“Alguma vez você já se perguntou como os astronautas se barbeiam? Levar espuma de barbear ao espaço é um luxo impossível, especialmente porque os astronautas têm coisas muito mais importantes para fazer do que perder tempo fazendo a barba. A água também é um elemento que não deve ser usado de maneira leviana na estação espacial… O barbeador elétrico da Nasa chega às lojas no Brasil! Space Razor: faça a barba sem espuma de barbear ou água em menos de 30 segundos!”

O texto acima é um anúncio virtual que teima em aparecer na tela do meu computador todos os dias. Achei muito engraçado. Nunca me perguntei como os astronautas se barbeiam. E você, já se fez essa pergunta? De acordo com a propaganda, é bem possível que o Space Razor seja uma das maiores invenções de todos os tempos, além é claro de permitir que o pelo seja cortado com 312% a mais de eficácia. Imagine a tecnologia empregada nesse equipamento. Imagine, ainda, o equipamento empregado para confirmar esses 312% de eficácia.  Tecnologia de primeiro mundo!

Como é o barbeador da Nasa, a gente acredita na eficácia superior a 300%. Até porque a Nasa não iria mentir, iria? É, mais a Nutella mentiu... E pagou caro por isso. Isso porque em sua propaganda, a Nutella afirmava que era um alimento saudável para o café da manhã das crianças, além de conter vários benefícios nutricionais. Acontece que esses argumentos eram conflitantes com as próprias informações presentes no rótulo da embalagem: o chocolate possui mais de 20 gramas de açúcar e 11 gramas de gordura por porção. 

Por causa desse “pequeno” conflito uma mãe da Califórnia processou a empresa, dizendo se sentir enganada, pois ela vinha servindo o produto ao filho por algum tempo. Por isso, o grupo Ferrero, fabricante da Nutella, pagou uma indenização de 3,05 milhões de dólares aos consumidores americanos por não destacar o nível de gordura contido no alimento. A Ferrero EUA, filial da gigante italiana, pagou ainda cerca de 4 dólares por cada pote vendido na Califórnia entre agosto de 2009 e janeiro de 2012, e em todo os Estados Unidos entre janeiro de 2008 e fevereiro de 2012.  

Além disso, a empresa teve que rever anúncios e agora o teor de açúcar dos produtos está na frente da embalagem. A justiça americana aplicou a multa com caráter pedagógico, porque naquele país entende-se que os fornecedores devem ser o mais transparente possível com o consumidor. 

Quase que nem essas paragens, nós temos transparência total nas relações fornecedores e consumidores e ainda usamos equipamento com tecnologia da Nasa. Com 312% de eficácia...Daqui a pouco teremos um ônibus espacial brasileiro, com 783% de chance de chegar em Marte! 

*Renata Abalem é advogada, diretora jurídica do IDC (Instituto de Defesa do Consumidor e do Contribuinte) e fundadora da ABRASAÚDE (Associação Brasileira dos Usuários de Sistemas de Saúde, Planos de saúde e Seguros de Saúde). Presidente da Comissão de Direito do Consumidor da OAB/GO triênio 2016/2018. Conselheira seccional da OAB/GO também triênio 2016/2018.

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