O movimento global #MeToo deu visibilidade a um assunto que há muito tempo precisava ser debatido amplamente na sociedade: o tratamento dado às mulheres. Seja amparada pela corrente do feminismo e sua constante busca por espaços equivalentes para homens e mulheres ou pelo simples fato de se verem representadas nas figuras emblemáticas de Hollywood que passaram a dar voz aos abusos sofridos, cada vez mais mulheres estão tomando a iniciativa de buscar ajuda diante de situações abusivas.
 
Números parciais levantados pela Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher em Goiânia (DEAM) mostram que em 2018 foram prestados 10.500 atendimentos a mulheres, o que configura uma média de 28 atendimentos por dia. Todas elas foram em busca de orientações sobre como agir diante das situações vivenciadas em seus relacionamentos. Na mesma época, foram registradas 4.232 ocorrências, abertos 2.465 inquéritos e encaminhados outros 2.109 para o Poder Judiciário.
 
Conforme explica a delegada titular da DEAM Goiânia (unidade Centro), Paula Meotti, a medida protetiva restritiva de contato é solicitada em casos de grave ameaça e é apenas a primeira das medidas judiciais requisitadas. “É importante que o agressor tenha consciência de que, a partir do momento em que a companheira adentra a delegacia para se informar sobre as medidas cabíveis, ele automaticamente passa a ser investigado. E a punição aos crimes configurados na Lei da Maria da Penha tem sido aplicada deliberadamente no Brasil. Isso é um grande alívio para as mulheres que esperam ter suas vidas retomadas, libertas da opressão física e psicológica”, comenta.
 
Medidas protetivas

Ao buscar uma delegacia, a mulher passa a ser amparada pelos mecanismos de segurança pessoal e legal disponibilizados pelo Estado e pelo Poder Judiciário. Em Goiás, a Secretaria de Segurança Pública, sensível ao problema enfrentado exclusivamente pelas mulheres, criou as delegacias especializadas no atendimento a elas e, ainda, a Patrulha Maria da Penha, uma unidade especializada em atender ocorrências provenientes dos chamados de mulheres em situação de perigo ou iminência dele.
 
Atualmente, a polícia dispõe de mecanismos para permitir que tal atendimento seja prestado com mais agilidade. O botão do pânico é um deles. Ao ser acionado pela mulher, a viatura mais próxima recebe o chamado e já se desloca no sentido da vítima, permitindo, com isso, agir diante da necessidade de efetiva proteção. Outra medida adotada foi o uso de tornozeleiras eletrônicas para monitorar a localização do agressor. Isso facilita a polícia interceptá-lo imediatamente diante de denúncias e em flagrante.
 
Atualmente existe em Goiás mais de 10 delegacias especializadas no atendimento à mulher distribuídas pelo estado. Na capital, estão instaladas duas delas: a do setor central, e outra na região noroeste. Todas atendem em esquema de plantão 24 horas por dia. Na DEAM do centro de Goiânia, todas as delegadas são mulheres, bem como boa parte da equipe, permitindo um atendimento mais humanizado e próximo.
 
No entanto, conforme relata a delegada Paula Meotti, o preparo de delegados para atender ocorrências dessa natureza tem sido feito cada dia mais com maior profissionalização, permitindo criar um ambiente acolhedor para a mulher que precisar recorre a essa delegacia especializada.
 
Expectativa e realidade 
 
Quando Ana e Marcos começaram a namorar, parecia que finalmente a moça de 32 anos tinha conhecido um verdadeiro companheiro de vida. O casal compartilhava gostos e interesses e até o trabalho de um era próximo ao do outro. Uma verdadeira simbiose que durou pouco mais de seis meses.
 
Com o passar do tempo, ao contrário daquilo que deveria ser considerado o amadurecimento natural da relação, Marcos demonstrava a cada dia níveis maiores de insegurança. Tudo passou a ser motivo de questionamento e contrariedade para o rapaz: as roupas usadas por Ana, os amigos, a dedicação ao trabalho, a simpatia. Justamente as características que antes haviam despertado o interesse e a admiração do rapaz pela namorada, agora pareciam inaceitáveis.
 
“Quando você se dá conta de que a pessoa amada passou a ser o seu pior crítico, parece que você perde o chão. Porque nós queremos agradar, queremos ser admiradas e acabamos aceitando que o outro nos menospreze e passe a dominar a nossa vida, nossa rotina. E isso faz com que a gente permita que a outra pessoa dite a maneira como devemos viver”, lamenta Ana.
 
Das implicâncias, sem motivo contundente, vieram as agressões verbais e físicas. E, segundo a mulher, após os ataques de fúria vinha sempre uma crise interminável de choro e um “aparente” arrependimento. “A pessoa consegue te convencer de que perde a cabeça porque te ama muito. E isso é um total absurdo porque o amor não agride, não fere, não ofende”.
 
Três anos inteiros se passaram de uma relação abusiva e permeada por reações exageradas até que Ana, após tentar romper algumas vezes, resolveu tomar uma atitude drástica: mudar o rumo da própria história. Hoje, ela mora em outra cidade e optou por partir sem deixar qualquer rastro. Fechou todos os perfis em redes sociais para não criar pistas e comunicou aos amigos que não repassassem informações suas para Marcos.
“Por conta de uma escolha errada no passado precisei reiniciar minha vida em um outro lugar onde a presença dele não fosse imposta a mim. Tudo seria diferente se ele tivesse o mínimo de autocontrole e aceitasse o término com naturalidade. Meu objetivo hoje é tratar as feridas psicológicas que foram abertas para voltar a ser a pessoa confiante e alegre que sempre fui”, finaliza.
 
*Para preservar a identidade dos personagens, os nomes acima são fictícios
  
Ocorrências
 
No ranking das ocorrências mais comuns registradas nas delegacias goianas estão:
 
1. Violência doméstica (artigo 129)
2. Ameaça (artigo 147)
3. Injúria (artigo 140)
 
Fonte: DEAM Goiás – 2018
 
Retomando as rédeas da vida

Para a psicóloga Maria Lúcia Pereira de Oliveira, é importante que a mulher tenha consciência de que ao tornar pública a sua relação abusiva, seja aos órgãos oficiais de segurança pública, seja em grupos de ajuda que se dedicam a amparar mulheres em situação semelhante, ela estará dando apenas o primeiro passo para a sua transformação rumo ao resgate das rédeas de sua vida.
 
“A mulher que vive sob domínio do medo de um agressor desenvolve uma série de transtornos que a limitam a agir diante de situações de risco. Essa mulher perde completamente a autoestima, é julgada e agredida dentro de casa, e julgada pela sociedade por se submeter a esse tratamento degradante. Logo, quando busca ajuda, ela chega tão sem forças que é preciso muitas vezes um longo processo de ajuda, de acompanhamento psicológico para libertá-la das amarras de anos de opressão”, explica a profissional.
 
Quando submetida a agressões físicas e psicológicas frequentes, a mulher passa a desenvolver uma série de comportamentos diferentes ao de sua natureza. “Elas têm dificuldade de se relacionar com outras pessoas, vivem ansiosas, têm baixa autoestima, passam a ficar em constante alerta, e tudo isso por se sentirem angustiadas com a situação vivida no ambiente privado”, alerta a psicóloga. E continua: “É uma mulher que não se sente amparada nem dentro, nem fora da família. Ao ser agredida em casa é vista como uma pessoa fraca, que se submete a esse tipo de relação, o famoso “apanha porque deve gostar” e isso é uma segunda agressão que estamos cometendo com essa vítima. É preciso compreender a complexidade da relação estabelecida entre o agressor e a vítima. Muitas vezes há dependência financeira e, em todas elas, a dependência emocional também está totalmente associada a essa relação”.
 
Sequelas
 
Em casos prolongados de exposição à violência física e psicológica, a mulher pode chegar a desenvolver transtornos severos de ansiedade, do pânico, pós-traumático, síndrome de Borderline, entre outros comportamentos autodestrutivos, que podem levá-la até ao suicídio.
 
As sequelas psicológicas podem ficar marcadas durante uma vida inteira, e estão visivelmente presentes na maneira como essa mulher se porta perante a sociedade. Na forma de olhar, de andar, de conversar. Todas as marcas dos abusos transparecem de uma forma ou de outra no corpo, no jeito de viver e de se relacionar com o próximo.
 
Rede de proteção
 
Pessoas que estejam vivendo relações abusivas podem contar, atualmente, com verdadeiras redes de proteção consolidadas, em grande maioria, por mulheres que conseguiram se libertar das amarras da dominação e que agora estão preparadas para oferecer o respaldo necessário a outros.
 
Esses grupos de ajuda para mulheres permitem a troca de experiências e relatos, pois, ao dar voz às suas dores mais íntimas, é possível criar o mecanismo da identificação, no qual a pessoa percebe que não é a única a passar por situações difíceis e a caminhada para a libertação torna-se mais humana.
 
Do outro lado da linha, cuidar do agressor é uma inovação no enfrentamento da violência de gênero. Mas, para que uma pessoa melhore e mude seu comportamento agressivo, é fundamental que ela reconheça que precisa de ajuda para libertar-se da carga violenta e chegar ao cerne desse mal. O processo é lento, o que torna indispensável o cumprimento da lei em todas as suas esferas, principalmente para a proteção da vítima.
 
“O tratamento psicológico quando conduzido corretamente permite acessar partes do psiquismo com o objetivo de buscar as raízes de seu comportamento abusivo. Não dá para recuperar um homem violento sem o devido acompanhamento profissional. Só assim será possível rever de que maneira foi feita toda a construção de valores desse sujeito. Temos que olhar para o todo e entender como foi instaurada essa relação com a companheira, de dominação e subordinação”, atesta a psicóloga.