No final do ano passado, a servidora pública Ana Paula Finotti, de 37 anos, fez a retirada do DIU com o objetivo de engravidar pela segunda vez. Sem sucesso, procurou médicos para investigar as possíveis causas. Em uma ultrassonografia, descobriu-se uma sinéquia uterina, condição que se assemelha a uma cicatriz que ocorre no revestimento interno do útero, provavelmente resultante da cesárea anterior. Entre os sintomas e consequências, estão alterações menstruais, abortos de repetição e infertilidade. No caso de Ana Paula, a sinéquia estava impedindo o implante do embrião.

“A correção para isso se dá por meio de uma cirurgia. O diagnóstico foi feito no início da pandemia, e essa cirurgia é classificada como eletiva”, conta Ana Paula. As cirurgias eletivas não são consideradas emergenciais, podendo ser postergadas sem colocar a vida do paciente em risco. “O fator idade é complicado para a fertilidade da mulher e eu já estou com 37 anos. Mesmo assim, não vi a necessidade de fazer o procedimento nesse momento, e optei pela preservação da fertilidade com o congelamento dos embriões”, explica.

O procedimento foi realizado na segunda-feira. “A estimulação foi feita na semana passada. Na segunda, coletei e meu marido fez o congelamento do esperma”, diz. A realização da cirurgia, por enquanto, não tem data para acontecer. “Não tem previsão, primeiro pelo risco de contaminação por estar em um hospital; o médico que vai realizar a minha operação não recomenda. E também porque a prioridade da saúde é com os contaminados pelo coronavírus nesse momento. Mas agora estou tranquila, porque os embriões estão congelados e temos probabilidades grandes de sucesso”, conta.

Desde que as clínicas de fertilidade puderam voltar a realizar procedimentos de forma gradual, a principal insegurança de Ana Paula era quanto à probabilidade de contágio pela Covid-19 no momento da coleta. “Foi explicado pela equipe que todos os funcionários são testados e os pacientes também. Eu e meu marido fizemos o teste para garantir a nossa segurança e da equipe médica e de todos da clínica.”

Com a retomada das atividades dos centros de reprodução assistida, os casos vêm sendo analisados de maneira individual. Uma das alternativas para o momento é o congelamento de óvulos, embriões e sêmen, sem a realização de transferências embrionárias a fresco, como no caso de Ana Paula. Eles podem ficar congelados por tempo indeterminado, chegando a décadas.

“O retorno vem se dando de maneira gradual e cautelosa, para garantir o máximo de segurança tanto das mulheres quanto dos profissionais”, explica a ginecologista Marta Finotti. “É feita uma classificação com base no prognóstico para que possamos priorizar pacientes com casos em que o adiamento pode ser muito prejudicial. A fertilidade é dependente do tempo e, para as mulheres com idade avançada. a perda pode ser muito grande”, completa.