Estreado em Goiânia, o quinteto nº2 op.31 da compositora francesa Louise Farrenc causou surpresa na plateia do Centro Cultural UFG no último domingo (14). Os músicos Davi Graton (violino), Gabriel Marin (viola), Milton Masciadri (contrabaixo) e a goiana Ana Flávia Frazão (piano) interpretaram o quinteto da compositora no encerramento IV Simpósio Internacional da Performance. 

Louise Farrenc, pianista e compositora francesa, filha de uma família de artistas, demonstrou desde muito cedo aptidão musical. Embora desconhecida do grande público, Farrenc compôs um considerável volume de obras de grande qualidade. Ela escreveu obras para sopros, cordas e piano, além de duas aberturas e três sinfonias. Aos 15 anos, os pais permitiram que ela estudasse composição, mesmo que essas aulas fossem restritas aos homens. Aos 17, Louise casou-se com o flautista Aristide Farrenc, de quem herdou o sobrenome. 

O casal foi proprietário da editora “Éditions Farrenc”, uma das principais editoras de música da França por quase 40 anos. Mesmo considerando o preconceito existente no século 19 contra mulheres compositoras, Louise Farrenc desfrutou de grande reputação durante sua vida. Iniciou os estudos de piano com Cecile Soria, ex-aluna do afamado Muzio Clemente, recebendo também ensinamentos de Ignaz Moscheles e Johann Hummel.  Suas obras demonstram influencia dos três compositores. 

Em 1842, Farrenc foi nomeada para o cargo de professora efetiva de piano do Conservatório de Paris, sendo considerada uma das melhores professoras. Segundo relatos da época, muitos de seus alunos formaram com o “Premier Prix”. Curiosamente, apesar disso, Farrenc recebia salário menor do que seus colegas do sexo masculino.  Essa situação chegou ao fim após a estreia triunfante de seu noneto em mi bemol maior para violino, viola, violoncelo, baixo, oboé, clarineta, trompa e fagote. A obra contou com a participação do violinista, de grande reputação na época, Joseph Joachim.  

Um dos maiores críticos do século 19 na França, na edição Biographie Universelle des Musiciens,  François-Joseph Fétis escreveu sobre a compositora Farrenc: “Se o compositor é desconhecido, a audiência permanece não receptiva, e o as editoras, especialmente na França, fecham seus ouvidos quando alguém lhes oferece um trabalho decente (...)  seus trabalhos foram reconhecidos pelos sábios e conhecedores da época como de primeira linha, mas isso não foi o suficiente para ganhar fama duradoura como compositora”.

Farrenc morreu em Paris em 1875.  Durante várias décadas após sua morte sua obra sobreviveu. Mas com o passar do tempo, seus trabalhos foram em grande parte esquecidos até que, no final do século 20, a partir do interesse em pesquisas sobre mulheres compositoras, Louise Farrenc foi redescoberta e muitas de suas obras foram gravadas.

Ouviremos, de Louise Farrenc, a sinfonia n°3 em sol menor op. 36 com a Orquestra Filarmônica da Rádio Francesa sob a regência de Mikko Franck.

*Gyovana Carneiro é professora da Escola de Música e Artes Cênicas da UFG, doutora em Ciências Musicais pela Universidade Nova de Lisboa – Portugal. Promove séries de Concertos em Goiânia.

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