Eustáquio é um pai que divide as tarefas com a esposa, Efigênia. E uma de suas tarefas é buscar Eugênio na escola. Ao encontrar pai, o garotinho de 9 anos vem correndo e abraça suas pernas. Com os olhos marejados, ele logo diz: “Papai, eu não quero ser homem”. Eustáquio não estava entendendo o que estava acontecendo. Ficou em silêncio até a entrada do carro. O silêncio dele foi interrompido com a frase repetida por mais duas vezes. Eustáquio criou coragem e perguntou: “Por que você não quer ser homem, Eugênio?”.
 
Eugênio começa a narrar que a diretora da escola entrou na sala de aula e foi explicar que eles estão crescendo e que isso chamava adolescência. Entre tantas coisas ditas, ela fala das mudanças físicas e emocionais, focando em aspectos negativos dessa fase até virar um homem. Eugênio se desesperou. Eustáquio não conseguia entender o porquê dessa atitude da escola. Não conseguia dar uma palavra ao filho. Apenas o ouvia. E, à medida que o escutava, se enchia de revolta pela escola.
 
Chegando em casa, Eustáquio chamou a esposa e contou o ocorrido. Efigênia fica em choque ao ver o desespero do filho e as consequências de uma intervenção carregada de falhas. Ela resolveu me ligar. Começou a ligação com a voz trêmula, em uma mistura de revolta e sentimento de impotência. Narrou tudo, em detalhes, sobre os medos e aprendizados do filho. Após a acolhida, orientei Efigênia sobre como ela e Eustáquio deveriam proceder:
 
1º) Sentem-se, o casal com o filho, de tal forma que os olhares possam estar na mesma altura. Olhem-se de forma amorosa. 
 
2º) Escutem tudo o que ele tem a contar, sem interrompê-lo. Deixe-o esvaziar os medos e angústias.
 
3º) Comecem a contar sobre as alegrias que vocês, pais, tiveram quando tinham a mesma idade. Contem sobre como lidaram com a mudança corporal e as emoções. 
 
4º) Embora chateados com a conduta da profissional da escola, não foquem nela. Não desautorizem a escola. Digam apenas que a diretora contou parte da fase e reelaborem as falas dela. Por exemplo:
 
Diretora: “A menina, para virar mulher, sangra no meio das pernas”.
Pais: “Filho, a menina vai crescendo e o corpinho dela vai se preparando para torna-la mocinha e, depois, mulher. Há um órgão que é exclusivamente feminino, chamado útero. Ele é responsável pela vida! Ele que guarda os bebês. O sangue é sinal que o corpo já está se cuidando para que, no futuro, ela possa ser mamãe. É lindo isso!”.
 
Diretora: “O menino vai se enchendo de pelo, a voz fica engraçada, porque cada hora está de um jeito (fina ou grossa) e o pênis de cada um fica de um tamanho”. 
Pais: “Sobre os meninos, meu filho, os pelos vão chegando devagar. Assim, como a mudança da voz. Essa é a magia do crescimento, mostrando que ele está saudável. O pênis se desenvolve sim, porém o tamanho nunca foi importante. Tudo em nosso corpo é proporcional e a nossa beleza está exatamente em sermos únicos. Cada um com o seu jeito”. 
 
5º) Após a conversa, perguntem como ele está. Procurem saber se compreendeu melhor essa transição. 
 
6º) No final de tudo, proponha uma atividade em família. Algo que cada um possa fazer e o resultado final tenha a união de todos (organizar um jantar, um jogo, um filme).
 
Efigênia ficou mais tranquila. Desligou e foi realizar as sugestões. Fiquei na torcida. No outro dia, pude perceber que a família havia se acalmado e tudo tinha dado certo. Sugeri que fossem até a escola e dividissem o ocorrido. Uma forma de contribuição para que pudessem verificar como estavam as outras crianças e repensassem a estratégia de abordagem. Cabe à escola os ensinamentos científicos, mas a didática é primordial. 
 
*Fabíola Sperandio Teixeira do Couto trabalha desde 1984 em instituições de ensino e desde 1999 em consultório. Pedagoga, psicopedagoga, especialista em Organização e Gestão de Centros Educacionais, especialista em Ensino Superior,  terapeuta de Família e Casais e mestre em Educação. Publica periodicamente no Blog Educar Faz Parte LUDOVICA - Organização Jaime Câmara e na Editora Geração Digital. Membro atuante no IBDFAM - Instituto Brasileiro de Direito de Família e associada na ATFAGO - Associação de Terapia Familiar de Goiás.
 
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