É bem provável que o interlocutor duvide quando ela - cheia de orgulho - revele a idade: 60 anos. Bonita, bem-sucedida, com a vida financeira estabilizada, filhos criados e cheia de projetos, a empresária Lucilene de Pádua Dutra solta uma sonora risada quando lembra da imagem que ela própria tinha de uma senhora de 60 anos quando mais jovem. “A ideia era daquela vozinha sentada na cadeira de balanço fazendo crochê, os cabelos brancos, vestida seriamente e com a vaidade deixada de lado”, conta.

Pode até ser que o estereótipo tenha feito sentido há algumas décadas. Hoje, não mais. A nova geração de mulheres que chegam aos 60 anos, apesar das enormes diferenças ainda de classe social, têm em comum o fato de se sentirem mais jovens do que a idade cronológica. “Nunca tive problemas com idade. Vivi cada década me surpreendendo comigo mesma. Quando cheguei aos 60, ainda mais nesse contexto de pandemia, fiquei feliz e grata. A maturidade dá essa capacidade de vivermos a nossa verdade, de se sentir dona do próprio nariz, sem tanto medo de julgamento”, explica Lucilene.

Celebrar a autonomia e o desejo por novas experiências são marcas muito comuns nessa nova geração de sessentinhas. Mãe de dois filhos, avó de um neto e prestes a se tornar avó novamente em agosto, Lucilene está cheia de planos, inclusive projetos profissionais. Workaholic desde sempre, ela conta que a maturidade foi importante para ensinar a hora também de diminuir o ritmo de trabalho e se cuidar mais.

“Passei, por exemplo, muitos anos sem atividade física. Hoje virou algo prazeroso do meu cotidiano. Caminho 8 quilômetros e me sinto uma verdadeira atleta”, brinca. Até tempo para namorar a empresária encontrou. “Quando me separei, não imaginei que voltaria a me apaixonar por alguém. Foi algo que aconteceu muito naturalmente. É um amor maduro, bonito”, conta Lucilene, que, antes de começar a pandemia, adorava se arrumar para sair para jantar com o namorado.

Nicho

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a população idosa como aquela a partir dos 60 anos, mas faz uma distinção quanto ao local de residência dos idosos, pois esse limite é válido para os países em desenvolvimento, subindo para 65 anos quando se trata de países desenvolvidos. O aumento do número de idosos no mundo e, mais especificamente no Brasil, tem ganhado prioridade nos assuntos que envolvem, socialmente, esse nicho da população.

Apesar dos estigmas e preconceitos, ultrapassar a barreira dos 60 pode ser uma experiência vivida com muita saúde e entusiasmo. “Eu me sinto, no máximo, com 40 anos”, garante a aposentada Audete Marques Martins Correa, de 65. Recém-viúva, ela ajuda a administrar junto com dois dos três filhos um mercado da família em Goiânia. Antes de começar a pandemia, era presença constante na academia, onde sempre gostou de praticar musculação.

Nascida em Jussara em uma família de seis irmãos, quatro homens e duas mulheres, Audete diz sentir uma clara diferença entre o envelhecimento de homens e mulheres. “Eles se cuidam menos, por isso chegam nessa fase não tão bem quanto elas.” As mulheres constituem a maioria da população idosa em todas as regiões do mundo. Avó de quatro netos, ela conta se preocupar bastante com a saúde e a alimentação, praticando exercícios e evitando frituras e massas. “Meu único pecado ainda é o doce”, confessa.

“É uma geração que busca mais autocuidado”, avalia a psicóloga Michelle Branquinho. Médicos, psicólogos e terapeutas de diversas áreas percebem que essas mulheres maduras estão buscando mais o autocuidado e ajuda. “Para as mulheres da geração anterior é como se a vida estivesse acabando após os 60 e para elas está, na verdade, apenas começando”, destaca. Ela lembra que a mulher, diferente do homem, tem um evento fisiológico marcante na fase da meia-idade que é a menopausa, tida por muito tempo como uma espécie de doença.

“A ideia de que a menopausa é uma doença tem mudado, estamos tentando entender que é uma etapa natural da vida de toda mulher que traz a possibilidade de crescimento e de reavaliação do passado, do presente e do futuro”, destaca a psicóloga. As mulheres que agora chegam aos 60 estão começando a aceitar a sexualidade e a entender que existem recursos e que elas podem continuar a viver e serem felizes. “O que era a mulher se reinventar aos 40 agora é aos 60, ela busca uma nova fase de vida e de independência, mas uma fase também de conquista.”

Envelhecer é novidade no Brasil

Em (mais) uma fala infeliz, o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou esta semana que não foi a pandemia que tirou a capacidade de atendimento do setor público, mas sim “o avanço na medicina” e “o direito à vida”. “Todo mundo quer viver 100 anos”, criticou ao afirmar que a longevidade é insustentável aos cofres públicos. Por mais estranho que possa parecer, envelhecer é realmente uma novidade no Brasil. O País conta com mais de 30 milhões de pessoas com mais de 60 anos: 54 milhões, se considerar aqueles que passaram dos 50, de acordo com projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As mulheres maduras representam 13,7% da população, ultrapassando os 29 milhões de pessoas – o equivalente a quase três vezes a população de Portugal.

“Diferente das nossas avós, que viviam menos anos e se comportavam de uma forma mais passiva, as maduras de hoje têm um estilo de vida e hábitos de consumo que eram, há três décadas, associadas aos jovens”, explica Bete Marin, cofundadora da consultoria de marketing especializada no consumidor maduro Hype50+ e idealizadora do movimento Beleza Pura. Hoje, a população de brasileiros com mais de 60 anos cresce 3% ao ano, ou seja, um crescimento maior que qualquer outro grupo, em especial, de jovens. As estimativas mais conservadoras apontam que os maduros vão representar 25% da população mundial até 2040.

Fase da liberdade

Ela se casou aos 20 anos, ficou viúva aos 30 e encarou de peito aberto a missão de criar sozinha dois filhos. Em julho deste ano, a cabeleireira Leina Aparecida Brandão Abreu chega aos 60 anos com a sensação de missão cumprida. Para ela, a nova fase vai servir para viver e ser o que quiser. “Minha luta sempre foi muito grande. Não parei de trabalhar até ver meus filhos bem encaminhados. Hoje sinto uma liberdade que não tinha na juventude”, conta.

Dona de um pequeno salão de beleza, Leina gosta de cuidar do próprio visual e de se vestir do jeito que ela quiser, inclusive com decotes. “Não entrei para aquela turma do forró da terceira idade. Nada contra, mas gosto mesmo é de estar com o pessoal mais jovem porque é assim que me sinto. Meu filho brinca que vou apodrecer, mas não amadurecer. Eu não ligo. O importante é ser feliz”, explica.

Avó de dois netos, Leina conta que as pessoas já perceberam que ela não vai ser aquela senhorinha que fica em casa fazendo biscoitos. “Graças a Deus”, brinca. Acatar, renunciar, submeter-se e obedecer deixaram de ser verbos impositivos para essa nova geração de mulheres. A cabeleireira pode até não saber, mas ela faz parte de um geração de pessoas maduras consideradas inclassificáveis, ou “ageless”, como especialistas no tema gostam de os definir.

“A velhice hoje não é a mesma do século passado. Naquela época, a expectativa de vida do brasileiro não chegava aos 50 anos. Hoje, a média é 75. A dificuldade em falar do assunto está no fato das pessoas pensarem na velhice do século passado e não na de hoje”, explicou recentemente ao POPULAR a antropóloga Mirian Goldenberg, autora do livro A Bela Velhice (Editora Record). A figura da vovó na cadeira de balanço esperando a morte ficou definitivamente para trás.

Para trás, na verdade, fica quem se atreve a disputar uma corrida com a arquiteta Lucia Tomé, de 63 anos. Com várias meias maratonas no currículo, inclusive fora do País, ela tem fôlego de causar inveja a qualquer garota de 20 anos. “Hoje me sinto mais adulta do que idosa. Meu corpo está muito mais bem cuidado do que aos 50 anos. Fora que tenho mais tempo livre para cuidar de mim porque os filhos já saíram de casa”, conta.

Lucia sempre foi uma pessoa ativa que gostava de exercícios físicos. A corrida de rua entrou na rotina quando ela tinha 48 anos e virou uma grande paixão. Os treinos são intensos e chegam a 8 quilômetros. Ela conta que chegar aos 60 não foi motivo de crise. “Vivo em um meio em que tem muitas mulheres com até mais idade que fazem o que eu faço. Claro que cada década que passa é uma espécie de barreira. Mas não fico me preocupando com elas”, afirma.

Caminho pavimentado por lutas

Não é por acaso que a nova geração de mulheres que chegam agora aos 60 anos seja bem diferente das anteriores. Com doutorado na área de gênero e estudos feministas e coordenadora do Coletivo Feminista Gênero, Direitos e Sexualidade (GSEX), a professora da UFG Maria Meire de Carvalho ressalta que foram as lutas feministas do século 20 que pavimentaram o caminho trilhado por essas mulheres hoje.

“Os movimentos feministas e suas lutas que tentaram eliminar as barreiras de discriminação foram responsáveis diretos pela autonomia, empoderamento e autoconfiança que elas possuem. Quando falamos em empoderamento, não é algo de cima para baixo ou de como a sociedade as enxerga. Mas sim delas se conhecerem, se apoiarem e se sentirem donas das próprias vidas”, ressalta. No livro A Velhice, de 1970, Simone de Beauvoir denunciou a conspiração do silêncio que existia em relação aos velhos e o descaso com que era tratada a velhice naquela época.

Simone escreveu sobre o “aniquilamento social e cultural da velhice”. Apesar das mudanças sociais das últimas décadas, ainda há muito preconceito em relação ao envelhecimento, em especial ao das mulheres. “Aspectos conservadores permanecem na sociedade, muitos deles ligados à questão patriarcal, dos estereótipos das mulheres. O envelhecer sempre foi mais caro a elas do que aos homens”, compara Maria Meire. Outro tema tabu é a sexualidade na maturidade. “As mulheres com 60 ou mais também são sexuadas, elas querem amar e ser amadas. Isso faz cair por terra a ideia tradicional da vovozinha cuidadora de filhos e netos”.

A professora explica que o envelhecimento hoje em dia não é cronológico. Mulheres que quebram estereótipos e enxergam a maturidade de forma positiva estão revolucionando o mundo. “Isso não significa negar a idade, mas é uma recusa da domesticação das mulheres. Elas querem ser reconhecidas pelas experiências vivenciadas com a vantagem de se sentirem mais plenas do quando jovens.”

O lado negativo desse processo é a pressão enorme da sociedade capitalista para apagar as marcas da idade. “Esse medo da velhice, dos cabelos brancos, das rugas e da pele flácida é fomentado por uma indústria que lucra muito com isso e esse modelo de sociedade patriarcal”, explica. A luta das mulheres maduras hoje é pelo direito de envelhecer, mas não de uma maneira padronizada.

“O mundo ainda não está preparado para essas mulheres que chegam à maturidade, mas está se preparando. A estética perfeita que causa tanta dor, sofrimento e depressão está, aos poucos, caindo por terra. Quando as mulheres estão seguras são mais felizes. Tenho colegas, por exemplo, que nunca usaram uma prótese de silicone e se sentem bonitas e nem pintam o cabelo por entenderem a beleza que seus fios brancos representam”, afirma.

Velhice em Goiás

O Índice Goiano de Longevidade (IGL), do Instituto Mauro Borges de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (IMB), aponta que, enquanto em 1970, a população idosa em Goiás representava 2,03% da população, a previsão é que em 2060 esse número alcance 22%. A tendência é que eles e elas vivam cada vez mais.