Dependente emocionalmente e desprezada pelo marido a moça entrou em uma profunda depressão. Viu-se presa a uma cama. Perdeu a gestação de mais um filho. Foi ficando fraca e passou por uma longa penitência de delírios, suores e febres... até falecer aos 29 anos, completamente frágil.

Ela veio para “Terra Papagalli” em 1817. Aventureira e em acomodações duvidosas, passou meses no navio sem se cansar, olhando repetidamente para o presente de núpcias, um medalhão preso a um colar de diamantes com a fotografia do príncipe. Não havia iminente perigo de naufrágio ou aterrorizantes histórias de monstros marinhos que a impedissem de chegar ao Brasil. Iria se casar e estava dependente da paixão.

Nessa época, casamentos eram meros arranjos diplomáticos e os noivos sequer eram consultados. Porém, ela já o amava. Aquele mesmo amor que, segundo Nietzsche, “é o estado no qual os homens têm mais probabilidades de ver as coisas tal como elas não são”. 

A garota nascera em uma das famílias mais tradicionais, ricas e poderosas da Europa. Pertencia à Casa dos Habsburgos. Sua irmã era, inclusive, esposa de Napoleão, mas nada importava tanto para ela, quanto ele. Desde pequena tivera aulas de história, política, filosofia, arte, línguas estrangeiras, ciências naturais (ela não se continha de alegria pela oportunidade de estudar uma fauna e flora como as nossas). Já aqui era vista com o marido (Pedro) a cavalgar alegremente pela floresta da Tijuca. Ousada, foi a primeira mulher a usar calças compridas e encaixar as pernas nas selas do cavalo.  

A frente de seu tempo, achava esquisita a corte portuguesa e seus poucos hábitos culturais, como a falta de bons modos e os mexericos das damas que acabaram a apelidando de “a estrangeira”.  A vida em família no Palácio de São Cristovão era bem diferente da vida em família no Palácio de Schönbrunn, em Viena. Mas havia Pedro.

E a menina havia feito amizade com seu sogro, João, e tinha também José Bonifácio - esse sim “o cara”. Já nas ausências constantes do marido, eles conversam por horas e horas sobre assuntos diversos. Ambos esbanjavam cultura. Bonifácio disse certa vez, diante das hesitações de Pedro e da coragem da esposa: “Ela deveria ser ele”.

O patriarca da Independência estava certo. Poucos sabem, mas a participação ativa da garota, convocando o Conselho de Estado, juntando documentos e enviando carta pessoal de encorajamento ao marido, que estava em viagem a São Paulo, fez com que, em 07 de setembro de 1822, Pedro desembainhasse a espada e desse o famoso grito de “independência ou morte”, enquanto lia um texto dela, com o qual a independência já havia sido proclamada por ela no papel, cinco dias antes.

Forte, inteligente, corajosa, mas havia uma questão: Pedro. Pedro e sua vida desregrada. Os filhos iam nascendo (seis, no total). Ele ia se distanciando entre diferentes camas e ela ia se entristecendo. Dependente a independente. Pedro passou por uma cama especial, a de Domitila, que se tornou marquesa de Santos. Por ironia do destino, Pedro a conhecera justamente naquela viagem a São Paulo, que mudara a história do Brasil.

De São Paulo para o Rio de Janeiro, do Rio para uma casa próxima a corte, da casa próxima para o papel de primeira-dama da esposa. A garota, corroída, e a amante passaram a viver sob o mesmo teto. Teto que 200 anos depois de construído desabou, também corroído, em chamas, no último dia 02 desse mês de setembro.  

Retomando o filósofo destruidor de ídolos, Nietzsche: “O herói romântico é um doente, que acaba sempre morrendo jovem, corroído”. Foi assim com Maria Leopoldina de Áustria, a Imperatriz da Independência. E isso pode acontecer com qualquer mulher que não coloque seus esforços e emoções equilibradamente nas escolhas de vida ou que não se coloque no mais elevado grau de importância e independência emocional que ela já merece apenas por ser uma mulher em um mundo que as independências são proclamadas por homens.

*Larissa Vaz é psicoterapeuta, psicodramatista, especialista em Reabilitação Cognitiva. Email: larissapsi@gmail.com. Telefone: (62) 3281-3061.

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