Um detalhe que parece pequeno não faz mais parte da rotina da advogada Thayná Guimarães, de 24 anos. Ela saía do trabalho vestida com a roupa com que pratica crossfit e fazia a pé o percurso até o local de treino. Hoje, ela deixa para se trocar apenas no vestiário do box. “Era comum ouvir pelo caminho assobios e, principalmente, buzinas. Mas, a partir do dia que um motorista parou o carro do meu lado e eu fiquei realmente com medo, eu não uso mais as roupas de ginástica na rua”, relata.

Uma pesquisa realizada em fevereiro pela rede de academias Smart Fit mostra que o caso de Thayná é similar ao de muitas. A amostragem foi feita com 1.050 mulheres de todo o Brasil e revela que 54,4% das entrevistadas já ouviram comentários que as fizeram se sentir desconfortáveis no trajeto para o local onde realizam atividades físicas. Do total, 61,3% já deixou de usar uma roupa de ginástica por medo de sofrer assédio de algum homem na rua.

Outro dado levantado é que cerca de 85% das participantes fazem a pé o trajeto até o local onde se exercitam. “Quando perguntaram no vestiário se alguma mulher já tinha passado por essa situação a caminho do box, todas as minhas colegas que vão a pé responderam que sim. E todas também foram deixando de usar a roupa no caminho para lá”, conta a advogada. “É uma situação horrível, porque o contrário não acontece — os homens não ouvem comentários do tipo na rua.”

Para divulgar os resultados e levantar discussões sobre o tema, a equipe da pesquisa, batizada de #Deixaelatreinar, acompanhou o trajeto que dez mulheres fazem até os seus locais de treino com uma câmera escondida. No vídeo, fica claro como são invasivas as abordagens que elas sofrem, desde olhares até comentários machistas. “Não dá para justificar o assédio como uma espécie de elogio. O homem não faz isso porque ‘te achou bonita’. Ele quer amedrontar, causar desconforto”, afirma Thayná.

Outro dado levantado pela pesquisa é que mais de 50% das participantes costumam mudar o trajeto até o local de treino por medo de algo acontecer. “Esse tipo de atitude é uma violência. É como aquela história de ‘mas o short estava curto’, colocando a culpa na gente.” Para Thayná, falta conscientização e educação sobre o machismo que esses homens reproduzem ao realizar as abordagens nas ruas. “Eles acham que têm algum direito sobre você.”