Alice tem pouco mais de três meses de vida. A pequena se aconchegou nos braços da mãe pela primeira vez no dia 13 de março, assim que nasceu. Pele a pele, mãe e filha permaneceram juntinhas por mais de uma hora descobrindo a mágica do nascimento, da amamentação e tendo seus momentos respeitados, assim como mandam os princípios do parto humanizado.

Mesmo antes de engravidar, Maria Luiza Alves, de 28 anos, já conhecia o conceito de parto humanizado. Por isso, não teve dúvidas ao optar por locais que possibilitam a humanização do nascimento. Inicialmente, a nutricionista havia decidido pelo parto natural domiciliar; porém, uma alteração no cordão umbilical que ligava mãe e filha fez com que os planos mudassem.

Para evitar complicações cardíacas e renais na criança, a gestante resolveu receber Alice no Hospital Materno-Infantil de Brasília e garantir mais segurança caso fosse necessário realizar algum exame. Uma enfermeira obstétrica particular foi contratada para acompanhar o parto e possibilitar que mãe e filha tivessem a experiência mais humanizada possível.

Após 39 semanas de gestação e 12 horas de trabalho de parto, Alice chegou via parto natural – quando o bebê nasce pelo canal vaginal sem intervenção médica e farmacológica, como analgésicos e anestesia. “Quando ela nasceu, meu humor mudou e me esqueci das dores. Foi mágico! É como se eu tivesse nascido para ser a mãe dela”, conta.

Benefícios

O parto humanizado é configurado como um conjunto de princípios que visa tornar esse momento mais tranquilo e respeitoso para mãe e filho. Assim, tanto o parto vaginal quanto a cesárea podem ser realizados seguindo os preceitos da humanização.

A enfermeira obstétrica Amanda Santos Fernandes Coelho, do Hospital Materno-Infantil de Goiânia, lembra que, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), humanizar o parto é adotar um conjunto de condutas e procedimentos que respeitem a fisiologia do parto e promovam um processo mais natural e saudável, o que contribui para a redução da morbimortalidade materna e neonatal.

“Trata-se de uma abordagem mais acolhedora, menos intervencionista e medicalizada, voltada para o empoderamento da mulher e seu protagonismo em todo o processo do parto”, explica. Além disso, os benefícios incluem a redução da depressão pós-parto, o aumento do vínculo entre mãe e filho, a elevação das taxas de aleitamento materno, a presença mais próxima do acompanhante, entre outros aspectos.

Cenário em Goiás

De acordo com a enfermeira, em Goiás os melhores indicadores de parto humanizado estão concentrados no Sistema Único de Saúde, onde as taxas de parto vaginal são maiores e favorecem a aplicação dessas práticas. Em Goiânia, as instituições que se destacam nesse cenário são as maternidades Nossa Senhora de Lourdes Dona Íris, além do próprio Materno-Infantil

Na rede privada brasileira, a realização de cesáreas ultrapassa a taxa de 15% admitida pela comunidade médica internacional. O Brasil, segundo dados da OMS, é o segundo país do mundo que mais realiza cesáreas, com o indicador de 55% do total de nascimentos.

Esse tipo de parto é fundamental para reduzir riscos de mortalidade materna e perinatal em situações de risco. No entanto, quando indicado inadequadamente e sem necessidade, as práticas de humanização tendem a diminuir, o que não quer dizer que ele também não possa ser realizado de forma respeitosa.

“Para que esse quadro melhore, é preciso aplicar políticas de saúde pública em todas as instituições que oferecem assistência obstétrica”, sugere a enfermeira. Quanto às práticas humanizadas, para que elas sejam garantidas, o Ministério da Saúde preconiza o trabalho multidisciplinar da equipe médica (psicólogo, fisioterapeuta, médico e enfermeiro).

Protagonismo materno

As escolhas da mãe devem ser acolhidas no parto humanizado. A enfermeira Amanda Santos Fernandes Coelho ressalta que a comunicação da equipe precisa ser eficaz para garantir os direitos da parturiente. Contudo, o que vai determinar o desfecho do nascimento é a demanda fisiológica da mãe e do bebê. Assim, a intervenção médica nas decisões da mãe deverá ser feita diante de complicações no trabalho de parto, como poucas contrações, demora na descida do feto, sofrimento fetal ou sangramento excessivo. E, por tudo isso, é muito importante haver confiança, respeito e acolhimento na relação entre mãe e equipe obstétrica.

O tratamento humanizado possibilita uma vivência positiva, apesar de todos os medos, ansiedade e dores. E é exatamente assim que Maria Luiza Alves, a mamãe da Alice, resume sua experiência com a humanização do nascimento da filha. “Eu pude escolher a posição mais confortável para mim. Então, ganhei a Alice na banqueta, sentada, com meu marido atrás de mim. A médica e a enfermeira esperaram o tempo da Alice, me aconselharam, me encorajaram, me consolaram e ninguém me forçou a nada”, recorda-se.

O cordão umbilical foi cortado pelo próprio pai da criança, assim que parou de pulsar. E só após a primeira hora de vida e o aleitamento materno é que a pequena foi encaminhada para os procedimentos de pesagem e vacinação. O vérnix, que é o material que reveste a criança ao nascer, foi conservado e o banho veio depois das primeiras 24 horas. A experiência de Maria Luiza foi marcada por muitas dores, mas também por muita emoção e acolhimento. O tratamento recebido deixou na mamãe uma certeza: o desejo de um segundo filho com a humanização dessa futura experiência.

Princípios do parto humanizado

Dentre as práticas de atenção ao parto preconizadas pela Organização Mundial de Saúde, estão:

- Respeito à privacidade da mulher e apoio empático dos prestadores de serviço durante o parto;
- Respeito às escolhas da parturiente;
- Fornecimento de todas as explicações à mãe;
- Oferta de líquidos por via oral durante o trabalho de parto e no parto;
- Monitoramento fetal por meio de ausculta intermitente;
- Monitoramento cuidadoso do progresso do parto por meio do uso do partograma da OMS;
- Monitoramento do bem-estar físico e emocional da mulher antes, durante e após o parto;
- Métodos de alívio da dor não invasivos e não farmacológicos, como massagens e técnicas de relaxamento;
- Liberdade de posição e movimentos durante o trabalho de parto;
- Condições estéreis ao cortar o cordão;
- Prevenção da hipotermia do bebê;
- Contato cutâneo direto e precoce entre mãe e filho;
- Apoio ao início da amamentação na primeira hora após o parto;
- Exame rotineiro da placenta e membranas ovulares.

Práticas não recomendáveis

Ainda segundo a Organização Mundical de Saúde, dentre as práticas prejudiciais, ineficazes ou, ainda, aplicadas de maneira inadequada, estão:

-Raspagem sistemática dos pelos pubianos (tricotomia);
-Uso da sonda vesical para esvaziar a bexiga;
-Restrição hídrica e alimentar durante o trabalho de parto;
-Lavagem intestinal pré-parto (enema);
-Punção venosa permanente;
-Intervencionismo na assistência durante o trabalho de parto;
-Rotura antecipada e artificial da bolsa das águas (amniotomia);
-Episiotomia (corte no períneo);
-Compressão intensa do fundo uterino;
-Parto operatório.

Imitando a natureza

“O nascimento é o primeiro sofrimento do ser humano. Saímos de um lugar de acolhimento, de proteção, para um mundo novo, com desconfortos.” Essa é a afirmação da psicanalista e fundadora da ONG Bebê Canguru, Luciene Godoy, para defender a utilização da bolsa canguru, também conhecida como sling, sobretudo no primeiro ano de vida da criança.

Nesse contexto, o equipamento vem exatamente para oferecer um conforto perdido a partir do momento em que o bebê deixou o útero materno. A bolsa canguru nada mais é que um pedaço de tecido com cerca de 5 metros envolvendo o corpo do bebê ao da mãe ou, ainda, pode ser em forma de uma bolsa com três tiras menores cruzadas e amarradas ao corpo da mãe para sustentar o filho bem coladinho. Mas o tamanho é só um detalhe. Para Luciene, o que realmente importa é o conforto dos bebês que, com a ajuda da bolsa, conseguem aproveitar muito mais que o colo da mãe.

“O sling consegue manter parcialmente as condições intrauterinas que dão muito conforto ao bebê, como o calor do corpo, o balanço, a voz da mãe próxima ao ouvido”, explica a especialista, que ainda faz a seguinte orientação para o uso da bolsa: no primeiro mês de vida, pode ser usada intensamente. No segundo e terceiro meses, sempre que possível, e do quarto ao sexto mês, ela pode ir sendo retirada gradativamente.

Método canguru pode substituir carrinho

O sling é uma alternativa ao carrinho de bebê para proporcionar maior contato entre os pais e a criança. “Além de ser uma forma muito prática de carregar, é uma maneira carinhosa de cuidar”, destaca Luciene Godoy. A seguir, ela faz o passo a passo para usar o canguru com seu bebê. Confira:

1. Coloque a primeira faixa e amarre nos ombros, depois coloque a segunda faixa, formando um X. Os nós devem ficar na altura do ombro. A terceira faixa é amarrada na cintura.

2. Posicione o bebê como se ele fosse arrotar e passe as perninhas dele pelo sling, firmando a criança dentro do X.

3. Abra a faixa de baixo, cobrindo do braço até a perna. Faça o mesmo com a outra faixa. O bebê tem de ficar em posição de sapinho, com os joelhos flexionados.

4. Puxe a faixa que estava na cintura para cima, cobrindo até a nuca do bebê.

5. Para remover, é só fazer os passos na ordem inversa.