Não há fórmula, idade ou caminhos pré-determinados para as mulheres quando o assunto são sexo e desejo. Para a empresária goiana Luana Moreira Silva, de 23 anos, que criou um projeto virtual de dicas sobre orgasmo e venda de produtos eróticos, o segredo é criar uma conexão saudável com o corpo e ampliar a autodescoberta pessoal de sensações, toques e sentidos. Na Semana Mundial do Orgasmo, Luana dá a dica: “Relaxa e goze”.

Chegar ao “ponto alto” do prazer sexual não é tarefa fácil e, segundo levantamento do Projeto de Sexualidade do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, cerca de um terço das brasileiras nunca teve orgasmo. “Muitas mulheres ainda desconhecem o próprio corpo. É dicotômico pensar que muitas permitem que o parceiro ou parceira toquem seus corpos, mas sentem culpa e vergonha de se tocarem sozinhas”, destaca Luana.

Por meio das redes sociais, como o Instagram, a goiana criou um sexshop virtual junto com a amiga Camila de Andrade Dirino, 30. Além de comercializarem diversos produtos relacionados a zonas eróticas do corpo, também dão dicas sobre prazer e sugestões de brinquedinhos. “Eu mesmo tive meu primeiro vibrador este ano. Não é algo tão antigo. Acredito que as mulheres ainda são rodeadas por tabus, preconceitos e machismo, desde o momento em que nascem”, diz.

O levantamento da USP ainda concluiu que 55,6% das mulheres pesquisadas têm dificuldade para chegar ao orgasmo. Entre as várias causas apontadas, 67% responderam que têm dificuldade para se excitar e 59,7% sentem dor na relação. “Acredito que seja reflexo de múltiplos fatores, como psicológicos, falta de autoconhecimento, comportamento dos homens. Diversas mulheres têm vergonha de buscar informação e conhecimento. É um caminho que ainda vem sendo descoberto e conquistado”, afirma Luana.

A dificuldade de atingir o orgasmo se dá por diversos fatores e não há regra específica, já que cada corpo e mente trabalham de formas distintas, de acordo com a ginecologista Tatielle Teixeira Lemos, pós-graduada em sexologia. Em tempos de pandemia, preocupações diárias, isolamento e falta de contato íntimo ainda colaboram para o desconhecimento e pouca experimentações práticas. Para a especialista, a autoestima é uma das consequências dos fatores psicológicos que impedem a conquista do ponto G.

“Uma mulher depressiva provavelmente vai estar com baixa autoestima. O físico influencia muito nessa autoestima. O que precisa ficar claro nesse mundo de hoje é que a mulher não tem de seguir o padrão da sociedade para ter uma vida sexual boa”, explica Tatielle. Ainda segundo a especialista, o corpo humano tem diversas zonas erógenas e a mulher que se conhece bem pode ter o aumento do desejo sexual para chegar à fase de excitação e, por fim, ao orgasmo. As famosas preliminares, então, seriam um dos pontos cruciais do desejo. “Quando o foco é ter orgasmo na penetração, a ansiedade pode atrapalhar a fase de excitação”, destaca.

Autoconhecimento

Além de promover o autoconhecimento, a masturbação é uma das melhores formas de se presentear com prazer. “Sempre falo para as minhas pacientes que, quanto mais você se masturba, mais se conhece e melhor será o sexo que você terá com outra pessoa. Tem de treinar para jogar bem na final”, ressalta Tatielle. É necessário sempre pensar que não existe regra, certo ou errado. “Esqueça o que seus pais te falaram, o que a igreja disse. Busque um momento seu, se conhecer, se tocar, procure momento de estar com você.”

Fatores físicos, como a falta de lubrificação, também podem provocar traumas e, consequentemente, desejo sexual hipoativo. “Alguns fatores que podem levar à falta de lubrificação são: pós-parto, menopausa fisiológica ou cirúrgica, anticoncepcional, antidepressivo, ansiolíticos, doença autoimune, diabetes, alteração de tireoide e infecções vaginais”, explica. Não esperar a vontade chegar para transar e estimular as zonas eróticas são um passo necessário para a descoberta do orgasmo. “Pensar em sexo, ver cenas de sexo, falar com as amigas sobre sexo cria na mente o próprio sexo. Precisamos de estímulo para ter desejo”, orienta.