Vivemos dias de incertezas em relação aos direitos sociais, democráticos, direitos trabalhistas e tantas outras questões. Pela minha experiência, pelo acompanhamento das redes sociais e de movimentos sociais organizados, tenho visto uma grande discussão quanto à educação de gênero nas escolas. Faço aqui três indagações: o que significa educação de gênero? Os professores conseguem cumprir essas propostas? Os pais se sentem confortáveis para falar sobre sexualidade com seus filhos? 

A educação de gênero na escola trabalha com o referencial que defende a transmissão de valores de igualdade e respeito entre pessoas de sexos diferentes, conforme o Referencial Curricular Nacional, de 1988. A metodologia para a educação básica é proporcionar brincadeiras em que meninos e meninas possam assumir lugares onde as crianças não assumam papéis estereotipados, para que, assim, possam ser desconstruídos significados de gênero, ou seja, papéis de meninas e meninos na sociedade. As brincadeiras permitem que todos participem dos diferentes movimentos de atividades, como dançar, descer e subir árvores ou obstáculos, jogar bola, rodar bambolê e tantas outras brincadeiras. 

Como os professores trabalhariam essas questões na escola, considerando-se que a maior parte desses profissionais é de mulheres, muitas são mães e tantas outras não têm filhos? A questão de gênero entra nos temas transversais, proposta elaborada pelos Parâmetros Curriculares Nacionais, entre 1995 e 1997. Esses temas incluem ética, pluralidade cultural, meio ambiente, sexualidade e orientação sexual. O que me chama a atenção é a grande dificuldade dos professores e professoras em sentirem-se à vontade, ter naturalidade e afetividade para discutir esses temas. 

Minha experiência na formação de professores mostra que muitos profissionais não estão preparados para responder às perguntas levantadas pelas crianças. E a família está preparada para conversar, dialogar com filhos? Mais uma vez, um grande entrave no que se refere à sexualidade. E não estou falando sobre homossexualidade e temas que têm provocado tanta violência. São jovens pais e mães que não conseguem responder às indagações mais simples das crianças quando o assunto é sexualidade. Repetem modelos antigos, se apoiam no modelo que os próprios pais os orientaram, ou seja, fazem opção pelo não diálogo, ironicamente a qual tão arduamente criticaram. 

Como diz a música: “você culpa seus pais por tudo, isso é absurdo, são crianças como você, o que você vai ser quando você crescer?”. Portanto, o que vejo e observo é que “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. Os pais e mães, em palestras e acompanhamentos psicológicos trazem essas questões: “Meus pais não falavam sobre sexualidade”, “isso era tabu lá em casa”, “eu tive muitas dificuldades na relação com minha mãe”, “ela era dura, fechada para o diálogo”. Os pais nos deram o que eles receberam e transformaram. 

Mas com certeza recebemos mais do que eles. É nosso dever como pais e mães dar continuidade à vida de forma descomplicada, mais aberta, com mais diálogo, escutando mais os nossos filhos. A criança é curiosa, quer você concorde ou não ela vai buscar em algum lugar as respostas para as dúvidas. E, sim, a escola tem um grande papel nessa desconstrução de papéis de gênero, na orientação sexual, pois as crianças e os adolescentes estão cheios de dúvidas e angústias e não sabem a quem recorrer. Mesmo com todas as dificuldades, estamos caminhando, estamos construindo um novo jeito de interação entre as pessoas e tentando respeitar a diversidade. Não deixemos isso morrer!

* Maria Lúcia Oliveira é psicóloga clínica, facilitadora de circulo psicoterapêutico de mulheres, com especialização em terapia familiar e de casal. Também possui especialização em psicopatologia, formação em educação sistêmica e mestrado em ciências da religião.

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