Elas são mais atenciosas e responsáveis quando estão dirigindo. Dados do Denatran mostram que 71% dos acidentes no trânsito são provocados pelos homens.

Mulheres são mais atenciosas
 
Em 2017, foram quase 384 mil indenizações pagas pelo seguro de Danos Pessoais causados por Veículos Automotores de Via Terrestre (DPVAT) no Brasil. De acordo com o levantamento do órgão, a maior parte desse montante foi para homens com idades entre 18 e 34 anos. E em casos de acidentes com mortes, o público masculino representa 82% das vítimas. Outros dados, emitidos pelo Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), apontam que 71% dos acidentes no país são provocados pelos homens e que 70% das multas são registradas pelo sexo masculino.
 
Apesar de os números demonstrarem que as mulheres são mais cautelosas e responsáveis na hora de dirigir, o comportamento no trânsito, muitas vezes, é hostil e machista. Para a psicóloga Karina Mendonça dos Santos, especialista em psicologia social e do trânsito, em alguns casos, o ato de dirigir está ligado à sensação de autonomia e liberdade. Desta maneira, o fato de não dirigir gera na pessoa uma sensação de limitação. A profissional afirma, ainda, que o medo do volante pode estar relacionado à dificuldade na tomada de decisões ou à insegurança de causar algum mal a si mesmo ou ao próximo.
 
Para superar a insegurança e o receio, a especialista indica um acompanhamento específico, que leve em consideração a história de vida do indivíduo, além da investigação sobre possíveis dificuldades motoras e de aprendizado ligadas ao ato de dirigir. “Também são avaliados o histórico de experiências traumáticas relacionadas ao trânsito e ao excesso de preocupação com críticas externas”, explica.
 
Karina ressalta também que, atualmente, existem algumas metodologias que auxiliam no tratamento do medo de dirigir. “Identificada a origem desse medo, é necessário traçar um plano de atendimento individual onde serão realizadas intervenções de atendimento psicológico - seja individualmente ou em grupo - exposição do indivíduo ao ato de dirigir com acompanhamento, modelagem de aprendizado, entre outras”.
 
Caminhos alternativos
 
A recepcionista Kelly Cristian da Silva, de 41 anos, faz parte da parcela de mulheres que teve medo na hora de tentar tirar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Há seis anos, ela deu entrada pela primeira vez no processo para conseguir a habilitação para dirigir carro e moto. À época, pegou 20 aulas para cada categoria, pois achou que, assim, estaria mais bem preparada no dia da prova.
 
Ansiedade, medo e nervosismo foram grandes vilões nesse processo e Kelly não conseguiu a CNH para dirigir carros. Ela tentou por mais dois anos. Sem sucesso. Recorreu, então, à ajuda de um psicólogo para vencer as barreiras, mas, ainda assim, a ansiedade era algo que a atrapalhava muito. “Lembro que fiz 10 vezes a prova prática e a cada vez o resultado era pior”, comenta.
 
De certa maneira, o tratamento psicológico ajudou, mas ainda não foi o suficiente para que a recepcionista conseguisse a permissão para dirigir um carro. Kelly decidiu, por enquanto, ficar apenas com a CNH de moto. Passou de primeira na prova e, desde então, enfrenta o trânsito da capital goiana em cima de duas rodas, o que não deixa de ser uma prova de que ela conseguiu se reinventar e superar um obstáculo através de caminhos alternativos.
 
E o carro? Ela garante que não abriu mão, apenas se deu um tempo. “Assim como milhares de mulheres que rompem barreiras e superam dificuldades, eu não desisti. Logo vou reabrir meu processo e tentar até conseguir, pois preciso provar para mim mesma que sou capaz”, conclui.
 
Profissão motorista
 
Superar preconceitos. Essa é a história da motorista de aplicativo Solange Aparecida Pereira, de 42 anos. Ela conta que se cadastrou em um aplicativo de corridas há quase três anos, logo que a ferramenta chegou a Goiânia. “Na época eu trabalhava como vigilante, mas já queria atuar como motorista desse aplicativo. Quando a empresa expandiu de São Paulo para cá, não pensei duas vezes”, diz.
 
Durante o tempo de trabalho como motorista, ela já enfrentou algumas situações constrangedoras, mas menciona uma que foi mais marcante. “A filha pediu o carro pelo aplicativo para o pai, que estava no aeroporto. Quando cheguei ao local e o homem viu que era uma mulher ao volante, logo quis desistir da corrida. Ele disse que ia para Anápolis, que fica a 59 km de Goiânia, e que eu, como mulher, não teria condições de levá-lo até lá”, recorda.

Solange também lembra que acabou insistindo com o cliente para fazer a corrida e que, ao final, foi até elogiada. “Ele disse que eu dirigia bem e ainda me agradeceu por ter sido a motorista que o levou para casa”. Apesar desse e de outros acontecimentos, a mulher avalia sua profissão positivamente, com amor pelo que faz. “Eu sempre vou trabalhar como se estivesse indo para uma festa. Amo o que faço e sinto que o trabalho é uma verdadeira diversão”, diz a motorista que acabou ganhando certo conhecimento em mecânica. “Uma amiga, também motorista, me ensinou as primeiras dicas com o automóvel e aos poucos fui entendendo como o veículo funciona. Hoje, eu troco até as luzes de freio quando necessário. Também entendo de óleo, calibragem de pneus, faróis, entre outros itens básicos para uma pessoa que trabalha com um carro”, destaca.
 
Nas pistas

Primeira brasileira a correr em uma categoria top do automobilismo mundial, a Fórmula Indy. Primeira mulher do mundo a vencer na Firestone Indy Lights. Única a vencer a Fórmula Renault. Única a conquistar uma pole position na Fórmula 3. Única mulher piloto a disputar e vencer o Desafio das Estrelas. Além de todos esses títulos, ela ainda enfrentou, no último ano, a sua quarta temporada na Stock Car. O currículo de Ana Beatriz Figueiredo ou, simplesmente, Bia Figueiredo, de 33 anos, é extenso e vitorioso. Afinal, conseguir destaque num universo predominantemente masculino não é tarefa fácil.
 
De acordo com Bia, ninguém da sua família tinha envolvimento com automobilismo. Ela acredita que a sua paixão nasceu de forma espontânea e começou cedo, quando ainda era uma garotinha de 5 anos. “Meu pai me levou ao kart e disse que os grandes pilotos começavam ali. Foi quando eu tive certeza de que faria aquilo para sempre”, comenta.
 
Em 2018, Bia Figueiredo completou 25 anos de carreira e lembra que enfrentou grandes desafios ao longo desse tempo. “No começo era complicado. Perdi boas vitórias e campeonatos, pois os meninos dificultavam ao máximo a minha participação. Era inaceitável para eles e para os pais que seus filhos perdessem para uma mulher. Porém, isso me fortaleceu e aprendi a revidar dentro da pista”, recorda.
 
Sucesso
 
Bia Figueiredo é referência quando falamos em pioneirismo. Rompeu barreiras e chegou a posições nunca alcançadas por mulheres. Além dos títulos já citados, ela também foi a primeira piloto brasileira a conquistar um lugar no grid para disputar as 500 Milhas de Indianápolis, além de um campeonato integral da Fórmula Indy. Para ela, alguns pontos foram fundamentais nesse trajeto. “Acredito ser uma pessoa de sorte. Primeiro por gostar e não ter medo de velocidade. Segundo por ter uma família que me apoiasse e que tivesse condições financeiras de bancar um esporte tão caro. E terceiro por ter talento e pessoas que acreditassem em minha capacidade de chegar ao topo”, enumera.
 
Com tantas vitórias, é possível perceber que ser do sexo feminino não a limita em nada e que a frase “mulher não combina com volante” nunca fez sentido na vida dessa piloto campeã. Porém, Bia avalia que a pressão da sociedade, sobretudo por parte dos homens, é uma guerra psicológica e que atrapalha muitas mulheres. Ela lembra que quando começou era muito questionada sobre as reais possibilidades de uma mulher fazer carreira no automobilismo. “Eu nem ligava, tinha certeza que alcançaria meus objetivos. Lógico que, com o passar do tempo, percebi que não era tão simples, mas cheguei muito longe. E acredito que se eu consegui outras mulheres também conseguem”, defende.