Ser mãe ainda não faz parte dos planos da psicóloga Fernanda Maciel de Abreu, de 30 anos. No entanto, com o tratamento de quimioterapia e, em breve, também o de radioterapia, as chances de se tornar infértil são grandes. No início de fevereiro deste ano, ela descobriu que estava com câncer de mama. Em abril, passou pela cirurgia de retirada do tumor.

O oncologista que a acompanha indicou que ela conversasse com um ginecologista especializado em tratamentos de fertilidade para conhecer o procedimento de congelar os óvulos. “Durante o tratamento, geralmente, dão medicação para proteger os ovários do paciente oncológico. No meu caso, ainda terei de fazer tratamento hormonal durante cinco a dez anos após a radioterapia, que começa em setembro. Mesmo que eu esteja fértil, não vou poder engravidar durante todo esse tempo”, explica.

Como o fator idade também pode ser determinante na fertilidade, após o período de tratamento hormonal Fernanda poderá enfrentar mais essa dificuldade na tentativa de engravidar. “Não é algo que entra nos meus planos hoje, mas sei que pode surgir esse desejo mais para frente. No momento, o congelamento é uma garantia e, mesmo assim, pode ser que ainda seja difícil”, diz. O procedimento foi feito em maio.

A maior dúvida que a psicóloga tinha era sobre os riscos de contaminação na hora de realizar a coleta para congelar os óvulos. “É tudo muito recente e ainda não há muitos estudos para dizer se poderia ocorrer contaminação na hora de congelar os óvulos”, revela. Outra dúvida era quanto ao período que os óvulos poderiam ficar congelados, já que terá de esperar pelo menos cinco anos. “Conversei com dois médicos e decidi pelo local onde senti mais segurança. Tiraram minhas dúvidas e pude ver que estavam seguindo as recomendações e realizando testes. Fiquei mais tranquila”, conta.

A interrupção dos tratamentos de fertilidade foi recomendada pela Organização Mundial da Saúde, a partir da pandemia do novo coronavírus. A Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida, Sociedade Brasileira de Reprodução Humana e órgãos regulatórios, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, fizeram recomendações para a suspensão dos procedimentos, com exceção de casos específicos. “Os posicionamentos foram favoráveis ao fechamento quase total, com interrupção dos tratamentos em virtude das incertezas em torno do novo vírus”, explica a ginecologista e especialista em reprodução humana Marta Finotti.

As recomendações eram de que somente fossem terminados os ciclos em andamento, além dos casos urgentes, e de que fosse suspenso o início de novos tratamentos. “Essa permissão se estendia a situações de preservação em pacientes com reserva ovariana já reduzida, idade avançada ou por causas oncológicas, em que o tratamento não pode ser postergado”, destaca.

O caso de Fernanda é um exemplo dos que se enquadraram como urgentes. “O tratamento de câncer compromete a fertilidade tanto das mulheres quanto de homens. No caso das mulheres, a quimioterapia agride o ovário e prejudica a produção de óvulos, inviabilizando a gravidez”, explica a ginecologista. “A saída é colher os óvulos e deixar congelados para que depois do tratamento elas tenham chances.”

A paralisação das clínicas ocorreu durante 30 dias, deixando muitas pacientes inseguras; a reprodução assistida pode ser para elas a única alternativa para conseguirem realizar o sonho de serem mães. “São mulheres que já estavam emocionalmente muito vulneráveis. E aí veio o medo com o início da pandemia, ficando sem saber quando poderão engravidar”, diz. “Temos feito a coleta desses óvulos para preservação, de uma maneira escalonada e cautelosa. Tentamos dar todo o suporte emocional para essas pacientes por meio de teleconsultas, principalmente para aquelas que estão fora do Estado.”