Não é raro ser preciso acolher crianças e adolescente em minha sala com um aspecto bem característico de uma ansiedade ou de uma crise de medo. Basta uma conversa acolhedora que logo vão contando o que estão sentindo no campo físico e emocional. Não estamos atentos a que as crianças estão participando de uma série de situações que de longe elas não possuem alcance em sua maturidade. Famílias que sequer possuem cuidado em separar ambientes de crianças e adultos. 

Muitas vezes me remeto a lembranças da época de quando os pais recebiam visitas e os filhos tinham que ir para outro ambiente brincar. Era uma proteção instintiva ou uma sabedoria por vivência, experiência de vida. Hoje, agimos como se essa privacidade fosse desnecessária. Crianças escutam as conversas dos adultos e, ainda, se sentem no direito de dar palpite ou são convidadas a opinar.
 
Toda essa inserção antecipada está produzindo sentimentos e emoções desfavoráveis aos nossos pequenos. Crianças que escutam detalhes da separação de um parente próximo, muitas vezes passam uma noite ou parte dela em claro, pensando na possibilidade dos pais se separarem também. Crianças que presenciam conversas sobre doenças de um ente querido passam a fantasiar com a possibilidade de perder um dos pais também. 

Lembro-me de que meus pais me colocavam para dormir assim que era anunciado o início do Fantástico, no domingo. Mesmo no quarto, por muitas vezes eu ouvia a notícia de um meteoro a caminho. Pronto! Era o suficiente para temer o fim do mundo, para chorar por pensar que meus pais morreriam e para morrer de medo do tema musical do programa. Vejo mesas enormes em restaurantes com até quatro famílias reunidas e as crianças na mesma mesa, ouvindo sobre negócios, “fofocas” de adultos como traições e desrespeito, formando conceitos de relacionamentos conjugais, traições entre sócios, corrupções políticas de pessoas muito próximas, entre outros assuntos. Nem de longe essas mesmas famílias descuidadas estão percebendo que as crianças estão absorvendo todo esse conteúdo e “digerindo-o” de uma forma imatura que só pode gerar insegurança na convivência com o outro.

Enquanto participam de tal cenário, as crianças entram em um círculo de pensamento construtivo, passando pela emoção e pela construção do comportamento a curto e longo prazo. O assunto fica latejante em sua mente e ela começa a elaborar aprendizados. Este movimento pode produzir uma ansiedade ou um medo enorme de se relacionar e até de crescer. Crescer significará ser inserido nesse mundo apresentado nas rodas de conversas dos adultos.

Enquanto em sua solidão de pensamento, ela reelabora tudo o que ouviu, podendo ativar um conjunto de sensações físicas e emoções geradas pelos conceitos e crenças construídas. Essas emoções podem levar a uma dimensão tão incontrolável que ela passa a não conseguir ser mais forte que o medo produzido. E a sensação aliada à construção de conceitos gera uma resposta emocional de ansiedade, medo e até pânico.
Crianças pequenas têm apresentado palpitações, sudorese excessiva nas mãozinhas e pés (extremidades), dificuldade na respiração, perda de sono no meio da noite ou dificuldade para dormir e choro sem conseguir explicar o motivo.

Muitas vezes, todas essas sensações estão trazendo um comportamento regressivo aos nossos pequenos: busca de colo constantemente, pedido para dormir com os pais, queixa de dores e mal-estar na escola, desistência de aulas esportivas e lúdicas, regressão com os cuidados na higiene pessoal e até alimentar. 

É muito importante um despertar para os adultos sobre como estamos agindo na frente das nossas crianças. Precisamos levá-las a todos os eventos sociais? Aquela velha conversa de “onde não cabem meus filhos, não nos cabe” precisa ser repensada. “Programa de adulto é de adulto”, parece uma frase óbvia, mas precisa ser repetida muitas vezes.  As famílias precisam proporcionar momentos com as crianças em família e momentos do casal com adultos. Isso é muito sadio para a relação familiar. 
É preciso rever alguns hábitos da tal modernidade. Vamos pensar nisso? 

*Fabíola Sperandio T. do Couto é graduada em Pedagogia pela UFG, especialista em Psicopedagogia e Terapia de Família e Casais, mestranda em Educação e está especializando em organização e gestão de centros educacionais. Trabalha como diretora pedagógica escolar, com uma experiência de mais de 28 anos em educação. É palestrante e terapeuta familiar e de casais. Acompanhem também o blog fabiolasperandiodocouto.blogspot.com.