Segundo a casa de leilões Christie’s, na primeira semana de dezembro de 2018, uma rara primeira edição de “Harry Potter e a Pedra Filosofal” alcançou em leilão a cifra de US$ 162.500, superando, e muito, todas as expectativas do mercado. A mesma Christie’s anunciou que uma carta de Albert Einstein para Eric Gutkind, datada de 3 de janeiro de 1954, foi leiloada, também em dezembro passado, por US$ 2,89 milhões. Na “Carta de Deus”, como é conhecida a missiva, Einstein, ganhador do prêmio Nobel, faz observações francas sobre Deus e religião, sua identidade judaica, a eterna busca pelo significado do homem e, por consequência, do próprio Deus.

Em “Harry Potter”, a ficção leva três garotos a protegerem a pedra filosofal, que nada mais é que um artefato mágico capaz de transformar metal em ouro puro e produzir o elixir da vida eterna. Na “Carta de Deus”, o cientista questiona a existência do Criador e minimiza a influência da Bíblia, tanto para os judeus quanto para o restante do mundo. Os dois temas, Deus e a vida eterna, têm desafiado a humanidade em razão de serem problemas que não têm resposta. Ficcionistas e cientistas tentam explicar o fenômeno da vida eterna e ninguém nunca voltou aqui para contar como seria.

Deus, por sua vez, é inexplicável. E assim ficamos às voltas com o que a nossa mente produz e a nossa fé conquista, amparados por experiências pessoais das mais variadas. E nesse contexto filosófico, entre Deus e a vida eterna, descambo meu olhar para as suas respectivas antíteses: o homem e a morte. É que tais figuras, como em um quadrado (Deus, o homem, a vida eterna e a morte), se veem frente a frente por todo o sempre, em uma geometria inseparável. Não se vê um sem seu correspondente antônimo, seu reverso, seu “outro lado”.

E aí, em janeiro de 2019, se romperam as barragens e a lama cobriu o mundo. Sem similar na literatura, sem missivas que possam descrever o ocorrido. Ações caíram 24% na bolsa e estima-se que a perda seja de R$ 71 bilhões em valor de mercado. Os investidores norte-americanos anunciaram a propositura de uma ação coletiva milionária. A dona da barragem e seus principais executivos foram acusados. Os argumentos jurídicos absolutamente técnicos afirmam que ela "fracassou ao não avaliar de forma adequada riscos e o potencial dano de rompimento da barragem". 

A ação ainda ressalta que os programas para evitar incidentes de segurança e saúde eram inapropriados, ou seja, uma reprise do que vimos há dois anos. Os lados do quadrado continuam se olhando, mas o homem e a morte estão manchados de barro... barro brasileiro. 

*Renata Abalem é advogada, diretora jurídica do IDC (Instituto de Defesa do Consumidor e do Contribuinte) e fundadora da ABRASAÚDE (Associação Brasileira dos Usuários de Sistemas de Saúde, Planos de saúde e Seguros de Saúde). Presidente da Comissão de Direito do Consumidor da OAB/GO triênio 2016/2018. Conselheira seccional da OAB/GO também triênio 2016/2018.

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