O Trono do Crisântemo tem um novo imperador. O Japão inaugurou, desde o último dia 1º, uma nova era, perpetuando, ao menos por mais uma geração, a monarquia mais antiga do mundo. Naruhito é o novo imperador e deixa para trás a “Era Heisei” em razão da abdicação do pai. O país, com ele, entra na “Era Reiwa”, cujo sentido é uma combinação de palavras inspiradas em um clássico da poesia japonesa Waka do século 7. 

“Reiwa” tem um significado interessante: que a cultura nasce e se nutre quando as pessoas passam a se importar umas com as outras. Lembrando que no Japão o imperador não governa, ele é o símbolo do Estado. Naruhito, de 59 anos, vestido da maneira ocidental, fez um breve pronunciamento no Palácio Imperial para menos de 300 convidados: "Quando penso na grande responsabilidade que assumi, me encho de um sentimento de solenidade", falou. 

Enquanto filosofar é permitido no Brasil, passei uma noite com essa frase enlaçando minha alma. Akihito, o antigo imperador, abdicou do trono após 30 anos e cinco meses de reinado. Em 2015, ele manifestou o desejo de deixar o cargo, pois sentia que não conseguia mais "exercê-lo de corpo e alma" aos 85 anos. 

Mas tem tanta coisa para falar sobre esse assunto... Outra situação que chama a atenção é que, pela primeira vez na história moderna do Japão, uma mulher assistiu à cerimônia. A honra coube a Satsuki Katayama, única ministra do gabinete do primeiro-ministro Shinzo Abe. Nem a antiga nem a nova imperatriz puderam comparecer. Prova que o trabalho precede o gênero e essa é a verdadeira igualdade.

E nesse contexto (mulher, trabalho e política), o senador Angelo Coronel (PSD) apresentou projeto para acabar com a cota feminina no Congresso, argumentando que a medida não mudou de forma significativa a presença de mulheres no Legislativo brasileiro. Ainda no Brasil, e depois de quatro anos da publicação, a Revista Veja foi condenada a indenizar uma modelo em R$ 50 mil porque publicou a moça vestida de biquíni, relacionando a foto com atividade criminosa, sem qualquer contexto. A indenização, em primeiro grau, foi de R$ 200 mil, mas o Tribunal do Rio Grande do Sul reduziu a verba indenizatória, infelizmente.

Quanto ao Japão, impossível não nos rendermos à resiliência desse povo e não admirá-lo. O poder que possuem de transitar entre o passado e o futuro é fantástico, um equilíbrio quase impossível de se conseguir. Quanto ao Brasil, ainda estou tentando identificar para qual passado estamos caminhando ou sendo remetidos: na contramão mundial isso é certeza.

Quanto à indenização minorada, uma vergonha! O Poder Judiciário, salvaguarda da nossa legislação e costumes, está intimidado e a balança tende a não ser justa. E quanto aos costumes, dia 28 de abril foi o Dia da Sogra, figura emblemática, parente por afinidade com previsão no Código Civil, cujo vínculo mesmo com o fim do casamento não se encerra. Então, parabéns para a minha eterna sogra, que por coincidência também se chama Satsuki, é japonesa e uma grande mulher. 

*Renata Abalem é advogada, diretora jurídica do IDC (Instituto de Defesa do Consumidor e do Contribuinte) e fundadora da ABRASAÚDE (Associação Brasileira dos Usuários de Sistemas de Saúde, Planos de saúde e Seguros de Saúde). Presidente da Comissão de Direito do Consumidor da OAB/GO triênio 2016/2018. Conselheira seccional da OAB/GO também triênio 2016/2018.

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