Para muitas mulheres, casais e famílias, o mundo se transforma quando uma gravidez acontece. É um momento de sentimentos que provocam uma experiência única para cada gestante. Nada é mais como antes. Mas e quando tudo novamente se altera e o curso de uma gravidez é interrompido? Lorena Carvalho, noiva de cantor sertanejo Lucas Lucco, passou recentemente por esse drama. “O bebê teve uma má formação antes dos três meses, daí a gente o perdeu, infelizmente”, contou o artista nas redes socais.

Outra celebridade que já falou na mídia e em redes sociais sobre o aborto espontâneo sofrido foi a ex-primeira-dama do Estados Unidos Michelle Obama. “Eu me senti perdida, sozinha e achava que havia falhado. Não sabia como são comuns os abortos espontâneos porque ninguém fala sobre isso. Ficamos cozinhando nossa própria dor, achando que temos algo errado em nós. Por isso, é importante falar com jovens mães sobre o assunto”, afirmou em entrevista ao programa Good Morning America. De fato, viver o luto do aborto espontâneo é doloroso. Mas o assunto não precisa ser um tabu. Partilhar a dor e ter uma rede de apoio são essenciais para passar por isso de maneira menos solitária.

Culpa

Aos 47 anos, Sueli Nogueira conta que ainda sente tristeza ao lembrar do aborto espontâneo que sofreu aos 26. “Eu estava com cerca de três meses de gravidez. Lembro que arrastei uma mesa de um canto para o outro do cômodo e senti uma dorzinha incômoda nos dias seguintes. No quarto dia após levantar esse peso, ao ir no banheiro, vi que caiu uma bolinha no vaso. Minha reação foi pegar aquela bolinha, colocar em um vidro e correr para o médico”, lembra-se.

Lá, ela passou por vários exames, que confirmaram a gravidez e o aborto espontâneo. Se tudo tivesse corrido bem, aquela seria a sua segunda gestação. “Foi atestado que era uma criança mesmo. E, segundo o médico, pelo jeito, era uma menina. Eles fizeram a curetagem e eu voltei ao médico uma semana depois para confirmar que estava tudo bem. Quando eu vi que perdi o bebê mesmo, chorei. Até hoje fico triste e tenho um sentimento de culpa por ter pegado aquele peso.”

Sueli já era mãe de um menino e, depois do incidente, teve mais dois filhos. Mas a tristeza por ter perdido a menina ainda ecoa em seus dias. “Até hoje me sinto mal por isso. Ela estaria com mais de 20 anos e, às vezes, fico imaginando como seria o seu rostinho.”

Sonho interrompido

O desejo de ser mãe sempre foi presente na vida de Daiane Souza, 34 anos. No entanto, ela passou boa parte da vida adulta solteira, e não tinha a intenção de fazer isso de forma independente. “Não era uma situação que, se acontecesse, me deixaria infeliz. Mas eu queria alguém comigo para compartilhar esse sonho. E nunca havia me relacionado seriamente até os 31”, diz. Foi com essa idade que conheceu o marido e pôde viver, finalmente, aquilo que queria. Aos 32, engravidou, mas o sonho se desfez antes dos três meses. “Quando eu descobri que estava grávida, foi mágico. Afinal, aquele era o meu sonho e meu marido também queria muito. Na época, eu tinha até medo de ter dificuldade para gerar, então, aquilo foi incrível.”

E tudo realmente corria bem até que Daiane começou a ter sangramentos. “Senti terror e comecei a chorar. Liguei para o meu marido, que correu para casa e ligamos para o médico. Consegui uma consulta de encaixe e, assim que cheguei, fiz um ultrassom. Meu bebê ainda estava lá. Os dias seguintes foram ainda de mais cuidado, mas uma semana depois comecei a sentir cólicas e o sangramento voltou. Senti ali que estava realmente perdendo meu filho.”

Daiane conta que nunca vai esquecer a feição do médico ao fazer novamente o ultrassom. “Percebi que ele estava diferente e já sabia o que significava. Ele tentou me consolar, falando que era algo comum de acontecer na primeira gestação e que eu teria novas chances. Explicou o porquê de aquilo ocorrer, mas eu só sentia tristeza e culpa por não ter feito mais. Ainda sinto e fico pensando se terei medo quando acontecer a minha segunda gravidez.”

O luto de um aborto espontâneo

O aborto espontâneo é um trauma na vida de muitas mulheres, mas não significa o fim do sonho de ser mãe. O tempo ajuda, alivia e suaviza. Além disso, o apoio da família e amigos pode ser crucial. “Como a criança não nasceu, a sociedade culturalmente não cuida dessa mulher da mesma forma que se preocupa com uma que perdeu um bebê já nascido, quando existe um velório, um enterro. Parece que esses rituais concretizam a perda. E então, a mulher, quando sofre um aborto espontâneo, tem dificuldade para lidar com o luto, porque não somos preparadas para isso. É como se esse luto não fosse reconhecido. Mas na verdade é a dor da perda de um sonho que se realizaria com aquele filho. É uma dor tão grande quanto a de enterrar um bebê”, afirma a terapeuta de família Fabíola Sperandio.

Conforme a profissional, ainda há falta de compreensão e sensibilidade em relação ao assunto. “Nem sempre os amigos e familiares dirigem um carinho para os enlutados. Com isso, muitas mulheres entendem que elas não devem sentir o luto e começam a reagir, se sentindo mal por isso, porque a dor está ali, latente. É preciso mudar esse conceito, precisamos cuidar das pessoas que passam por essa situação.”

Para Fabíola, a mulher que sofre um aborto espontâneo também precisa entender que haverá várias fases. “Revolta, tristeza, rejeição. E ela ainda acaba se culpando. Mas precisa entender que não existe culpa e a aceitação do que aconteceu é o que traz o alívio e uma possibilidade de cura dessa dor. Temos de mudar os questionamentos feitos a essa mulher, como perguntar se aconteceu porque ela caiu, por exemplo. Isso também induz à sensação de culpa. Se algo assim aconteceu, temos apenas que acolher e dar apoio.”

Nesse caso, respeitar o processo do enlutamento é a forma mais saudável de seguir em frente. “Quando a mulher faz esse trabalho, pode até mesmo se sentir pronta para uma nova gestação. Ela só não deve ficar se cobrando para conceber logo outra criança. Essa mulher precisa antes se cuidar e se sentir cuidada.”

Ajuda profissional

Quando o luto e a tristeza se prolongam e começam a afetar a vida da mulher e daqueles que estão a sua volta, é hora de pedir ajuda. “Os sinais de que é preciso buscar um especialista são apatia, tristeza, choro constante. E quando se percebe que ela está paralisada, envolta na situação por muito tempo”, conta a terapeuta.

Mas há também uma reação contrária que indica essa necessidade. “É quando a mulher parece fazer de conta que nada aconteceu, entra em uma euforia, com uma vontade imensa de trabalhar, como se ela quisesse afirmar que não está sofrendo, que é forte. Isso pode acarretar problemas, já que a ficha cai depois. É natural sofrer, chorar, se revoltar. Então, se não há esse equilíbrio, é necessário ajuda profissional. E essa ajuda deveria ser imediata. Se a pessoa acabou de perder um bebê, o interessante seria que ela já buscasse terapia.”

O que é o aborto espontâneo

O aborto espontâneo é uma interrupção natural de uma gravidez em fase inicial, sem nenhuma intervenção externa que facilite o evento. Segundo o especialista em reprodução humana Walter Costa Borges, o risco de aborto em uma gravidez varia muito. “Pode ser de 5% em mulheres com 25 anos, até mais de 50% quando a mulher tem mais de 40 anos ou já teve outros abortamentos. Muitas causas são consideradas, mas em cerca de dois terços dos casos o aborto ocorre por um defeito genético no embrião. E em todas as ocorrências de abortamento, o homem também deve ser avaliado.”

Os dois principais sintomas do aborto espontâneo são cólicas e sangramento vaginal ainda no início da gravidez. “É importante ressaltar que todo aborto representa uma gestação que era anormal desde o início. Porém, sabemos que em mulheres que tiveram um único aborto, a probabilidade de uma próxima gravidez normal é a mesma que em mulheres que nunca abortaram. A partir do segundo aborto, o risco começa a aumentar”, diz.

Segundo Walter, muitos mitos e informações incorretas sobre aborto espontâneo são disseminadas. “A paciente com sintomas de aborto em curso tem de procurar com urgência um pronto atendimento ou se reportar ao médico. Já as pacientes com abortamentos prévios devem procurar um especialista, de preferência da área de reprodução humana, para tentar encontrar possíveis causas e meios de prevenir novas perdas.”

Causas do aborto de repetição

Apesar de, na maioria das vezes, a interrupção da gravidez ser tratada como um fato natural, para algumas mulheres o quadro torna-se rotineiro, provocando o aborto de repetição. De acordo com o especialista em fertilidade Renato de Oliveira, de 2% a 5% dos casais em idade fértil sofrem esses abortos antes de 20 semanas. “Abortos de repetição são casos em que ocorreram três abortos consecutivos ou, para alguns pesquisadores, quando houve duas ou mais perdas gestacionais logo no início da gravidez, antes da 22ª semana”, explica. O especialista ainda ressalta que os abortos ocorrem devido a seis fatores básicos, atuando isolados ou em conjunto. “É importante lembrar que, mesmo após três abortos consecutivos, a mulher ainda tem 70% de chance de ter uma gestação tranquila. No entanto, além dos problemas físicos enfrentados pela mulher, é difícil lidar com a questão psicológica. Assim, antes de fazer novas tentativas, é preciso buscar ajuda especializada.” Conheça as principais causas:

Genéticas: a maior parte dos abortos, cerca de 60%, é decorrente de alterações genéticas no embrião, que deve possuir 46 cromossomos para o desenvolvimento normal. Muitas gestações acabam em abortamento, pois os embriões têm cromossomos a mais ou a menos. Nesses casos, o impacto da idade materna é grande. Dos 35 aos 39 anos, a probabilidade de se ter um aborto gira em torno de 25%. Já dos 40 aos 44 anos, é superior a 50%.

Vasculares (trombofilias): são causas comuns de abortamento, pois podem originar trombose de vasos placentários e impedir a correta chegada dos nutrientes maternos ao feto, o que comprometeria o seu desenvolvimento.

Endócrinas e infecciosas: diabetes mellitus e distúrbios da tireoide (hipo e hipertireoidismo), quando não tratados, podem ser causadores de abortamento. Algumas infecções, na fase inicial da gravidez, também podem levar à ocorrência de aborto.

Anatômicas: algumas alterações da anatomia do útero, adquiridas ou congênitas, podem ser causas de abortamento. Os miomas podem interferir e causar aborto principalmente se forem maiores que 4 cm ou se comprometerem a cavidade endometrial.

Imunológicas: enquanto numa gravidez normal o feto é protegido pelo organismo feminino, em algumas mulheres o sistema imunológico não reconhece a gravidez e passa a se defender do feto por considerá-lo um corpo estranho, devendo, portanto, ser eliminado.

Hábitos e estilo de vida: tabagismo, consumo excessivo de álcool e uso de drogas aumentam o risco de abortamento. Mulheres acima do peso ideal também têm maiores chances de abortamento e de terem complicações durante a gestação.