Segunda a Organização Mundial da Saúde (OMS), o câncer de mama atinge 1,5 milhão de mulheres ao redor do mundo todos os anos. E mesmo com os avanços das tecnologias para detecção precoce e tratamento da doença, esse ainda é o tipo de tumor mais incidente e uma das causas mais comuns de morte entre essa parcela da população global. Mas um novo estudo conduzido nos Estados Unidos e apresentado durante o encontro anual da Sociedade Americana de Endocrinologia (ENDO 2019) tenta agora lançar luz sobre medidas eficazes de prevenção que poderiam ajudar a frear um dos fatores evitáveis de risco relacionados aos tumores mamários: o excesso de peso. 

A análise mostrou que restringir os horários das refeições, permitindo a ingestão de alimentos dentro de um período de oito horas diárias, ajudaria a acelerar o metabolismo corporal e, com isso, reduzir drasticamente o sobrepeso e a possibilidade de surgimento do câncer de mama entre mulheres no período pós-menopausa. Essa seria ainda uma alternativa mais eficaz do que as dietas baseadas no corte de calorias.

Para chegar a esse resultado, a pesquisa inicialmente avaliou o comportamento de ratos obesos submetidos à limitação no horário de acesso à comida. "O efeito 'antitumor' dessa medida seria justificada pela redução nos níveis de insulina no sangue, promovendo uma resposta efetiva tanto para a prevenção quanto para melhores respostas ao tratamento do câncer de mama", afirma o pesquisador que liderou a análise, Manasi Das, da Universidade da Califórnia (Estados Unidos).

Para o oncologista Daniel Gimenes, do Centro Paulista de Oncologia, ainda é cedo para assegurar a eficácia desse tipo de medida, já que não há registro de resultados do teste em humanos. "Apesar de ainda tratarmos como uma hipótese, é fato que existem diferentes maneiras pelas quais a obesidade pode aumentar os riscos de câncer em mulheres. Essa nova pesquisa mostra que, assim como outros cientistas já vinham apontado, estabelecer uma janela de tempo reduzida para o consumo de alimentos é efetivo para manter os níveis de insulina do corpo baixos. Quando isso ocorre, as nossas células de gordura começam a queimar seu estoque de açúcar como fonte de energia. Assim começa a acontecer a perda de peso", contextualiza.

Mas o especialista é enfático em afirmar que mais do que pensar em períodos adequados para o consumo de refeições, é imperativo o desenvolvimento de políticas públicas focadas em orientar a sociedade sobre hábitos alimentares pouco saudáveis, como ingestão de gorduras, açúcares e produtos industrializados em excesso. "Fast-food, salgadinhos de pacote, embutidos, refrigerantes e ultraprocessados em geral são os responsáveis pelo aumento da incidência de sobrepeso e obesidade entre a população nos mais diversos países, inclusive o nosso. Esses sim fatores que sabidamente elevam os riscos de incidência de câncer e devem ser diretamente evitados em todas as fases da vida e independentemente do gênero", explica Daniel.