É preciso desmistificar a ideia de que criança não comete suicídio ou não pensa sobre isso. A criança que tenta ou comete suicídio é uma criança em sofrimento psíquico e depende de fatores ambientais, ou seja, dos contextos de desenvolvimento da criança, incluindo-se, por exemplo, as relações parentais, escolares e comunitárias. Os conflitos familiares, principalmente os de pais e filhos, aparecem como importante fator de risco de suicídio entre crianças e adolescentes, sendo tal risco mais frequente quando comparado com os riscos entre adultos. 

Pesquisas tem apontado que doenças mentais em familiares e história de suicídio na família também são fatores de risco de suicídio infanto-juvenil. Estressores externos e violência, crises econômicas que causam impactos em muitas famílias (dentre esses o desemprego), violência contra crianças e qualidade da educação escolar e dos cuidados de saúde (acesso à prevenção e tratamento mental e de saúde em geral) são aspectos que precisam ser considerados quando se aborda essa temática.

Outros fatores de risco para o suicídio são: abuso físico da criança, violência sexual, abuso de substâncias alcoólicas por parte de adolescentes, carência de afeto e de segurança, abuso de drogas, estresse pós-traumático em adolescentes, transtornos ansiosos, história familiar positiva para o suicídio e comportamento agressivo e/ou impulsivo. Há ainda problemas relacionados à escola, como desempenho escolar, bullying, abandono escolar, crises disciplinares e dificuldade de interação social.

Na maioria dos casos de tentativa de suicídio de uma criança, a família nega e acaba mascarando o acontecimento. Além da família, os profissionais da saúde também encobrem o fato, seja por falta de conhecimento, por negação ou por medo das consequências da afirmação quanto à causa de morte. Para lidar com a temática do suicídio infantil, precisamos ter sensibilidade suficiente para perceber o pedido de socorro implícito nos comportamentos autodestrutivos e tentar, ainda em tempo, auxiliar a resolução de conflitos, tanto para evitar o ato suicida como para minimizar dificuldades que podem persistir durante toda vida.

 Alguns dos mitos que envolvem a questão do suicídio infantil são que crianças menores de seis anos não cometem suicídio e que o suicídio em crianças com mais de seis anos é extremamente raro. Não obstante, as estatísticas vêm demonstrando o contrário. O número de casos aumentou significativamente nos últimos anos e vem se tornando a mais comum das emergências psiquiátricas infantis. O terceiro mito é que crianças não cometem suicídio, porque não entendem que a morte é permanente. 

Os pesquisadores e autores Rosenthal e Rosenthal trabalharam com crianças suicidas de dois a três anos de idade e argumentam que o comportamento suicida pode ser observado em qualquer idade do desenvolvimento. Já um estudo com 34 crianças desafiou o quarto mito, que as crianças não sentem desejo de morrer. A pesquisa demonstrou que crianças podem experimentar tanta dor a ponto de desejar morrer. Solidão, medo de rejeição e ameaças de violência são tão significativas para uma criança de quatro anos como para um adulto.

Assim, faz-se muito claro que o ato suicida é o resultado de um complexo conjunto de comportamentos e que muitos dos fatores que levam ao comportamento suicida são muito difíceis de acessar, particularmente porque a maioria das vezes eles só podem ser estudados retrospectivamente.

* Dra. Virginia Elizabeth Suassuna Martins Costa é mãe de 3, avó de 3. Casada com o Chef Tony por 36 anos. Atualmente viúva. Psicóloga formada pela USP, doutora pela UnB, professora da PUC-GO, Gestalt-terapeuta com formação no Brasil e exterior. Proprietária da Gestalt Clínica, ITGT e do Instituto Suassuna. Autora de livros, capítulos de livros, artigos e pesquisadora do CNPq.

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