A ciência e a luta por autonomia das mulheres sempre caminharam lado a lado. A pílula anticoncepcional, criada nos anos 1960, revolucionou a contracepção e o comportamento. Deu a elas – pela primeira vez na história da humanidade – o direito de escolher o momento de ser mãe ou não. Retardar a maternidade acabou sendo a opção de muitas mulheres que colocaram o desejo de ter filhos em segundo plano. A vida profissional abriu um leque maior de oportunidades.

Aos poucos, a maternidade deixou de ser um fator de validação da plenitude feminina. Uma mulher que escolhe não ter filhos já não choca tanto hoje quanto há algumas décadas. Por outro lado, existem mulheres que travam verdadeiras batalhas para concretizar o desejo de ser mãe. Seja por questões biológicas ou comportamentais, a tecnologia de reprodução assistida tornou-se para muita gente a única alternativa que resta para gerar um bebê. Há mulheres que vivem verdadeiras sagas para realizar o sonho de ser mãe.

Foi o caso da empresária Lara de Freitas Sales Botazzo, de 33 anos, mãe da fofura chamada Alice, de apenas 6 meses. Quem vê a alegria das duas juntas não imagina a história de dor e sofrimento da qual Lara foi protagonista. “Tive quatro abortos espontâneos antes de ter minha filha”, conta. Casada desde 2012, ela e o marido tentavam engravidar desde o primeiro ano de casamento. A cada gravidez interrompida, uma frustração que resultou em depressão e crises no relacionamento. “Só quem vive a situação sabe o quanto é desgastante”, explica.

O último aborto foi o mais grave. Lara sofreu uma infecção que colocou em risco o próprio útero. A adoção passou a ser cogitada pelo casal, que decidiu fazer da reprodução assistida a tentativa final. “Fizemos fertilização em vitro e o teste genético revelou que, dos nove embriões, apenas dois eram compatíveis com a vida. Dificilmente eu teria a Alice se não fosse a medicina reprodutiva”, conta Lara, que teve uma gravidez tranquila e saudável. Se decidir dar um irmãozinho ou irmãzinha para Alice, o embrião está congelado na clínica.

Técnica consolidada

A fertilização em vitro, técnica de reprodução assistida bem consolidada na medicina, consiste na união do espermatozoide com o óvulo em ambiente laboratorial para formação do embrião, que depois é introduzido no útero. É comum as mulheres buscarem ajuda perto dos 40 anos, após várias tentativas de engravidar falharem. “As técnicas de reprodução assistida são indicadas tanto para casais com dificuldades de conseguir uma gravidez por causas de infertilidade feminina, masculina, ou de ambas, quanto para mulheres ou homens sem parceiro sexual que desejam ter filhos e casais homoafetivos”, explica o ginecologista Vinícius Alves de Oliveira, mestre em reprodução humana.

Além da fertilização, namoro (coito) programado, inseminação intrauterina, doações de embriões, óvulos e sêmen, estudo genético embrionário e gestação com útero de substituição, a famosa “barriga solidária”, são algumas das técnicas disponíveis. O valor dos tratamentos acaba sendo uma barreira para muitas mulheres. Planos de saúde ainda não cobrem custos do tratamento de reprodução assistida que, nem sempre, é garantia de sucesso.

A boa notícia é que os preços estão mais acessíveis e isso é um dos motivos que fizeram as inseminações crescerem 18,7% no Brasil, em 2018, de acordo com dados recentemente divulgados pela Agência Nacional de Saúde (Anvisa). O congelamento de óvulos também registrou aumento, nesse caso de 13,5%. Atualmente, o custo para uma fertilização in vitro, por exemplo, varia entre R$ 20 mil e R$ 30 mil, incluindo as medicações necessárias.