Foram vários dias pensando naquela mãe. Vários dias refletindo sobre as suas palavras. Refiro-me à mãe do fã que protagonizou uma cena de novela com uma apresentadora famosa. O que leva uma mãe a ser tão surpreendida com um ato repentino de seu filho? Seria algo repentino ou ignorou os sinais? Quais os “nossos pecados” como pais? 

É exatamente essa reflexão que pretendo promover. Um jovem por volta dos trinta anos foi, um dia, uma criança e um adolescente. Todas as nossas atitudes paternas contribuíram de alguma forma para alertar (porém sem sermos ouvidos), camuflar (omissão) ou exacerbar suas atitudes. Um homem de trinta anos já é capaz de responder por seus atos, mas vamos voltar lá na infância. Não me refiro à infância desse desconhecido, mas irei refletir sobre o nosso papel de pais na infância de nossos filhos.

Geramos uma série de expectativas sobre as nossas crias quando nascem. Sonhamos por eles, desejamos por eles e projetamos um futuro promissor para os amados filhos. E dentro desse caminhar, muitas vezes os olhamos com os olhos dos nossos sonhos e deixamos o olhar da realidade de lado. Não queremos ver que algo está os desviando do que foi projetado. E é aí que mora o perigo ou moram os perigos. Primeiramente, precisamos compreender que não podemos projetar os nossos desejos para que o outro os concretize. Quem somos nós para determinar o futuro para os nossos filhos? Esse é o nosso papel? Não! O nosso papel é nortear, conduzir e orientar nossos rebentos em seu caminhar. Mostrar os valores éticos e morais e não os permitir desviarem-se deles. Já quanto à profissão e a outras decisões futuras, precisamos permitir que façam as suas escolhas responsáveis e assumam as consequências. É um grande erro colocar o peso de nossos sonhos nos ombros de quem acabou de chegar a nossa família: o nosso bebê.
 
O segundo grande erro é não querer enxergar que o nosso filho está com um comportamento diferente. Aceitar tudo como: “é o jeito dele”; “Tadinho, ele é tímido”; “Não consegue controlar seus impulsos, preciso aceitar!”; “Fica horas no quarto entretido com a internet, nem dá trabalho.” Educar é diferente de ser legal ou complacente. Há pais que querem ser amigos, “gente boa”, “legalzão” e incluem a aceitação de tudo neste pacote. Pode até ser repetitivo, mas pais precisam ser pais. Primeiro lugar, a missão da paternidade. Com o tempo, os pais também se tornam amigos, desde que a missão maior já tenha sido arraigada na criação.

A mãe citada inicialmente insiste em ressaltar que seu filho era incapaz de protagonizar tal cena. Ela o via como um filho exemplar, pacífico, amoroso, que a levava ao cinema e vivia em casa, no quarto, chamando-o de caseiro e companheiro. Seu amor extremado a impedia de achar estranho um homem de 30 anos ainda permanecer no lar dos pais, não ter emprego e viver só no quarto, na internet. Como tinha atos educados e gentis, era tido como acima de qualquer suspeita de desvio de conduta. Será que ao longo de sua infância não demonstrou comportamentos que poderiam ser vistos como sinal de alerta?

Mas a que devemos atentar no comportamento de nossas crianças?
 
• Seu filho consegue interagir com as outras crianças ou prefere se isolar ou ficar com adultos?

• Tem hábito de contar sobre as suas aventuras escolares ou nos parques ou sempre se incomoda se é indagado de como foi seu dia? 

• É carinhoso com todas as pessoas ou apenas com alguns escolhidos?

• Percebe que age em busca de ganhos secundários ou seus atos são naturais?

• Possui fixação por algum brinquedo e chega a não o dividir ou tem preferência por determinado brinquedo, mas sem ser tão egoísta?

• Percebe que tem uma fala fixa em determinado assunto ou fala livremente sobre tudo?

• Deixa tudo em seu quarto com livre acesso a todos ou às vezes o encontra assustado com uma entrada repentina de alguém?

• Seus aparelhos eletrônicos são divididos facilmente com todos ou se irrita com a possibilidade da aproximação dos mesmos? 
 
• Mantém uma postura cortês com estranhos e em casa se mostra introspectivo e é gentil apenas com um membro familiar (o escolhido)?
 
• Possui falas carregadas de sentimentalismo e insegurança, mostrando até uma atitude possessiva (“não sobrevivo sem você, minha mãe!” ou “se fulano me largar, eu morro!”)?

• Tem atitudes e falas que remetem ao campo fértil do imaginário trazendo algo distante de seu cotidiano?

• Demonstra uma carência enorme mesmo estando em um lar amoroso?

Essas não são regras e muito menos uma receitinha de observação, mas apenas um conjunto de situações às quais devemos ligar o alertar e procurar intervir de maneira efetiva e eficaz para resgatar as nossas crianças e adolescentes para o mundo familiar. Muitos jovens mergulham no mundo virtual e fazem dele o seu mundo. Depois, a qualquer revelação que mostre que a realidade é outra, a desestruturação de sua criação imaginária o desestabiliza, trazendo sérios estragos emocionais.

Muitos jovens entram em redes sociais sem o mínimo de amadurecimento para tal. Não sabem diferenciar o que é real do que é postado. Chegam a se sentirem íntimos de determinadas pessoas por acompanhá-las tão de perto. Muitas vezes até se tornam insatisfeitos com a vida que possuem por acreditar que a vida do outro é muito mais feliz, agitada e recheada de prazeres. Os deveres e os dissabores não são postados nas redes sociais, em sua maioria.
 
Precisamos estar bem próximos de nossos filhos. Questione tudo o que aparecer por parte deles: precisam estar em redes sociais antes dos 15 anos? São necessárias saídas aos shoppings com amigos sem a presença de adultos? Estão preparados para dizer não àquilo que já internalizaram como regras e valores familiares? Precisam dormir fora de casa para se divertirem com amigos (lembrando que não temos garantias do que assistirão no lar alheio)?

Entre essas e outras que, ao deparar com ações inesperadas de jovens de uma classe social onde puderam frequentar bons lugares, tiveram pais presentes e contam com depoimentos de familiares que se mostram espantados com o resultado final da cria conhecida de todos, é que me pergunto: por que permitimos que a emoção se sobreponha à razão no que diz respeito à criação de nossos pequenos? 

Voltando ao caso inicial, como um homem de 30 anos chega a essa idade sem estudo e sem trabalho, só focado na internet e a família ainda vê normalidade? Por que acabamos por fechar os olhos para atitude do amor platônico e não conseguiram ver os exageros postados para apresentadora? De que forma esse adulto conseguiu dinheiro para viajar, hospedar-se e comprar uma arma? Será que não era beneficiado por se portar como bom filho e, talvez, o ganho secundário da mãe diante de um filho amoroso não a fez oferecer tudo o que o mesmo necessitava, gerando a acomodação? O que o fazia ter motivação para cuidar do físico, uma vez que era o único lugar em que tinha assiduidade era a academia? Uma pessoa deprimida por ociosidade não consegue ser disciplinada para exercícios físicos e culto ao corpo. 

São essas e outras indagações que me levam a pensar em como estamos agindo com as nossas crianças. Estamos atuando como pais que motivam os filhos a irem à luta dentro da realidade ou os poupando de enfrentar os deveres da vida por acreditar que precisam ter o que não tivemos? Teremos uma geração de vitoriosos e bem-sucedidos emocional e profissionalmente ou uma geração de jovens focados nos direitos, até mesmo o direito de posse de alguém que ele imagina ser uma pessoa que corresponda a seu amor platônico? Nossos filhos saberão lidar com as frustrações, rejeições e decepções ou farão qualquer coisa para obter a realização dos seus desejos? Será que, quando não frustramos nossos filhos não estamos enviando a mensagem de que são príncipes e princesas e podem tudo?
 
Que possamos aprender com cada episódio que a vida traz. Que possamos aprender diariamente a ser pais mais focados em ensinamentos a curto e longo prazo. Que a permissividade e a cultura do consumismo estejam cada vez mais distante de nossos amados filhos. Que possamos trabalhar o valor moral e ético com sabedoria e maturidade. Que a recompensa seja nunca passarmos por situações como a estampada em todos os jornais e redes sociais, trazendo um dor a todos que ninguém conseguirá amenizar.

*Fabíola Sperandio T. do Couto é graduada em Pedagogia pela UFG, especialista em Psicopedagogia e Terapia de Família e Casais, mestranda em Educação e está especializando em organização e gestão de centros educacionais. Trabalha como diretora pedagógica escolar, com uma experiência de mais de 28 anos em educação. É palestrante e terapeuta familiar e de casais. Acompanhem também o blog fabiolasperandiodocouto.blogspot.com.br.