Desconhecida por muitas pessoas, dentre elas profissionais da saúde, essa é uma doença autoimune que muitas vezes fica subdiagnósticada. Como muitas outras enfermidades, ela é mais prevalente em mulheres, principalmente a partir da quarta década de vida, comprometendo especialmente as glândulas secretoras salivares e lacrimais.

Na Síndrome de Sjögren, o sistema imune reconhece a glândula salivar e lacrimal como não parte do organismo, sendo a doença mais comum de ressecamento. Se eu sempre digo que a saliva é o termômetro da saúde bucal, a lágrima também é considerada o termômetro da saúde dos olhos, pois não é possível ter uma boa visão se as estruturas dos olhos não estiverem úmidas. Sem lágrima, o simples ato de piscar fica comprometido, assim como fica comprometida a deglutição de qualquer tipo de alimento se não houver saliva.

As alterações não se restringem apenas aos olhos e boca. O maior órgão do nosso corpo, que é a nossa pele, se torna seco e desidratado, acontecendo também à diminuição da lubrificação vaginal. Infelizmente, essa doença passa despercebida por muito tempo, pois o diagnóstico não é simples. A maioria dos profissionais não está preparada e a própria paciente passa anos achando que aquilo não tem jeito, que uma hora vai passar e usando de vários artifícios que possam paliar a situação.

A síndrome pode ser primária ou secundária, o que quer dizer que ela pode estar relacionada a outras doenças de origem reumatológica como, por exemplo, a artrite reumatóide, Lúpus, distúrbios renais, hepáticos e pulmonares. Quem tem essa enfermidade, tem quarenta vezes mais chance de ter linfoma (câncer do sistema linfático) do que a população geral. 

O diagnóstico e tratamento são realizados por uma equipe multidisciplinar: reumatologista, clínico geral, oftalmologista, cirurgião-dentista e ginecologista. Ele acontece a partir de exames subjetivos e objetivos. Subjetivos: queixas, sinais e sintomas. Objetivos: sialometria, cintilografia, Anti-Ro (SSA) ou Anti-La (SSB), Fator antinuclear (FAN). Enfim, exames de precisão histopatológicos e sorológicos. A biópsia das glândulas salivares menores é de fundamental importância para conclusão do diagnóstico, sendo um dos mais importantes exames solicitados.

Desconfie se houver:

- Dor ou inchaço da glândula parótida (a principal glândula da caxumba);
- Aumento do fluxo salivar (pode acontecer no início da doença);
- Olhos secos, sensação de areia nos olhos e/ou dificuldade para piscar;
- Pele seca;
- Ausência de lubrificação vaginal;
- Boca seca, dificuldade para engolir e/ou falar;
- Alteração de paladar, ardência bucal, língua fissurada e/ou lisa;
 - Doenças bucais (halitose, cárie, candidíase bucal, dificuldade para reter próteses);
- Aumento excessivo do consumo de água. 

Todos esses sinais e sintomas podem levar o paciente à depressão, baixa autoestima, isolamento social, amoroso e profissional, baixa qualidade de vida. Infelizmente não há um tratamento que seja totalmente efetivo. O que nós fazemos é trabalhar em conjunto, sabendo quais são as respostas que o nosso paciente apresenta frente às diversas terapias que propomos para aliviar os sintomas. Na odontologia, cuidamos para adequar à saúde bucal frente ao fluxo e qualidade salivar alterada.
 
Um oftalmologista, Dr. Sérgio Felberg da Santa Casa de São Paulo, em palestra durante o Congresso internacional de São Paulo, nos contou que quando tratamos a baixa produção salivar e lacrimal, a paciente melhora mais da boca seca do que dos olhos secos. Ponto positivo para nós cirurgiões-dentistas!

Curiosidades: 

- Piscamos de 7 a 10 vezes por segundo;
- Glândulas salivares menores estão sendo usadas como enxerto no fundo do saco ocular, ou seja, a saliva pode nos ser útil além do que imaginamos. Seria mais ou menos isso: não chore, salive!
 
Brincadeiras à parte, o assunto é muito sério. Se você suspeitar, busque ajuda.

*Karyne Magalhães é cirurgiã-dentista, habilitada em Laserterapia e qualificada no tratamento da Halitose, vice-presidente da Associação Brasileira de Halitose (Abha), membro da Associação Brasileira de Odontologia (ABO-GO) e membro da Sociedade Brasileira de toxina botulínica e implantes faciais (SBTI).Acesse saudesalivar.com.br e botoxgoiania.com.br.

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