Há anos ouvimos falar dos problemas que surgem em Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs) e até em hospitais inteiros sendo fechados por infecções hospitalares. Mas o que normalmente está por trás disso? Não podemos colocar a culpa nos controles de biossegurança, medidas tomadas para manter ambientes sem contaminação, como a esterilização de materiais cirúrgicos, o uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e todas as demais normas que cada estabelecimento da área da saúde precisa manter para evitar a contaminação cruzada - quando uma doença é transmitida de uma pessoa para outra.

Aparentemente parece ser fácil manter essas regras, não é? Mas para hospitais que têm UTIs isso vem sendo um grande problema, porque as chamadas superbactérias estão tomando conta e, quando elas chegam, estamos praticamente impossibilitados de manter esse controle, devido à alta resistência. E qual seriam as causas mais prováveis para que as bactérias estejam se tornando "supers"? Afinal, não é de hoje que a resistência bacteriana vem aumentando.

Aqui no Brasil finalmente começamos a ter controle do acesso aos antibióticos, mas sabemos que, mesmo assim, ainda existem farmácias que comercializam sem receita. Vale lembrar: o Brasil é o paraíso de "jeitim". Só que esse início de controle tardio, associado à seleção natural bacteriana, se tornou um dos maiores problemas de saúde de nosso país. E o aumento dos casos de prescrição e diagnóstico errados são os grandes colaboradores desse quadro.

Não falo somente sobre a saúde pública, que se encontra em situação preocupante, a privada também não está fora. E pelo o que sei, saúde tem muito valor! Isso me faz perceber como a inversão de valores é estrondosa. Nós, profissionais da saúde, deveríamos dar mais atenção aos pacientes que chegam até os nossos consultórios. Ficamos tão limitados em tempo, conhecimento, e tão focados em sermos especialistas nisso ou naquilo, que passamos a tratar partes, apenas a nossa parte. O que não é da nossa especialidade, fica fora, não nos diz respeito. Mas muito se engana quem pensa assim!

Digo e repito, por muitas e muitas vezes: odontologia e medicina não deveriam ser áreas distintas. A sua boca está fora do seu corpo? A minha não! Essa separação não deveria existir. O que ocorre é que depois ficamos brigando para ver quem cuida do quê. Toda e qualquer doença pode refletir em uma área do seu corpo que não seja aquela do foco principal ou inicial de avaliação. Estar atento, ouvir e pelo menos olhar para a cara do nosso paciente, deveria ser o mínimo exigido de quem se propõe a atender qualquer área da saúde.

Mas para exemplificar de fato essa indignação tenho o relato de um caso clínico recente: o paciente agendou consulta para tratar de herpes, veio sem indicação, me encontrou por meio da internet. Por meio de anamnese, relato do paciente sobre sua vida, seu histórico de saúde sistêmica e bucal, associada ao exame clínico visual (oroscopia) e quando possível a exames laboratoriais e/ou de imagens, nós profissionais já conseguimos dar algumas hipóteses de diagnósticos. Para dentistas, a inspeção da cavidade bucal é fundamental para concluir o diagnóstico. E foi exatamente como procedi com esse paciente. Nesses casos, o paciente não pode ser negligente, omisso, ele precisa relatar tudo o que sente. E nós, da área da saúde, precisamos saber o que perguntar.

Segundo ele, tomou antiviral há mais de seis meses, por conta própria. Há três meses, foi ao dermatologista, que prescreveu uma pomada. O seu lábio ardia, achava as "feridas" antiestéticas, incomodava bastante, alimentos cítricos aumentavam o desconforto e o frio melhorava. Resultado da análise: a pomada prescrita era antibiótica. Sim! Mas não era herpes? Onde está o erro? O erro está na falta de atenção.

O paciente pesquisou no "Doctor Google", deu o diagnóstico ao dermatologista que, provavelmente, sem muita paciência ou tempo concordou com a avaliação e ainda prescreveu errado. No entanto, não era herpes, tão pouco qualquer outra doença labial. Era uma alteração bucal muito comum que não necessita de nenhum medicamento, aliás, que não tem tratamento. Quanto ao ardor que ele sentia, era referente a um simples produto que ele usa há mais de um ano para fazer a higiene bucal.

Com esse exemplo dá para entender o motivo pelo qual corremos o risco de sermos invadidos pelas superbactérias. Temos contanto com antibióticos a todo tempo sem realmente precisarmos. Se continuarmos assim, tenho certeza que as superbactérias vão ganhar essa guerra. E quanto ao paciente citado, a alteração que ele apresenta em lábio em nada afeta a estética e, somado ao conjunto lábios, dentes e bom hálito, posso dizer, que ele está muito bem, obrigada!

*Karyne Magalhães é cirurgiã-dentista, habilitada em Laserterapia e qualificada no tratamento da Halitose, vice-presidente da Associação Brasileira de Halitose (Abha) e membro da Associação Brasileira de Odontologia (ABO-GO)