Secret Love Affair (2014) é uma série produzida pela emissora de televisão JTBC, da Coreia do Sul. Foi escrita por Jung Sung Joo e dirigida por Na Pan Seok.  Esse drama é, sem dúvida, uma joia rara escondida na Netflix, especialmente para aqueles que amam música de concerto. O enredo gira em torno da história de duas almas de mundos distintos, que se encontram para viver uma paixão proibida. Luxo, ostentação e falsidade se encontram com uma vida repleta de dificuldades, perdas, sinceridade e transparência, onde a paixão que ambos nutrem pela música se transforma no ponto de partida para um romance nada ortodoxo. 
 
Diretora de uma afamada fundação de arte, trabalhando diretamente com toda a família que gere o grupo, Oh Hye Won (vivida pela atriz Kim Hee Ae), uma talentosa pianista, abandona a carreira em prol da destacada posição e se perde em meio a ambição. Aos 40 anos, Won é casada com o professor de piano da mesma fundação, Kang Joon Hyung. Já nos primeiros episódios, o espectador percebe as fragilidades do casamento. 

Won se depara com o jovem Lee Sun (interpretado pelo ator Yoo na In), de vinte e poucos anos. Ele é um moço simples, que trabalha como entregador, e secretamente toca piano. Lee grava vídeos tocando e publica na internet com o pseudônimo "Sou um Gênio".  Longe do luxo, com todas as dificuldades financeiras e perdas, ele não consegue se afastar da música. 
 
De forma envolvente, a série não gira em torno apenas dos dois protagonistas, mas também mostra o mais profundo da vida daqueles que os rodeiam. A direção é impecável, com ângulos de câmara que sugerem estarmos espionando cada personagem em cena. Os atores, sul-coreanos, pouco conhecidos no nosso imaginário, foram escolhidos com todo cuidado. Eles têm uma química impressionante e há cenas que mesmo sem diálogo nos tira o folego, nos envolvendo com muita música e paixão.
 
A música é um motivo a mais para saborear a série. No vídeo abaixo, ouviremos trechos da “Fantasia para piano a quatro mãos em Fá menor”, de Franz Schubert, executada pelos protagonistas. Na prática do piano a quatro mãos, predomina a existência de laços de intimidade dentre os executantes. Talvez esses laços possam ser justificados pelo misto de proximidade e embate entre os corpos que perfazem a execução, possibilitando ao espectador um espetáculo também visual. Imagine na série, onde os protagonistas começam a se encontrar através da música.
 
“A Fantasia de Schubert” começa com um tema absolutamente memorável, que ressurgirá no fina, tanto recapitulado literalmente quanto servindo de base para uma imensa fuga. Após a fuga, um final inesperado (sombrio e simplesmente fantástico), tal qual Secret Love Affair.

*Gyovana Carneiro é professora da Escola de Música e Artes Cênicas da UFG, doutora em Ciências Musicais pela Universidade Nova de Lisboa – Portugal. Promove séries de Concertos em Goiânia.

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