Elis Regina Carvalho Costa passou como um furacão pela música popular brasileira entre as décadas de 1960 e o ano de 1980, quando morreu precocemente, aos 36 anos, no dia 19 de janeiro. Com muita personalidade e coragem, Elis foi a primeira pessoa a inscrever a própria voz como se fosse um instrumento na Ordem dos Músicos do Brasil. Sua presença de palco e qualidade da voz, aliadas a força interior, fizeram com que Elis entrasse na história da música brasileira como uma das mais importantes cantoras e intérpretes que o Brasil já presenciou.
 
Inicialmente influenciada pelos cantores do rádio e descolada da bossa nova, Elis Regina foi a primeira grande artista a surgir dos festivais de música na década de 1960. Participou do I Festival de Música Popular Brasileira da TV Excelsior, em 1965, com duas músicas.  Embora tenha ganhado o festival com a música “Arrastão” (Edu Lobo e Vinícius de Moraes), dizia que a sua favorita era “Por um amor maior” (Francis Hime e Rui Guerra).  

Consagrada como a grande revelação do Festival, recebeu o convite para atuar na televisão no programa “O Fino da Bossa”, ao lado de Jair Rodrigues. Elis Regina cantou muitos gêneros. Ela não tinha nenhum medo de mudar o rumo. Da mpb, passou pela afamada bossa nova, enveredou no samba, visitou o rock e o jazz. Imortalizou canções como “Madalena”, “Águas de Março”, “Atrás da Porta”, “Como Nossos Pais”, “O Bêbado e o Equilibrista”, “Querellas do Brasil” e tantas outras.

 Sempre destemida, ao longo de toda a carreira, destacou-se por cantar também músicas de artistas ainda pouco conhecidos então, como Milton Nascimento, Ivan Lins, Belchior, Renato Teixeira, Aldir Balnc e João Bosco, ajudando a lançá-los e a divulgar obras, impulsionando-os no cenário musical brasileiro. Difícil mesmo tornou-se a interpretar uma canção já gravada por Elis. Alguns compositores ficavam receosos de gravar as próprias canções após Elis as ter interpretado, tão forte era a marca de seu registro. Após ouvir Elis cantando "Se eu quiser falar com Deus”, Gilberto Gil se perguntou: "Como é que eu vou cantar essa música agora?”.

Elis Regina teve uma curta vida na qual registrou momentos de felicidade, amor, tristeza, patriotismo, depressão, euforia. Ao longo de toda a carreira, teve parceiros e influencias inúmeras: Ângela Maria, Lennie Dale, Ronaldo Boscoli, César Camargo Mariano, Nelson Motta, Tom Jobim, Chico Buarque, Gal Costa, dentre outros. Com Tom Jobim e Chico Buarque, Elis teve histórias curiosas. Foi reprovada por Tom e Vinicius de Moraes, em 1964, durante as audições para o disco “Pobre Menina Rica”. Tom Jobim a achava muito provinciana. Dez anos depois, gravaram juntos o disco Elis & Tom, histórico registro da mpb. 

Com Chico Buarque, a música "Atrás da porta", gravada por Elis em 1972, ainda não estava finalizada e era apenas um rascunho quando foi ouvida por Roberto Menescal, seu produtor à época. Elis gravou apenas a parte inicial da letra, fazendo vocalises durante o resto da canção. O registro foi enviado a Chico Buarque, que a finalizou no mesmo momento.

Fora do Brasil, Elis também fez muito sucesso. Assustada, em 1979, antes de se apresentar no Festival de Jazz de Montreux, na Suíça, teve uma crise de choro ao se lembrar que ela, vinda de família humilde do Rio Grande do Sul, iria se apresentar no mesmo palco que os grandes gênios da música mundial. 

Ouviremos Elis Regina e Hermeto Paschoal nesse Festival de Jazz de Montreux, na Suíça. Ao final de show, Elis foi convidada a se apresentar, sem ensaio, com Hermeto Paschoal, numa apresentação considerada histórica. 

*Gyovana Carneiro é professora da Escola de Música e Artes Cênicas da UFG, doutora em Ciências Musicais pela Universidade Nova de Lisboa – Portugal. Promove séries de Concertos em Goiânia.

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