cônjuge que sairá de casa.

“A rejeição da criança pode durar até ela perceber que, embora a rotina mude, o carinho e o amor que recebe dos pais não mudarão. Com o tempo, essa reação de rebeldia tende a se dissipar, conforme os filhos forem recuperando a segurança na família e nos laços afetivos”, acrescenta a especialista.

Em alguns casos, ao saber da separação, os filhos podem apresentar uma alteração de comportamento e também no desempenho de algumas atividades, inclusive na escola. Quando isso acontece, é importante que a família reflita sobre as causas do problema. A falta de motivação pode estar relacionada a aspectos emocionais e à dificuldade em compreender e aceitar o divórcio.

“Também pode ser uma forma de chamar a atenção, mesmo que por meio de um aspecto negativo e prejudicial”, diz Aline Cristina, que orienta os pais a investigarem se o filho expõe as insatisfações e angústias sobre a situação da separação em ambiente escolar, já que essa também é uma maneira de compreender melhor o que ocorre.

Evitar expor os filhos aos conflitos do casal, assim como tomar cuidado para não acabar usando a criança para afetar o outro é fundamental. “Manter bom relacionamento e diálogo é importante, pois eles precisam se organizar quanto aos cuidados, atenção e rotina dos filhos. Só assim as crianças perceberão que a família passou por uma grande mudança, mas que isso não influenciou negativamente no carinho e amor dos pais e que não há motivo para se sentirem abandonados”, reforça.

Em algumas situações, a separação traz alívio, principalmente quando há conflitos presenciados pelos filhos. “Acontece de, depois da separação, muitos pais conseguirem até melhorar a convivência com as crianças, criando uma relação mais próxima. Se mesmo com todas as medidas de carinho, paciência e maturidade, o filho apresentar muitas dificuldades em lidar com as mudanças, a psicoterapia pode ser um auxílio valioso na compreensão desses sentimentos”, finaliza a psicóloga.

Mulheres são as que mais pedem divórcio no Brasil

O sonho do “viveram felizes para sempre” esteve muito associado às mulheres ao longo do tempo, mas a realidade mostra uma outra história: são elas que mais entram com o pedido de divórcio na Justiça. Segundo o IBGE, a diferença é grande. Os últimos dados disponíveis mostram que elas fizeram essa solicitação mais de 13 mil vezes no último ano, enquanto eles foram responsáveis por pouco mais de 5 mil pedidos.

Nos Estados Unidos, a situação é igual: pesquisa da Stanford University aponta que as mulheres dão início a 69% dos pedidos de divórcio, contra 31% dos homens. Para a advogada especializada em Direito de Família e Sucessões, Debora Ghelman, os números, na verdade, refletem a evolução na conquista de direitos da mulher. “Não existe mais aquele estigma de antigamente, da mulher desquitada. As leis foram evoluindo muito. Antigamente, era necessária a prova de culpa, como uma traição, e só era possível se divorciar uma vez na vida. A mulher tinha menos controle sobre si. Com o tempo, as coisas foram mudando e elas passaram a ter mais atitude nesse momento”, comenta.

A facilidade para entrar com o pedido também tornou-se um grande encorajador, aponta a especialista. “Acredito que há uma série de motivos para esse fenômeno, inclusive o fato de que atualmente não é necessária a prévia separação de um a dois anos para entrar com o pedido de divórcio, prazo exigido antigamente. Agora, em casos sem filhos menores e consensuais, basta ir ao cartório”, explica.

Algumas pesquisas também indicam que uma possível razão para as mulheres estarem mais infelizes no casamento é que a instituição ainda privilegia os homens. A mulher continua assumindo mais funções do que eles dentro casamento, sendo responsáveis não só pelo seu trabalho, mas também pela parte doméstica, dos filhos e até do marido. “Ainda é comum a gente ouvir esses relatos, inclusive de ‘ter de cuidar do cônjuge’. Então, é natural que ela fique mais sobrecarregada, o que não contribui para o casamento, claro”, diz Debora.

Outro fator que influencia para os casais que têm filhos é a mudança de parâmetro na Justiça, que determina a guarda compartilhada como princípio. “Antes, automaticamente a mulher ficava com os filhos, o que também era uma forma de sobrecarregá-la”, afirma.