Vou falar do filme “O Som e a Fúria” porque acabei de reler o livro. A obra é quase ilegível e, certamente, “infilmável”. O fato de o ator James Franco ter decidido levar adiante esse projeto revela mais sobre ele do que sobre a própria obra literária. Tem que ser muito pretensioso para dirigir um longa baseado em “O Som e a Fúria” *, ainda mais um cineasta iniciante. Pensei isso. Mas depois repensei: “bom, é melhor ser pretensioso e divulgar uma obra-prima do que a futilidade reinante no universo das celebridades”.

A história trata de uma família em decadência no sul dos Estados Unidos e, por mais que não deveria interessar a ninguém, foi ela que levou o escritor William Faulkner ao prêmio Nobel de literatura, o que interessa a alguns. Mas não é a história (nunca é a história), mas o jeito de contá-la. E aí ele divide em quatro capítulos, trezentos e poucas páginas e mais um adendo explicativo. Os três primeiros são narrados por membros da família Compson, a tal decadente que eu mencionei antes. O primeiro capítulo começa depois que o segundo, cronologicamente falando, e só no final, e talvez nem no final, percebemos o que ocorre: eles se traindo, se roubando etc. E tudo é narrado assim no chamado “fluxo de consciência”, que é quando escrevemos como se estivéssemos pensando e os parágrafos são poucos, os “es” se acumulam, os pontos e vírgulas idem. Isso de tal maneira que você pensa que está na mente do personagem. Faulkner muitas vezes tem sucesso nessa empreita, mas é preciso paciência. Nós, leitores, precisamos ter paciência porque ele se repete, porque todo pensamento importante volta e temos que pensar com eles (os personagens).

O mérito do livro é o modo no qual ele narrou o mesmo. História por história, existem muitas melhores. James Franco até que tentou, mas não conseguiu fazer a coisa funcionar. 

* Faulkner pegou o título do livro de uma frase da peça Macbeth, de William Shakespeare:  "A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria, sem sentido algum". Não é à toa que a narração começa com alguém mentalmente incapacitado.

*Frederico Ribeiro é escritor e jornalista. Cinéfilo e cineasta. Uma crítica não é uma verdade absoluta, mas deve ser uma opinião isenta. E-mail: fredericoribeiro@yahoo.com.