Como conceber uma criança mal-humorada? Onde estará a alegria de viver que as pessoas desejam ver no rosto das crianças? No entanto, até nos contos infantis encontra-se um anão chamado Zangado, que se apega à Branca de Neve como os outros, apesar de tão mal-humorado. Ele tem as mesmas necessidades dos outros anões, mas o que se vê e o que chama a atenção é que ele não parece estar feliz. O termo que é utilizado para caracterizar esse sintoma é distimia, que significa etimologicamente "mal-humorado", referindo-se a um temperamento inclinado à melancolia e que pode se cronificar, com episódios de depressão maior ao longo da vida. 

É importante entender que a vida de uma criança pode ser muito penosa ao se considerar a presença de um quadro distímico. Os critérios de diagnósticos da distimia são os mesmos para crianças, adolescentes e adultos. O diagnóstico de distimia na criança requer humor deprimido ou irritável (o humor irritável é mais comum nas crianças do que nos adultos) presente quase todos os dias, acompanhado de pelo menos dois dos seguintes sintomas: apetite aumentado ou diminuído, sono aumentado ou diminuído, fadiga, baixa autoestima, dificuldade de concentração ou de tomar decisões e sentimentos de desesperança.

Para se fazer o diagnóstico de distimia, os sintomas devem causar intenso sofrimento ou prejuízo em áreas importantes de seu funcionamento (interação social, rendimento escolar e outras). Há na literatura referência a adultos distímicos como "aristocratas do sofrer", mas também pode-se observar crianças que não se contentam com nada e se mostram infelizes cronicamente. Como exemplo, faço referência a um menino de oito anos que chora muitas vezes ao dia por motivos que seriam considerados banais por outras crianças. Ele sente-se sozinho e considera-se sem amigos. Sente-se inadequado e inferior aos colegas e costuma ser ridicularizado por outras crianças. 

Essa criança já pensou em se matar, mas diz que não seria capaz de fazê-lo. É bastante indeciso e sempre foi medroso, desde os primeiros anos de vida. Apresenta inteligência acima da média, porém não utiliza todo o potencial e, às vezes, tem dificuldade de entender perguntas simples. Com o nascimento da irmã, atualmente com dois meses, apresentou ciúmes e revelou seu sofrimento ao excluir-se do desenho que fez da família. 

Portanto, é preciso rever a tendência natural de se pensar na infância como um período feliz, livre de preocupações ou de responsabilidades. Mas as pesquisas têm mostrado que as crianças também sofrem de depressão. Sentimento de tristeza em função de perdas ou manifestações de raiva decorrentes de frustração são na maioria das vezes reações afetivas normais e passageiras e não requerem tratamento. Porém, dependendo da intensidade, da persistência e da presença de outros sintomas concomitantes, a tristeza e a irritabilidade podem ser indícios de quadros afetivos em crianças e adolescentes. 

A irritabilidade é um sintoma inespecífico, podendo ser encontrada em indivíduos normais. No entanto, ela se torna patológica quando qualquer estímulo é sentido como perturbador e a criança ou adolescente apresenta hiper-reatividade de característica desagradável, hostil e eventualmente agressiva. Alterações do humor com um forte componente de irritação, amargura, desgosto ou agressividade constituem quadros disfóricos, que podem estar presentes nos transtornos afetivos. Provavelmente, por estarem em desenvolvimento, as crianças não têm capacidade para compreender o que acontece internamente e, com frequência, apresentam comportamento agressivo.

As súbitas mudanças de comportamento na criança e no adolescente, não justificadas por fatores de estresse, são de extrema importância para o diagnóstico dos transtornos afetivos. Crianças, antes adequadas e adaptadas socialmente, passam a apresentar condutas irritáveis, destrutivas e agressivas, com a violação de regras sociais anteriormente aceitas. Esse comportamento pode ser decorrente de alterações de humor do tipo disfórico. 

Nas disporias encontradas no cotidiano, sem uma conotação psiquiátrica e como resposta afetiva aos eventos diários, observa-se a brevidade do quadro e o não comprometimento das condutas adaptativas, diversamente do que é encontrado nos quadros depressivos. Os transtornos afetivos interferem na vida da criança e do adolescente, prejudicando de modo importante seu rendimento escolar e seu relacionamento familiar e social. O termo "depressão situacional" corresponde a reações depressivas que podem ser encontradas no decorrer do desenvolvimento normal de uma criança.

As situações traumáticas desencadeadas por intensificação do estresse ou por perdas significativas, como separação dos pais, nascimento de um irmão, ou também situações de mudanças podem ser fatores desencadeantes para o quadro de transtorno afetivo com humor depressivo nas crianças. Ele pode levar ao fracasso escolar, com baixa autoestima, ansiedade, insônia, queixas somáticas, inapetência, cansaço e perda dos interesses habituais, como esporte e lazer. Esse quadro, associado a muita expectativa dos pais, tende a prolongar a reação depressiva devido a um efeito cumulativo de estresse. 

Apesar do transtorno afetivo ser conceituado como um transtorno transitório, a criança necessita de um acompanhamento, já que ele poderá evoluir para um quadro de depressão prolongado e de intensidade variada ou poderá se repetir na vigência de novos estressores.

* Dra. Virginia Elizabeth Suassuna Martins Costa é mãe de 3, avó de 3. Casada com o Chef Tony por 36 anos. Atualmente viúva. Psicóloga formada pela USP, doutora pela UnB, professora da PUC-GO, Gestalt-terapeuta com formação no Brasil e exterior. Proprietária da Gestalt Clínica, ITGT e do Instituto Suassuna. Autora de livros, capítulos de livros, artigos e pesquisadora do CNPq.

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