É muito comum escutar queixas no consultório que a criança não quer se separar dos pais.  O que os pais não sabem é que esse sintoma está relacionado com o lugar que a criança ocupa no contexto parental e que não podem reduzir o filho à expressão, já tão banalizada, de “criança-sintoma”. Assim, o encaminhamento dessa questão envolve a relação intersubjetiva entre a criança e os pais.

Desde o nascimento, é obvio a necessidade de dependência do bebê ao exterior a ele para sobreviver, em função do desamparo. Todo organismo humano é incapaz de levar a cabo essa ação específica, realizando-a por meio de uma assistência externa, de um outro que o constitui e o reconhece como objeto de cuidados. Existem várias maneiras de satisfazer as necessidades infantis de uma criança. Elas envolvem, além do contato físico, o contato amoroso ou não dos cuidadores. Portanto, a criança chega ao terapeuta como portadora de uma história que lhe foi legada e à qual, às vezes, ela se identifica inicialmente até como estratégia de sobrevivência.

Que lugar ocupa o sintoma? Seria o resultado do processo de superproteção? Seria o sintoma da neurose infantil como ponto culminante da organização psíquica do sujeito? Ou seria uma resposta aos conflitos familiares? Resposta às neuroses dos pais? A criança testemunha a realidade do casal parental, “a verdade da realidade”, sugerindo que seus sintomas são uma confirmação do fracasso do ideal dos pais, uma vez que desenvolvem, às suas revelias, sua própria subjetividade. No entanto, essa função do sintoma de garantir a subjetividade da criança, à revelia dos pais, pode gerar uma angústia intensa.

Assumir a própria subjetividade é uma luta tão intensa que a criança muitas vezes “prefere” permanecer na lógica binária, mãe e filho, preferindo não se separar. Além disso muitas vezes a luta da criança é contra o desejo ambivalente da mãe, que ao mesmo tempo deseja a independência do filho e nutre a sua dependência. Assim, a angústia de separação da mãe é tão imensa que, muitas vezes, a criança não quer ter vários amigos, não gostar de brincar e sair, não consegue dormir fora de casa e muito menos viajar sem a mãe.

Quando os pais são separados, essa situação piora. Às vezes, a criança chega a chorar de saudades da mãe pela dificuldade em se separar dela. Muitas vezes, esse sintoma se alastra e a criança pode apresentar dificuldades também em relação a objetos pessoais, não gostando de se desfazer de nada e mantendo velhos brinquedos de sua primeira infância.

É preciso, entretanto, verificar as mensagens ambivalentes transmitidas pelos pais, relacionadas aos “perigos” que a criança corre quando se propõe, por exemplo, a fazer as coisas independente dela. É muito comum ouvir mães afirmarem que, por amar tanto, acham que a criança corre perigo em todas as situações em que ela não se encontra presente. A proteção excessiva da mãe muitas vezes ocorre em função de algumas perdas que ela própria pode ter sofrido. Assim, a mãe pode estar sinalizando para a criança que ela não consegue “perder” mais nada.

Dessa forma, a criança pode estar respondendo ao sintoma da mãe de permanecer grudada, como uma forma de evitar a perda. Dessa forma é possível compreender como os sintomas neuróticos na infância se encontram entrelaçados aos sintomas parentais. Boa reflexão.

* Dra. Virginia Elizabeth Suassuna Martins Costa é mãe de 3, avó de 3. Casada com o Chef Tony por 36 anos. Atualmente viúva. Psicóloga formada pela USP, doutora pela UnB, professora da PUC-GO, Gestalt-terapeuta com formação no Brasil e exterior. Proprietária da Gestalt Clínica, ITGT e do Instituto Suassuna. Autora de livros, capítulos de livros, artigos e pesquisadora do CNPq.

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