Apesar de alguns avanços em relação a igualdade de gênero, nenhum país no mundo alcançará essa equiparidade até 2030. Esse dado foi revelado pelo estudo do primeiro ranking de gênero dos objetivos de Desenvolvimento Sustentável, feito pela Assembleia Geral das Nações Unidas e publicado em junho deste ano. O Brasil, entre os 129 países que compõem a lista de países avaliados pela pesquisa, ocupa o 77º lugar, atrás de outros 11 países da América Latina, como Uruguai (32º), Chile (39º), Argentina (47º), México (64º), Peru (66º) e Bolívia (68º). 

Já os líderes do ranking são todos europeus: Dinamarca, Finlândia, Suécia, Noruega e Holanda. Para a especialista em gestão organizacional e desenvolvimento humano, Karina Duarte, embora os países lutem para a redução da desigualdade entre gêneros, esse processo é demasiadamente lento. “Os números se alteram muito pouco ao longo dos anos. Acho que há uma falsa impressão de que as mulheres ganharam espaço na sociedade, mas há muito o que evoluir, principalmente no que se refere a questão salarial.”

Karina lembra que a injusta desvalorização do trabalho feminino foi, inclusive, alvo de protestos por parte de atletas famosas, como a brasileira Marta e a norte-americana Megan Rapinoe, durante a última edição da Copa do Mundo de Futebol Feminino, realizada em julho deste ano na França. “Sabemos que no futebol, por exemplo, essa diferença entre o que ganham as mulheres e o que ganham os homens é absurda, onde um atleta da mesma modalidade chega a ganhar 325 vezes mais do que a atleta mais bem paga no mundo”, ressalta a especialista, referindo-se a notícias sobre a diferença entre o ganha o jogador argentino Lionel Messi, do Barcelona, e a atacante norueguesa Ada Hegerberg, eleita melhor do mundo em 2018.

Não muito diferente do que ocorre em outras partes do mundo, no Brasil o mercado de trabalho ainda é injusto e abusivo com as mulheres, tanto em relação às vagas disponíveis, quanto aos salários pagos a elas. De acordo com estudo feito este ano pelo IBGE, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), apesar de uma leve queda na desigualdade salarial, entre 2012 e 2018, as mulheres ainda ganhavam, em média, 20,5% menos que os homens no país

Ainda segundo a PNAD, de um total de 93 milhões de pessoas que fazem alguma atividade remunerada no Brasil, 43,8% (40,8 milhões) são mulheres, enquanto 56,2% (52,1 milhões) são homens. Já conforme a edição 2019 do estudo International Business Report (IBR) – Women in Business, a proporção das mulheres em cargos de liderança no Brasil é de 25%, abaixo da média global de 29%, número já é bastante desigual.

Questões culturais

Karina aponta que, apesar de conquistas de espaços por parte das mulheres, ainda hoje há uma forte construção cultural em que os meninos são muito mais estimulados a assumirem desafios do que as meninas. “Elas, nas nações ocidentais, inclusive dentro das famílias, são usualmente identificadas como mais frágeis e 'comportadas', ensinadas a agirem como tal. Os meninos, por outro lado, são vistos como mais audaciosos e corajosos, o que os impulsiona a se arriscarem com mais frequência, impactando na sua presença majoritária em cargos de maior decisão nas empresas, na política e na sociedade maneira geral”, destaca.

Dados de 2016 do IBGE demonstram como o trabalho feminino ainda é muito desvalorizado no Brasil. Conforme o levantamento, as mulheres são maioria no país, vivem mais e têm mais anos de estudo formal, mas ainda sim ocupam apenas 44% das vagas de emprego registradas. “Esses números mostram que a questão do merecimento nem sempre é levada em consideração no momento da contratação. 16,9% das mulheres com mais de 25 anos já concluíram o ensino superior, enquanto que apenas 13,5% dos homens terminaram uma graduação.”