“Foi meu primeiro namoro oficial. Antes, só tive um namorico de adolescência, que não durou muito tempo. Esse namoro durou seis anos, os anos mais longos e infernais da minha vida.” Com essas frases, Isa Souza, 28 anos, começa o relato sobre um relacionamento que deixou muitas marcas de sofrimento. Ela e o então namorado se conheceram durante o curso de graduação. Apesar de estudarem na mesma instituição, ele se aproximou dela por meio de redes sociais. O casal se conheceu pessoalmente em uma festa, quando ela acabou ficando com outro garoto. Só bem mais tarde Isa soube que já ali ele havia mostrado indícios de possessividade: apesar de ter acabado de conhecê-la, ele ficou com raiva e reclamou para outras pessoas por ela estar acompanhada.

Mesmo assim, o casal se manteve em contato e, um mês depois, aconteceu o primeiro beijo. “No terceiro encontro depois disso, ele me disse ‘eu te amo’. Congelei. Não sabia se corria, se ficava ali, se teria de responder algo do mesmo nível. Eu ainda não sentia o mesmo que ele. Fiquei calada e permaneci sentada, olhando para ele. Foi embaraçoso e muito assustador. Mas, como eu sou muito sonhadora e emotiva, continuamos a ficar e depois começamos a namorar.”

No início, Isa acreditava ter tirado a sorte grande, já que durante dois anos ele agia como um verdadeiro príncipe. “Para mim, era o cara da minha vida. A gente planejava ter dois filhos, uma casa, cachorros e muitos discos de vinil. Com ele, eu me sentia protegida, nunca estava sozinha e me sentia a mulher mais linda. Ele me respeitava e eu amava. Mas, entrando no terceiro ano de relacionamento, começamos a ter mais e mais brigas. Algumas discussões duravam horas”, lembra.

A partir daí os desentendimentos só aumentaram e a forma como o namorado tratava Isa começou a mudar. “Ela começou a me chamar de ‘pessoa lenta’. Dizia que gostava de pessoas dinâmicas, porque ele era assim, e eu teria de ser da mesma forma. Em outro momento, ele me falou que não queria mais ter filho, que eu deveria desistir de ser mãe porque não conseguiria, que eu não prestava para ser mãe. Aquilo me destruiu por dentro.”

Ainda assim, o relacionamento continuou, mas as discussões não terminaram. Durante anos, Isa foi criticada, insultada, manipulada e persuadida. Ela tentou terminar algumas vezes, mas sempre acabava voltando. “Ele tinha problemas com algumas peças de roupa. Fui proibida de muitas coisas, até mesmo de ir a festas da família dele. Eu não conseguia sair daquele relacionamento, estava presa. Era um padrão: ele começava estressado e, quando eu estressava, ele se transformava e ficava zen. Dizia para eu ir comer, porque minha raiva era fome.”

Isa também era vigiada, tanto que ele chegou a aproveitar que ela dormia para acessar o celular da namorada. “Ele viu conversas com um amigo sobre as nossas brigas e como eu me sentia. No outro dia, em frente ao portão do meu condomínio, me mostrou prints impressos e perguntou se era verdade. Respondi que sim e ele começou a ser bruto, gritar, me xingar, falando que tinha nojo de mim. Então, cuspiu no meu rosto. Comecei a chorar desesperada, pedindo perdão. Ele ligou a câmera do celular e começou a me filmar, enquanto dizia ‘olha que lindo você chorando. Continua, traidora’. Fui humilhada como nunca imaginei na minha vida.”

Apesar de tudo, ela permaneceu no relacionamento até buscar ajuda há poucos meses. Foi só depois de começar uma terapia que realmente percebeu que estava em um relacionamento abusivo. “Comecei a me conhecer novamente. Eu não lembrava quais eram minhas músicas favoritas, minha comida favorita, o que eu mais gostava de fazer em dias de folga”, conta. Apesar da relutância por parte dele, o relacionamento chegou ao fim, deixando marcas ainda profundas.

“Você acha que é empoderada, forte, independente e acaba acordando no fundo do poço, toda estraçalhada, sangrando por dentro, sozinha. Percebe que viveu um relacionamento abusivo durante anos. Acordar disso é assustador. Às vezes, a gente acha que vai morrer de tanta dor. Mas a frase ‘vai doer, mas vai passar’ é verdadeira. Hoje, estou relativamente bem, cuidando mais de mim, me achando bonita, progredindo nos meus tratamentos. Acho que ninguém merece passar por algo assim. A cada dia, aprendo mais um pouco e vou juntando mais um pedacinho de mim, me reconstruindo.”

Do psicológico ao físico

Pri Rodrigues, de 33 anos, também passou anos em um relacionamento abusivo. Há quatro anos, ela terminou o namoro que durou pouco mais de nove. “No início, era tudo perfeito. Ele gostava do que eu gostava, me acompanhava em tudo e se demonstrava carinhoso. Mas mudou depois que decidimos ficar noivos. A partir daí, sempre tinha uma crítica pronta para tudo, até para meus amigos, que ele dizia não serem bons para mim.”

Ela começou a perceber que alguma coisa estava errada quando o próprio companheiro afirmou que ela não era uma pessoa feliz. “Comecei a observar que, no momento, aquilo era mesmo verdade, já que tudo o que eu fazia, mesmo seguindo à risca os desejos dele, tinha defeitos. E, em meio a broncas de ter feito algo considerado por ele errado, vinha sempre algo como ‘você é imbecil’. Ele me xingava na frente de amigos e desconhecidos, apontando o dedo na minha cara.”

A situação piorou quando Pri desenvolveu depressão. Na época, o casal já morava junto. “Ele achava que era frescura, como se eu quisesse chamar a atenção, e por muito tempo achei que ele estava certo, que era tudo coisa da minha cabeça. O dia que em que vi que precisava de ajuda profissional foi quando ele me deu um empurrão e caí tão feio que machuquei minha perna. Ele sempre teve a mania de morder, apertar, dizendo que era ‘abraço de urso’. Eu ficava cheia de roxos. Naquele dia, mandei a foto da perna para uma amiga e disse que não continuaria com ele. Mas é aquela coisa: ele pede desculpas, você quer achar que não vai acontecer mais e dá uma chance”, lembra.

A pressão dos dentes, dos apertos, dos beliscões e até cutucadas só aumentava, assim como a lista de coisas que a mulher devia ou não podia fazer. “Tentei levar o relacionamento por mais quase dois anos. Ele começou a ter amizade com mulheres. Elas ligavam e ele saía correndo. Sempre que tentava conversar sobre isso, ele me chamava de louca. Fazia com que eu me sentisse culpada e até mesmo me chantageava, dizendo que, se eu contasse, ninguém acreditaria. O pior é que, na minha família, ninguém acredita que ele era capaz de fazer o que fez. Uma vergonha me paralisava, me impedia de reagir. Eu o amava, mas queria odiar.”

Quando entendeu isso, Pri começou a se preparar para sair de casa. “Arrumei minhas coisas e ele nem percebeu. Já tinha outra e não me procurava. Mas um dia ele forçou. Eu falei que não queria e ele me estuprou. Esse foi o penúltimo dia de relacionamento. Ele me pediu desculpas, mas eu disse que não o perdoava e não perdoo. Como já havia arrumado algumas coisas para ir embora, no dia seguinte entreguei as chaves e fui. Levei o que achava que cabia a mim. Sei que o estupro é algo violento, mas as marcas psicológicas de tudo que vivi me fazem ainda hoje não ser 100% quem eu era.”

O homem ainda tentou retomar o relacionamento três vezes. Ela resistiu. “Passei o primeiro ano isolada dentro de casa. Depois de um tempo, comecei a rever os amigos e, com a terapia e apoio médico, fui voltando a minha rotina. Cada dia é uma luta, pois a depressão, correlacionada com um distúrbio alimentar que também desenvolvi, não é fácil. Mas é como eu digo: há dias bons, outros ruins. Alguns péssimos e outros maravilhosos. Hoje, tento viver os bons e me manter saudável nos ruins para que os péssimos não me destruam.”

Escudo de defesa

A pessoa que é vítima de um relacionamento abusivo torna-se completamente vulnerável e dependente do parceiro. Como tem a autoestima minada, seu comportamento, energia e esforços passam a ser investidos totalmente para atender às necessidades da pessoa abusiva. “A vítima tem por si mesma um olhar de descrédito, de total desvalorização, que a faz negligenciar de si mesma repetidas vezes e em diversas situações. Sente-se insegura, incapaz de sair da relação, de se movimentar de maneira diferente. E, por esse motivo, se sente fraca e culpada por todo o sofrimento que está passando”, explica a psicóloga Tatisa Furtado.

Para a profissional, é seguro dizer que a vítima de relacionamento abusivo é isolada e culpabilizada pela situação. “A pessoa abusiva manipula o parceiro o tempo todo. Para isso, usa de chantagens, jogos emocionais, agressividade, ameaças e culpa. A manipulação faz com que o parceiro se sinta culpado pelo comportamento da pessoa abusiva. Dentre esses comportamentos, vem também o isolamento. A pessoa abusiva faz parecer que todos as outras relações sociais não são importantes e, muitas vezes, proíbe o parceiro de falar sobre o relacionamento com outras pessoas. O isolamento não deixa de ser também uma forma de intimidação para que o parceiro não consiga encontrar recursos e apoio para sair da relação.”

Os resultados de um relacionamento abusivo são muitos. “A pessoa que vive um relacionamento assim tem a sua autoestima seriamente comprometida, o que abre brechas para o adoecimento emocional, com transtornos como ansiedade e depressão. Por acreditar que não é adequada, sente-se insuficiente em praticamente toda a sua vida funcional, como trabalho e outras relações. Se essa autoestima não for reconstruída, a chance dessa pessoa se envolver com outras pessoas abusivas, em relações onde existem agressões físicas e emocionais, é muito grande, além de correr o risco de também se tornar abusiva.”

Para que a vítima se liberte dessa ligação nociva, é essencial recuperar a autoestima, que serve como escudo de defesa. “Essa é a primeira questão importante a ser reconstruída para que a pessoa consiga sair de uma relação abusiva. Por isso, é preciso levar informação a quem vive um relacionamento nesses moldes. É muito comum a pessoa estar vivendo um relacionamento abusivo, mas não ter ideia disso. Entender que ela está numa relação assim a ajudará a buscar ajuda mais facilmente. A autoestima equilibrada permite à pessoa se posicionar diante do parceiro, fortalecendo seu processo de tomada de decisões saudáveis”, destaca.

Outra questão importante é a rede de apoio. “O parceiro abusivo faz de tudo para afastar a pessoa

Sinais

Encerrar uma relação abusiva significa sair do risco, já que toda relação de abusos deixa em risco a vida, a dignidade e a funcionalidade da pessoa. Segundo a psicóloga Tatisa Furtado, é preciso trabalhar para a melhora de possíveis transtornos causados pela relação, bem como tratar os traumas sofridos, dar novos significados às experiências traumáticas vivenciadas e ajudar a vítima a encontrar recursos em si mesma para se permitir relações saudáveis. Contudo, boa parte das pessoas não consegue perceber, de imediato, que está em um relacionamento nocivo. Com isso em mente, confira alguns sinais importantes no comportamento da pessoa abusiva.

-Comportamento manipulador e controlador, desde as coisas mais simples até as mais complexas situações.

-A tentativa é de intimidar o parceiro de várias formas, deixando-o inseguro e com medo. A ameaça está sempre presente e, na maioria das vezes, é de abandono.

-O agressor faz com que o outro se sinta culpado por todo o seu comportamento disfuncional, inclusive traições e mentiras.

-Ele busca afastar o parceiro das pessoas amadas e faz parecer que as outras relações não são importantes.

-O abusivo não aceita o seu não.

-Depois de uma crise, sempre promete que não vai mais agir daquela forma e não cumpre.

-Não se alegra com as conquistas do parceiro e sempre faz parecer que é melhor que ele em tudo.

-Humilha, ofende e desvaloriza tudo que há de bom no parceiro.

-Sempre faz parecer que as angústias e questionamentos com relação ao seu comportamento são exagerados e fora da realidade.

Lei enquadra violência psicológica

A violência psicológica é tipificada pela Lei Maria da Penha e, dentro do chamado “ciclo de violência”, antecede as agressões sexuais, físicas e até patrimoniais. Segundo a titular da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher, Paula Meotti, a ausência de violência física não significa que o agressor seja menos perigoso para a vítima, tampouco que ela se sinta menos presa.

“Atualmente, as mulheres já procuram muito a delegacia por injúria, que são os xingamentos, e por sofrerem ameaças, mesmo quando a situação não envolve violência física. A gente percebeu um acréscimo nas denúncias já na primeira ocorrência, bem como nos pedidos de medida protetiva. Muitas mulheres ainda passam décadas nessa situação, mas muitas já estão mais conscientes.”

A delegada atribui esse fato à maior divulgação de informações. “Antigamente, muitas mulheres não sabiam que não precisavam se sujeitar a algumas situações e que poderiam até mesmo denunciar tais fatos. Isso está mudando, e as pessoas cada vez mais conversam sobre esse assunto. Difundir esse tipo de conhecimento pode ajudar a diminuir a violência desde o início, quando ela é psicológica. As mulheres não podem, nem precisam, esperar a violência física para buscar a delegacia.”