O tempo de dormir é tempo de separação e, como qualquer separação, só é possível ser vivida de forma saudável quando coexiste o sentimento de segurança. A noite representa mais que dormir, sendo óbvia a necessidade de descansar, o que pode ser atingido mesmo que a criança não durma. Ao dormir, perde-se o controle dos acontecimentos, porque deixa-se de estar vigilante e, consequentemente, fica-se mais vulnerável. Dormir, portanto, é abdicar de estar a par e de controlar as situações. Só é possível dormir bem se existir o sentimento de segurança em relação ao ambiente, às pessoas e às circunstâncias.

Assim, para que a criança durma, é importante que ela desenvolva o sentido de autoconfiança e confiança no meio em que a rodeia, pois a ideia que perdura nessa altura é que durante a noite os fantasmas e os medos que estão dentro dela, alguns herdados genética e culturalmente, se sentem à vontade para sair.

Não obstante, é preciso ter atenção aos vários fatores que poderão levar a criança a acordar, tais como:

- Sensação de insegurança;
- Períodos de desenvolvimento acelerado, que torna o sono mais cheio de estímulos e com informações para assimilar;
- Fases de medo ou abandono;
- Alimentação;
- Chantagem psicológica dos pais;
- Atitudes erradas dos pais;
- Estresse parental.

Como consequências, pode-se constatar os seguintes distúrbios:

- Sonolência - desejo de permanecer dormindo;
- Insônia - demora muito para adormecer ou acorda durante a noite;
- Bruxismo - distúrbio de movimento rítmico e repetitivo dos músculos de mastigação durante o sono;
- Sonambulismo - falar, andar ou executar alguma atividade durante o sono;
- Pesadelos - ocorrem na fase do sono rem e são uma descarga psíquica pobre em representação imaginária;
- Terror noturno - grito de terror sem motivo, acompanhado por intensa descarga autonômica, frequentemente associada a atividade motora estereotipada e repetida;
- Ronco - ocorre com a respiração bucal. O ronco evolui da respiração bucal crônica e podendo culminar em distúrbios obstrutivos respiratórios do sono, como a apneia do sono;
- Enurese noturna - incontinência urinária noturna. A incidência diminui progressivamente na infância, sendo que aos seis anos de idade apenas 5% das crianças a apresentam.

Em síntese, é durante a noite que a criança passa mais tempo sozinha. Ela própria tem que saber lidar com toda essa solidão. Contudo, se tiver todos os mecanismos de autoestima e autoconfiança bem definidos, a criança não sentirá obstáculos para dormir na própria cama e espaço. Para que as crianças desenvolvam hábitos, envolvendo as questões relativas à higiene do sono, pais e educadores devem conhecer e valorizar a necessidade de um sono satisfatório para o desenvolvimento, adaptação e aprendizagem. Assim, é necessário intervir precocemente e diagnosticar as situações de crise, responsáveis pelo comprometimento do sono.

A grande questão, entretanto, é que na maioria das vezes o diagnóstico é tardio ou errôneo. Devido à má qualidade do sono, a criança se torna irritada e sofre variações de humor, o que acarreta dificuldades de aprendizagem que podem resultar em diagnósticos como depressão ou hiperatividade. A qualidade do sono, em geral, afeta diretamente as funções, tanto do cérebro quanto do organismo, pois o sono tem como objetivo manter ou expandir as redes neuronais ligadas à memória fundamental para que a aprendizagem ocorra.

Você sabia, por exemplo, que pessoas privadas de sono, quando testadas em simulador de direção de veículos ou quando avaliadas em uma manobra de coordenação mão-olho, tiveram uma performance igual ou pior do que aquelas sob ação de tóxicos? Cabe à família, portanto, proporcionar o amor e a segurança necessária para que a criança, sozinha, possa se defender da escuridão.

Algumas dicas para a rotina do sono, que ajudam a criança ter um sono tranquilo e descansado, podem envolver:

- Uma cama confortável, com dose de silêncio, luz apagada ou uma simples luz de presença;
- Ensinar à criança que ela não está em perigo e restituir os fatores de segurança para que assim se acalme e consiga permanecer sozinha;
- Mostrar à criança como dominar o ambiente. Se ela sentir que não tem controle sobre o ambiente, se sentirá insegura;
- Ouvir o que de fato lhe provoca o medo ou simplesmente aquilo que lhe está perturbando, dando-lhe atenção durante o tempo necessário para ficar calma e segura;
- Evitar deixá-la chorar por tempo indeterminado. Isso é essencial;
- Sentar-se ao pé da criança quando ela estiver muito assustada, reduzindo ao máximo o contato físico. Fale com voz baixa, dizendo que ela terá que dormir, repetindo essa atitude até a criança se acalmar;
- Fixar a hora para deitar;
- Não se influenciar pelos horários da televisão;
- Começar a “rotina do sono” cerca de uma hora antes de a criança ir deitar e manter a ordenação com que faz as coisas;
- Contar histórias para a criança;
- Despedir sempre da mesma maneira, com gestos e palavras carinhosas etc.

Enfim, para a própria segurança da criança é preciso que os pais se mostrem presentes, persistentes e, ao mesmo tempo, que não cedam aos caprichos constantes ou alertas injustificados, pois ceder constantemente cria instabilidade e insegurança. Alguns outros comportamentos precisam ser evitados, pois causam uma rotina totalmente dependente dos progenitores. Assim, quando a criança acorda durante a noite, ficará totalmente incapaz de adormecer sem ajuda. 

Evite: 

- Cantar para a criança;
- Embalar no berço;
- Embalar nos braços;
- Dar a mão;
- Colocar a criança na cama dos pais;
- Fazer atividades até cair de cansaço;
- Dar brinquedos;
- Dar leite para adormecer ou quando a criança acordar no meio da noite. Essa atitude funciona como componente regressivo, bem como fragmenta o sono, devido a dar “vontade de fazer xixi”, além de permitir uma maior proximidade psicológica com a mãe, promovendo assim um aumento exagerado da sensação de segurança ao invés da criança se tornar independente e mais segura.

Paralelamente importante, se a criança tiver uma noite mal dormida, não se deve deixa-la dormir até tarde, mas sim ir faze-la dormir um pouco mais cedo, favorecendo a rotina do sono. Se após você tentar todas essas possibilidades, a criança ainda apresentar dificuldades em dormir, a orientação é que se busque ajuda profissional de um psicólogo.

* Dra. Virginia Elizabeth Suassuna Martins Costa é mãe de 3, avó de 3. Casada com o Chef Tony por 36 anos. Atualmente viúva. Psicóloga formada pela USP, doutora pela UnB, professora da PUC-GO, Gestalt-terapeuta com formação no Brasil e exterior. Proprietária da Gestalt Clínica, ITGT e do Instituto Suassuna. Autora de livros, capítulos de livros, artigos e pesquisadora do CNPq.

Os comentários publicados aqui não representam a opinião da plataforma e são de total responsabilidade de seus autores.