Eu sempre digo às minhas sobrinhas maravilhosas, magras e morenas que elas não têm ideia de quão rápido toda essa reluzente jovialidade esvanece, porque não importa quantas vezes me disseram, eu não tinha noção. Como se tal consciência nos motivasse a viver mais devagar para não gastar todo esse viço, né? Então, deixa eu ser a milésima a dizer: eu só entendi a pressa que os vinte viajam depois que me referi a eles como súbito passado. Não tem muito tempo, eu me sentia ofendida com as ininteligíveis obscenidades despejadas por uma boca desconhecida num carro em movimento. Recentemente, me peguei dizendo ao estranho galanteador no retrovisor, com mão no peito tudo: sério? Obrigada! 

Qualquer mulher que gerou um bebê sabe que a autoimagem não acompanha a brusca e contínua mudança do corpo durante a gestação. Daí, ao ver no Facebook da amiga fotos da noite passada, leva um minuto ou dois para reconhecer a gordinha usando seu vestido. Tudo muda e rápido. O cabelo cresce loucamente, o rosto toma outro formato, sem mencionar os seios e outras protuberâncias. A transição de gatinha para coroa tem impacto similar. Apesar de levar décadas, um dia a menina olha no espelho e vê uma tia. De repente, a produção leva um tempo maior, uma calcinha que vestia (ou não;)) perfeitamente o corpo começa a ficar teimosa, se enrolando, mudando de categoria sexy para desconfortável. Mas olha, minha reflexão não pretende ser escura ou pessimista em nenhum nível, afinal, estou na segunda metade dos trinta e estou apenas começando, baby. Prometo, tem luz no fim desse túnel, e de LED.

Já se pegou acelerando o passo para se poupar dos assovios e encaradas de um grupo de rapazes... Desnecessariamente? Como se um outrora delicioso e ameaçado antílope subitamente não mais apetecesse a alcatéia, exceto que o antílope se sentiria aliviado. Atrevo-me a dizer que o teste da construção não é um mito. Quem nunca se tranquilizou ao receber um dos ultrassônicos assovios inversos dos nossos nobres e másculos pedreiros, lixeiros, jogadores de pelada, desocupados de bar brasileiros? Desde que mudei para os subúrbios de Seattle, logo de frente a uma High School, vejo o termômetro impetuoso do tempo cutucar minha vaidade. Recentemente, durante uma corrida matinal, senti o quadril travar enquanto tentava sair do caminho de uma frota de rapazes. Foi necessária uma força imensa para continuar minha corrida de gazela quando na verdade eu queria rolar na grama e mancar de volta para casa como um cachorro de feira. Acredite, não faço questão de parecer atraente aos olhos de meninos que não sabem sequer lavar o pé, mas come on, quem trava quadril é a avo da gente. Já nos primeiros estágios de artrite, eu só posso rir da empolgação da minha mãe ao tentar trocar figurinhas sobre determinada dor em tal dedo. Acho que dá uma certa validação. Eu mal entrei na categoria da tia que segura a jaqueta das sobrinhas na boate. Será que tropeço aqui na autoimagem? 

Há alguns anos fui ao show do Back Street Boys e New Kids On The Block em Tacoma, num encontro histórico, homérico e faraônico das duas maiores “boys bands” dos anos 1990. A gata que tem mais de trinta provavelmente tinha um favorito que era denominado seu e ninguém tocava (Kevin!). Entre Step by Step e “Uuhh Baby”, olhei à minha volta e não senti conexão com as senhoras que vi na platéia. Eu teria certeza que era a mais jovem das milhares de mulheres ali não fosse minha maior certeza de que não era. No palco, um monte de quarentão com muita energia e pouco cabelo. De olhos vidrados naquele bando de coroa lindo, tomei posse do momento em minha vida e me rendi a histeria coletiva. Eu era só mais uma delas. Milhares de histórias diferentes tão iguais. Quantas delas moraram em Goiânia e comprou Capricho só para ver o Kevin eu não sei, mas todas nós tivemos um dia muita diversão, nostalgia e pina colada... E eu que ria da minha tia dizer que Jerry Adriani era um “pão”. 

Eu costumo dizer ao meu marido que ele não é apenas o homem que eu sonhei, mas que o pôster no armário era de um cara exatamente como ele e com essa imagem impressa na mente que eu dormia quando adolescente. Claro que a brincadeira nos rende boas risadas. Imagine meu príncipe um sargentão careca cujo bigode cretino eu aprenderia a amar. Nos esquecemos de que o tempo passou para o Brandon e Dylan do Barrados no Baile, para nossos amigos do Friends e embora eu não tivesse um coroa no pôster dos anos 1990, o rapaz que ele foi certamente faria o corte. A beleza muda e atração vira um conceito mais colorido, com matizes que variam entre realizações de vida, inteligência, bom humor, valores e simplicidade de alma. Ai, entrei no modo madrinha de novo?  

Quando no modo madrinha a gente se pega tentando viver pelos mais jovens, como um Avatar que otimiza o uso do sensacional organismo, esquecendo que quando se é jovem faz parte do processo amar e odiar com força, viver tudo até o avesso e enfiar o pé na jaca. É como o esforço desnecessário de carregar a mala num trem em movimento. A vida voa indiferente para mim e para você, mas esquecer de ser feliz ou até sofrer por isso é voltar a carregar o peso desnecessário quando o trem leva de qualquer maneira. O que faz a diferença seguramente é a atitude que decidimos adotar quando chega o seu tempo de ser coroa. Se você vai se ver como a versão decadente de si ou abraçar as estações da vida entendendo que cada uma tem sua beleza e propósito. Que você seja a rainha das coroas que te cercam, que você seja a gatinha das madrinhas, que se exercite mais do que toda a sua vida não porque a reconciliação com seu jeans favorito está cada dia mais difícil, mas porque você quer e pode.
 
Tem uma beleza que não vem do óbvio, do literal, mas do que dissipa e reflete como luz mesmo, a aura. Já viu gente que é bela ao invés de apenas bonita, de gestos e traços que elogiam a personalidade mesmo que não sejam hollywoodianos. Acho que amadurecer é isso: navegar por essas águas clandestinas da beleza feminina, saber intermediar a negociação entre o seu eu exterior e o interior. Claro que foi uma delícia ter o bumbum no lugar sem esforço, vestir 34, amanhecer sem dormir e funcionar no outro dia, viajar pela Europa com a melhor amiga, enfim, não consigo me lembrar de um período em que eu tenha me sentido mais invencível. Porém, a vulnerabilidade e empatia são meu novo passaporte para o mundo e eu adoro. Eu faço um hike com um filho nas costas e acho que esse é o meu novo superpoder. Eu fiz duas pessoinhas, os amamentei, plantei flores e fiquei com pena de mulher nervosa considerando os efeitos avassaladores da menopausa, vendo assim uma nova versão de mim. 

As mudanças provocadas pela maternIDADE são, via de regra, devastadoras e podemos ver na postura de muitas mulheres que deixam essas mudanças as definirem quando as mesmas deveriam ser parte do arsenal que nos equipa durante a fase de mulher adulta. Uma arma desenhada muito mais para desarmar do que atacar. A gente não ganha sempre. Tensão sexual não é superpoder. Ouvir, sim. Atrair olhares não é superpoder. Atrair mentes, sim. Encarar a mulher no espelho com amor, respeito e compaixão é clarividência, é o que nos faz pegar na mão de uma desconhecida e cantar uma música dos anos 1990 como se fossemos irmãs revivendo um passado juntas, pois nos encontramos em alma e é a caminho desse meio maravilhoso da vida que a gente fala tudo uma para a outra sem dizer uma palavra, mas está na cara que é rainha. 

*Susy Vieira é jornalista, radialista, mãe e alquimista. Vivendo nos Estados Unidos há quase 10 anos, casada com Buzz Lightyear e mãe de dois amáveis monstros. Sou apenas mais uma criança adulta tentando encontrar seu lugar no mundo e aqui dentro. A prova mais clara de que a vida tem vontade própria: não me casar, não ter filhos e viajar o mundo sozinha foram os melhores planos que eu nunca concretizei. Pratico jardinagem, boxe, feltragem. Estou lendo sobre sincronicidade, toco violão e estou num quente affair com ukulele.