Ao abrir a mensagem no celular, o misto de espanto e indignação seguido por uma sonora gargalhada. “A conversa estava até indo bem, mas ele me mandou fotos da genitália. Aí virou esculhambação”, diverte-se ao lembrar a pensionista Francisca Irandi Lima, de 68 anos. Foi dessa maneira que ela foi apresentada ao mundo dos nudes e matches da paquera virtual. Viúva há cinco anos (após um casamento de 39), Francisca está de volta ao mercado afetivo, agora dominado pelos aplicativos e plataformas de relacionamento. Nessa busca pelo par perfeito, ela conta ter muito cuidado com as armadilhas e os golpes.

A pensionista faz parte de um grupo de pessoas que – após o fim de longos relacionamentos – voltam à solteirice e começam a perceber que o olho no olho do namoro de antigamente foi substituído pelo olho na tela. Gente que por motivos os mais variados – da vontade de fazer sexo à necessidade de companhia, passando pelo medo de envelhecerem sozinhas –, procura um novo par. Mas agora de uma forma bem diferente do que estavam acostumados. Com a ajuda da tecnologia.

“Mudou demais o jeito de namorar. Antes não tinha tanta malícia. Mas também não era tão fácil conhecer pessoas”, avalia Francisca, que caprichou na escolha das fotos que exibe no app. Ela conta já ter conhecido alguns homens bacanas, mas nada muito sério. “Quero ter alguém que seja trabalhador e que me faça companhia. É muito ruim sentir solidão.” Há dezenas de aplicativos e ferramentas na internet que promovem encontros amorosos. O segredo para quem quer retomar a vida afetiva, garantem os especialistas, é não ter pressa.

Após um relacionamento de muitos anos, é normal sentir como se tivesse desaprendido a paquerar. Há oito anos solteira, após um casamento de 22, a vendedora Sueli Ribeiro, de 55 anos, encontrou um novo amor em um chat vinculado ao Facebook. “Depois da separação, renasci. Claro que não é fácil encontrar alguém bacana na internet. Tem de ter inteligência e perspicácia para saber filtrar. A cada 100 pessoas, você acha uma que presta. Mas não sou de chorar pelo leite derramado e acabei encontrando alguém que me faz muito bem”, diz, referindo-se ao atual namorado, que mora no Rio de Janeiro.

Eles estão juntos há três anos e meio e Sueli é só elogios ao relacionamento à distância. Pelo menos uma vez por mês, o amado vem a Goiânia para aquecer o romance. As redes sociais a ajudaram muito nessa fase de solteira na maturidade. Antes, a vida era dentro de casa. “Voltei a trabalhar, malhar e a conhecer pessoas”, conta, entusiasmada. Especialista em relacionamentos conjugais e sexuais, a psicóloga Dalma Machado explica que o ser humano é, necessariamente, um ser social. Buscar um amor em qualquer fase da vida é natural.

“O que acontece é que, à medida que as pessoas amadurecem, elas se tornam mais exigentes nas escolhas e isso reflete-se nas relações afetivas. Geralmente, elas buscam nos parceiros a sua complementaridade”, explica. Acostumada a receber no consultório pessoas que voltam a ser solteiras na fase madura da vida, a psicóloga conta que as maiores queixas dos clientes são a falta de paciência em recomeçar, as experiências ruins do passado e as altas expectativas depositadas no próximo relacionamento.

“É natural que a pessoa se sinta desconfortável nesse momento difícil e muitas vezes inesperado. Entretanto, é indicado que ela olhe para as suas qualidades, exaltando os pontos positivos e a autoestima, buscando viver a vida da melhor forma possível.” Mas a psicóloga ressalta que muitas vezes, por estar carente e vulnerável, a pessoa pode se colocar em risco e se aproximar de quem não lhe faça bem. Isso acontece devido à urgência que alguns sentem de encontrar “um par ideal”. “Uma das indicações para que isso diminua é ir se relacionando gradativamente antes de se abrir para um novo relacionamento”, aconselha.

Amor em qualquer idade

De olho no público maduro que procura um novo amor, o jornalista Airton Gontow criou o site Coroa Metade, voltado para pessoas com mais de 40 anos. Em pouco mais de seis anos de existência, o site chegou à marca de 490 mil cadastros e 76 casamentos realizados. De acordo com o levantamento, feito a pedido do POPULAR, há cerca de 5 mil usuários goianos na plataforma – 58% são mulheres e 42% homens. A maioria tem entre 40 e 49 anos (49%), mas há também goianos mais maduros, de 70 a 79 anos (2%) em busca de um novo amor. As cidades com mais usuários são Goiânia, Anápolis, Aparecida de Goiânia, Rio Verde e Valparaíso de Goiás.

O site segue o modelo de matchmaker, sites de encontros surgidos nos EUA nos quais as pessoas preenchem amplos cadastros antes de começar a teclar. O objetivo é traçar o perfil pessoal do eventual parceiro e assim aumentar as chances de encontrar alguém que realmente valha a pena. “Constatamos também, em nossas pesquisas e encontros realizados com grupos que têm o perfil do site, que a idade torna as pessoas mais seletivas. O site é procurado basicamente por homens e mulheres que não têm tempo a perder em encontros sem sentido, mas que ainda acreditam que é possível encontrar a sua coroa metade”, conta Gontow.