“Green Book: O Guia” levou três estatuetas no Oscar 2019: Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Roteiro Original. Considero um filme que realmente vale a pena ser visto. O Título remete ao “The Negro Motorist Green Book”, também conhecido como “The Negro Travelers Green Book”, um guia publicado entre os anos de 1936 e 1966, com a função de ajudar afrodescendentes a encontrarem estabelecimentos nos quais fossem aceitos para hospedagem, alimentação e outros serviços e necessidades diárias sem afrontar o branco com a sua presença. 

Essa era a triste realidade na maior parte dos Estados Unidos dos anos 1960. O filme “Green Book: O Guia” conta a história real da amizade inesperada entre o pianista Don Shirley e seu motorista Tony Lip. O ator Viggo Mortensen é quem dá vida a Tony Vallelonga, mais conhecido como Tony Lip, descendente de italianos, e um tipo essencialmente urbano hábil em improvisar e resolver problemas pela vida. Mahershala Ali, vencedor do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, ilumina com perfeição o pianista virtuoso Don Shirley, cuja vida longe do palco é um desafio permanente à sua sobrevivência e dignidade.
 
O longa vai nós deixando testemunhar passo a passo o nascimento da amizade entre esses dois homens, com quase nada em comum. Os personagens faziam malabarismos a fim de se livrar da violência racial, resultando em vínculo único, com muito companheirismo, generosidade e sentido do humor. Na vida real, Donald Walbridge Shirley, também conhecido como Don Shirley, nasceu em janeiro de 1927 e foi um pianista consagrado, que buscou romper barreiras raciais em um Estados Unidos segregador.
 
Filho de pais jamaicanos imigrantes, Don nasceu na Florida. Iniciou as aulas de piano aos dois anos de idade com a mãe. Demonstrando enorme talento, aos 9 anos de idade foi estudar com Mittolovski no Conservatório de Leningrado, sendo o único aluno negro dessa instituição. Shirley sonhava se tornar músico clássico, mas foi aconselhado a seguir carreira tocando “música negra”. Um auditório nos Estados Unidos jamais aceitaria um homem negro tocando Chopin, seu músico favorito.

Dessa forma, apesar de tocar como solista em sinfonias de Chicago, Cleveland e Detroit, o verdadeiro Don acabou transitando entre a música clássica, o jazz e outros elementos da música pop para criar seu próprio gênero.  O pianista realmente saiu em turnê pelo Sul dos Estados Unidos para tocar em teatros e salas de visitas só para brancos, acompanhado de seu motorista e guarda-costas Tony Lip, como retrata Green Book. Também foi comprovado que o verdadeiro Don Shirley era um homem culto, elegante, refinado, que dominava oito idiomas e tinha doutorado em música, psicologia e arte. Mas ele nunca se referia a si mesmo como artista ou intérprete de jazz, mas sim como músico.

Uma das falas do músico no filme foi retirada de uma entrevista onde ele revela seu tom crítico sobre os jazzistas: “Eles fumam enquanto tocam. Colocam o copo de whisky em cima do piano. Depois ficam bravos quando não são respeitados como Arthur Rubinstein. Você não vê Arthur Rubinstein fumando e apoiando seu copo sob o piano… A experiência negra através da música com dignidade. Isto é tudo que tratei de fazer”. Essa entrevista foi concedida para o jornal New York Times. 

Mas mesmo com o sucesso do filme, o longa recebeu muitas críticas de familiares de Don Shirley sobre a veracidade dos fatos relatados em uma história narrada e protagonizada por brancos. Segundo a família, o título deveria ser: “Sinfonia de Mentiras”.
 
Ouviremos o verdadeiro Don Shirley Trio em Water Boy (1961), um sucesso que uniu Chopin à música dos anos sessenta e improvisos.
  
*Gyovana Carneiro é professora da Escola de Música e Artes Cênicas da UFG, doutora em Ciências Musicais pela Universidade Nova de Lisboa – Portugal. Promove séries de Concertos em Goiânia.

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