Em regra, respeito todas as terapias convencionais. Contudo, nenhuma me despertou mais fascínio e respeito do que a conhecida terapia ABA. Trata-se de um divisor de águas no tratamento do meu filho. A partir dela é que vieram, por exemplo, os “olhos nos olhos”, o primeiro “mamã” e o início do que denominamos “espera”. 

Hoje, a terapia ABA é utilizada no tratamento de autistas em todo o mundo, em especial nos países desenvolvidos, nos quais a terapia faz parte da rotina dos pacientes que estão dentro do espectro. Aliás, a ABA não é utilizada somente com autistas, mas também em pacientes com outras síndromes e transtornos que ensejam deficiência intelectual.

A ABA não é utilizada somente com autistas Acredito que todos os neuropediatras e psiquiatras que têm mais afinidade com o autismo indicam essa terapia, isso por ser a que tem obtido mais resultados. Ela é indicada por um simples motivo: resultados que levam a criança ou o adolescente a desenvolver-se. 

Há poucos dias, ouvi um absurdo: que tratamento para autista não é urgente porque o autismo é para o resto da vida. Acredite, tem gente falando isso! Será que essa pessoa convive com um autista? Será que ela não sabe que o autista não morre de autismo, mas morre pelo autismo? Exemplifico: as crianças são muito ingênuas e não costumam ter medo em situações perigosas. Sempre vemos nas redes sociais casos tristes, cuja vítima é autista, como atropelamentos, desaparecimentos, afogamentos... Quando saio com meu filho de cinco anos, não largo a mão dele nem um minuto, pois sei que ele pode correr para o meio da rua, pular na piscina, colocar a mão na boca de um cachorro desconhecido, pular da janela... Coisas mais difíceis de acontecer com seus primos neurotípicos de mesma idade. 

Quando a criança é tratada, ela trabalha suas potencialidades É com o tratamento que vamos conseguir aprendizado e desenvolvimento, e a comunidade médica é unânime em dizer que quanto mais cedo iniciar o tratamento, mais autonomia aquela pessoa terá quando tornar-se adulta. Quando a criança é tratada, ela trabalha suas potencialidades e aprende tarefas do cotidiano, que serão fundamentais, principalmente quando ela não tiver mais seus pais. Existem os autistas de alto funcionamento, os aspergers. Não é sobre eles que estou falando.

Como a terapia ABA é um tratamento ímpar e deve ser comentado por quem possui competência para falar, chamei a psicóloga e neuropsicóloga especializada em ABA, mestranda em Análise do Comportamento, Raquel Magalhães, para fazer um breve relato sobre esse tema. Segue sua explicação com embasamento científico:

“Percebemos, muitas vezes, que o assunto autismo reveste-se de uma concepção de ‘infelicidade’ por aqueles que o desconhecem e acabam escorando-se em tabus e preconceitos, em desfavor dos indivíduos com autismo e suas famílias. Comprometimentos variáveis e crônicos em interação social, comunicação verbal e não verbal, interesses restritos e inflexibilidade (atividades ritualizadas e repetitivas) compõem o quadro do que se define como Transtorno do Espectro Autista – TEA. 

O autismo está classificado dentro dos Transtornos do Neurodesenvolvimento, segundo o Manual Diagnóstico DSM-V. O grau de gravidade varia desde pessoas que apresentam quadro leve e com total independência e discretas dificuldades de adaptação até aquelas que serão dependentes para atividades de vida diária ao longo de toda a vida. Segundo o CDC (Centers for Disease Control and Prevention), a prevalência para o TEA é de 1,68 indivíduos.

Assim, o autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por um conjunto de sintomas que afetam a socialização, a comunicação e o comportamento, com especial destaque para o comprometimento da interação social. Os principais sintomas que podem despertar para a investigação de TEA são: ausência de contato visual, movimentos repetitivos e estereotipados, déficits de linguagem (verbal e não verbal) e comunicação, ausência de reação ao ser chamado pelo nome, brincadeiras disfuncionais (brincar sem propósito), dentre outros. 

Nesse contexto, é essencial a avaliação médica especializada para o diagnóstico precoce, uma vez que o mesmo é iminentemente clínico e a antecipação das intervenções melhora o prognóstico. O diagnóstico precoce pode ajudar os profissionais a desenvolverem tratamentos para reduzirem a frequência e a gravidade dos sintomas desse transtorno, tais como: problemas sensoriais, desenvolvimento de linguagem, programas sociais, dificuldades alimentares, entre outros.

Após o diagnóstico, os pais, responsáveis e familiares, vivenciam as situações de lidar com o resultado e de busca pelo tratamento, que geralmente envolve uma equipe multiprofissional (médico, psicólogo comportamental, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, psicopedagogo) a depender das necessidades de cada paciente. O autismo, do ponto de vista comportamental, é um conjunto de déficits (sociais, comunicativos, adaptativos) e excessos comportamentais (movimentos corporais repetitivos, agressividade, baixa tolerância à frustação).

O diagnóstico precoce pode ajudar os profissionais a desenvolverem tratamentos para reduzirem a frequência e a gravidade dos sintomas desse transtorno Nesse ínterim, a ABA (Applied Behavior Analysis) utiliza-se de métodos com fundamentos científicos para construir repertórios socialmente relevantes e reduzir repertórios problemáticos (Cooper, Heron & Heward, 1989). Além disso, a ABA (Análise do Comportamento Aplicada, em português) é a forma de tratamento que possui mais investigações científicas e relatos de sucesso dentre as terapias que lidam com indivíduos diagnosticados com autismo. Os programas ABA constroem pré-requisitos de atenção e habilidades básicas de aprendizagem para que as crianças sejam capazes de aprender sem ajuda e estarem preparadas para desenvolver conhecimentos complexos.

O contexto de aplicação da Análise do Comportamento Aplicada é bastante vasto. Ele inclui desde clínicas, empresas, hospitais, publicidade, esporte etc. No entanto, ficou muito relacionado ao tratamento com autismo, principalmente devido aos resultados de um estudo publicado nos EUA, em 1987, pelo psicólogo Dr. O. Ivar Louvaas (Universidade da Califórnia Los Angeles). Nesse estudo, 19 crianças entre quatro e cinco anos, diagnosticadas com autismo, foram submetidas a 40 horas de atendimento semanais, intervenção precoce intensiva. Depois de dois anos, o Quociente de Inteligência (QI) dessas crianças havia aumentado 20 pontos em média e elas foram completamente reintegradas na escola regular. Crianças que não foram submetidas à terapia comportamental ABA não apresentaram melhoras.

Inúmeras escolas especializadas em Análise do Comportamento Aplicada foram criadas após essa publicação. As escolas especializadas que surgiram desde essa época ainda oferecem ensino com qualidade e estão, constantemente, tornando público os resultados obtidos.  Entre as escolas mais conhecidas estão: PCDI (New Jersey, EUA), NECC (Massachusetts, EUA), Spectrum Center (Califórnia, EUA), Jericho School (Flórida, EUA), Ann Sulivan (Peru e Brasil) e, a mais recentemente, AMA (São Paulo, Brasil). Algumas dessas escolas trabalham apenas com crianças diagnosticadas com autismo e outras atendem um público mais diversificado, com outros transtornos do desenvolvimento. Porém, todas utilizam a metodologia gerada pela pesquisa na área de Análise do Comportamento Aplicada.

Em 1994, uma mãe americana, Catherine Maurice, teve o diagnóstico de autismo dos seus dois filhos. Ela, então, entrou em contato com os estudos de Lovaas e publicou o livro “Let me Hear your voice” (Deixe-me ouvir sua voz), elevando assim a popularidade desse estudo. Houve, nos EUA, uma explosão e um aumento por serviços em ABA para indivíduos com autismo, além de mudanças na legislação educacional, na regulamentação e financiamento dos serviços em ABA. 

De acordo com o Departamento de Saúde do Estado de Nova York, procedimentos derivados da análise do comportamento são essenciais em qualquer programa desenvolvido para o tratamento de indivíduos diagnosticados com autismo. A academia nacional de ciências dos EUA, por exemplo, concluiu que o maior número de estudos bem documentados utilizou-se de métodos comportamentais. Além disso, a Associação para a Ciência do Tratamento do Autismo dos Estados Unidos afirma que ABA é o único tratamento que possui evidência científica suficiente para ser considerado eficaz (Caio Miguel, Ph.D, Psicólogo, doutor em análise do comportamento pela Western Michigan University. Artigo publicado no BAB - Boletim Autismo Brasil n.2, de junho de 2005).

A Análise do Comportamento Aplicada segue alguns princípios básicos para o ensino do indivíduo com desenvolvimento atípico, como: ensino de unidades mínimas passíveis de registro, ou seja, ‘quebra’ habilidades maiores em menores que sejam passíveis para o indivíduo aprender (esse ensino de habilidades começa do simples para o mais complexo). É de extrema importância a consistência entre as pessoas que têm contato com o indivíduo que está aprendendo, pois a equipe de profissionais, a escola e a família precisam estar alinhadas em relação dos procedimentos que estão sendo adotados, do entendimento da função do comportamento emitido, entre outros. 

É de extrema importância a consistência entre as pessoas que têm contato com o indivíduo que está aprendendo O ensino é individualizado, pois leva-se em consideração o repertório de cada indivíduo. A partir da avaliação inicial é estabelecido um currículo com metas e objetivos de curto e longo prazo. Todo o planejamento da intervenção é realizado contemplando a estrutura de ensino, que poderá ser mais estruturado ou mais voltado para ensino no próprio cotidiano do indivíduo, intensidade (como horas semanais), terapeutas, necessidades familiares e escolares etc. É importante destacar que a avaliação é constante, pois norteia todo o trabalho do analista do comportamento. Para isso, os registros de todos os procedimentos são rigorosamente realizados para que haja o adequado controle dos procedimentos realizados e de seus resultados. 

Outro ponto valioso na terapia ABA é que o aprender precisa ser sempre muito prazeroso (reforçador) e as respostas esperadas (corretas) são sempre comemoradas (reforçadas positivamente), já os comportamentos problemáticos (agressões, autolesões, respostas estereotipadas etc.) não são reforçados, o que exigi treino, habilidade e conhecimentos específicos por parte do profissional.

A Análise do Comportamento Aplicada apresenta mais de 50 anos de pesquisa científica contínua com resultados mensuráveis e efetivos. Infelizmente, existem ainda várias informações errôneas devido à falta de conhecimentos, o que leva a preconceito e discriminação, além da carência de profissionais especializados. O envolvimento dos pais, da família, da escola, da equipe multiprofissional (médico, psicólogo comportamental, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional e psicopedagogo) é fundamental durante todo o processo. O tratamento, utilizando a Análise do Comportamento Aplicada, deve ser contínuo. Ele possibilita resultados consistentes, sendo considerado no momento o mais efetivo.”

Raquel Borges de Pádua e Sousa Magalhães é psicóloga, especialista em Psicologia Escolar, Neuropsicologia e ABA (Análise do Comportamento Aplicada) e mestranda em Análise do Comportamento (PUC-GO).

*Tatiana Takeda é advogada, coordenadora da Subcomissão de Defesa dos Direitos das Pessoas com Autismo da OAB/GO, membro da Comissão dos Direitos da Pessoa com Deficiência da OAB/GO, professora do curso de Direito da PUC Goiás, servidora pública, mestre e especialista em Direito e especialista em Autismo.

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